terça-feira, 22 de abril de 2008

DIA D - DIA DA DESILUSÃO...

A MÃO QUE PÕE E DISPÕE


Com muita astúcia, minuciosa premeditação, muito “rebuçadismo” de permeio, outro tanto medo de muitos e a traição de alguns, o longo braço férreo do poder central chegou, finalmente, onde e como queria. A cadeia de comando está montada, pronta a espremer resultados: números. Nas escolas vai falar-se muito mais de números — de horas, minutos e segundos; de percentagens, médias, modas; coeficientes disto e daquilo… — e eles é que vão constituir o epicentro de toda a dinâmica. Vai toda a gente — falo do pessoal docente, claro — “jogar para o resultado”, como no futebol português. Como foi possível?

O projecto de decreto-lei que regulamenta o regime de autonomia, administração e gestão das escolas escolas tresanda a poder e subserviência. De Abril, nada tem, mas tem muito de lógica empresarial, de patronato e empregadagem, facto que terá caído muito bem a muita gente já cansada e desgastada das lides democráticas, de representação daqueles que os elegeram, de partilha de decisões, do confronto com opiniões divergentes, enfim, gente ávida de algum absolutismo, para quem “nomeação” é muito mais sinfónica do que “eleição”. Esses foram os primeiros a interiorizar todas as fases subsequentes deste processo e, mesmo antes de tal diploma entrar em vigor, já o adoptaram, com muito carinho, passando a representar o Ministério da Educação em toda esta frente de luta contra o estatuto e prestígio dos professores: foram muito, mas mesmo muito poucos os que estiveram ao lado da arrasadora maioria dos colegas; quase todos optaram por dizer à senhora ministra da Educação “Presente! Pode contar comigo!”. Este foi o “código postal” da cadeia de comando.

No seio das escolas, os prazos para aplicação do novo estatuto do aluno, assim como para elaboração das grelhas de avaliação de professores caíram como bombas-relógio, e só a manifesta impossibilidade prática impediu que, em muitos casos, se tivesse passado imediatamente à acção. Aqui ou ali, parece que tal ainda chegou a acontecer, de forma absolutamente patética e com o seu potencial de comicidade, caso não tivesse tanta tristura subjacente. Foram escassas as direcções das escolas que contestaram, na essência, o regime de avaliação docente e muitas apenas se queixaram da falta de tempo, de muito “tarefismo”. Mas o que caracterizou a maioria foi uma anuência tácita, como se tal avaliação não lhes dissesse respeito: e esses até chegaram a ser mais rigorosos do que a tutela, criando nas escolas um clima de intimidação que levou muitos dos “titulares” à brandura de posições, à ambiguidade, ao distanciamento, refugiando-se amiúde na ingratidão desse estatuto que, segundo eles, coitados, apenas lhes trouxe arrelias e conflitos de consciência. Aqueles que, para além de “titulares,” também são coordenadores viveram momentos de pânico, num autêntico jogo da corda entre a indignação dos “só-professores” e a força irreversível do braço do poder, que se manifestou sempre através dos órgãos máximos das escolas. E não tardaram as fracções do lado mais fraco, apesar de muitíssimo numeroso: alguns, achando talvez que a sua especialidade disciplinar não era propriamente a visada com “esta avaliação”, foram cedendo o terreno aos colegas das disciplinas mais alvejadas; outros foram-se lembrando dos cônjuges, dos filhos, da hipoteca, das calças… e passaram ao silêncio prudente, ao distanciamento — e, por vezes, algo mais — relativamente àqueles que se mostravam mais inconformados e determinados a lutar até ao fim, evitando assim qualquer conotação ou colagem inconveniente, no futuro; outros, como se depreende, foram ficando sós, com as bandeiras na mão, lutando por todos, incluindo aqueles que sempre estiveram mais sós desde o início, à mercê de uma iminente “dentada” impiedosa: os professores contratados, o elo mais fraco da cadeia (que também devem ter família, hipotecas…).

Mais longe, no decisivo “tabuleiro de xadrez”, a Plataforma Sindical — submetida, de facto, aos superiores interesses de outrem, tentava ansiosamente capitalizar o que 100.000 professores haviam conseguido, com a sua indignação, conquistar em Lisboa: trazer a ministra da Educação para o “jogo”. E, quando esta tocou a sinfonia do “entendimento”, com instrumentos de sopro feitos de rebuçado, surgiu imediatamente o doce milagre da vitória de ambas as partes, tal como nas noites de eleições, com muitas bandeiras desfraldadas: o recuo; o entendimento; a aproximação; a serenidade; o apaziguamento; a abertura; as condições, blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá… Afinal, quem ganhou o quê?

Apenas uma leve fragrância: a ministra da Educação recuou, mas não caiu aliás, recuar é, por vezes, uma boa estratégia bélica, ou a única estratégia conducente à vitória. Cedeu no acessório, mas garantiu o essencial: a sua avaliaçãozita, que vai induzir “sucesso”, “abandono-escolar-zero”, orçamento light, à custa do aviltamento da dignidade dos professores; a carreira docente continuará dividida em dois estratos fundamentais, ficando a maioria dos profissionais a ver os lugares cimeiros “por um canudo”; está aberta uma auto-estrada para a imposição do novo regime de gestão, condição sine qua non para que toda a engrenagem funcione “na perfeição” e que, como se viu, é ansiosamente aguardado por muita gente de fé; a ministra da Educação e o Governo ganharam um enorme balão de oxigénio para as eleições de 2009, a prenda do camarada Nogueira; o soalho da Plataforma Sindical apreciou especialmente a “melodia da contagem do tempo”, alguns acordes em “Dó-menor” e interpretou, em tom épico, a “opereta do recuo”; o camarada Mário Nogueira deu um autêntico recital de estratégia política. Auguro-lhe, por isso, grande futuro nessa área. Goodbye ensino, don’t worry!

E depois veio o Dia D, jubiloso e apoteótico, em que tudo foi explicadinho aos “setôres”, por gente muito esclarecida e bem-intencionada. Foi um dia de plenitude inigualável. Ainda chegámos a pensar que tínhamos perdido a contenda — estávamos a ser burros! — mas, depois, quando nos disseram que, afinal, aquilo era uma estrondosa vitória, pousámos as albardas e fomos para a rua exultar: um-dois-esquerda-direita; um-dois-esquerda-direita; um-dois-esquerda-direita...

Luís Costa

1 comentário:

Anónimo disse...

concordo nesta análise da situação:

"outros foram-se lembrando dos cônjuges, dos filhos, da hipoteca, das calças… e passaram ao silêncio prudente, ao distanciamento — e, por vezes, algo mais — relativamente àqueles que se mostravam mais inconformados e determinados a lutar até ao fim, evitando assim qualquer conotação ou colagem inconveniente, no futuro; outros, como se depreende, foram ficando sós, com as bandeiras na mão, lutando por todos, incluindo aqueles que sempre estiveram mais sós desde o início, à mercê de uma iminente “dentada” impiedosa: os professores contratados, o elo mais fraco da cadeia (que também devem ter família, hipotecas…)."

assim penso que era altura de negociar...

sob pena de só andarmos à pancada, não contra a ME..., mas uns contra os outros...
lm

P.S. o Dia D já estava marcado, e, claro, tinha de se falar do entendimento... ;)

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