sexta-feira, 17 de outubro de 2008

ABAIXO-ASSINADO (ESC. SEC. DR. JÚLIO MARTINS)

Exmos. Senhores
Presidente do Conselho Geral Transitório
Presidente do Conselho Executivo
Presidente do Conselho Pedagógico


Depois de muitas horas passadas em leitura e descodificação de documentos, em reuniões de área disciplinar, departamento e conselhos vários, em reflexões individuais ou de grupo, na tentativa de descortinar algum sentido no modelo de avaliação imposto pela Tutela e em formas de operacionalização do mesmo, algumas das quais já efectivamente aprovadas pelos órgãos da escola, subsistem enormes dúvidas quanto a uma série de questões, das quais destacamos, como forma de exemplo, as seguintes:

1. Na ficha de avaliação pelo Presidente do Conselho Executivo (PCE)

1.0. Relativamente ao parâmetro A.1. não está esclarecido o que significa o cumprimento de 100% do serviço lectivo, uma vez que, por exemplo, o professor pode estar ausente por acompanhamento de alunos em visita de estudo, sendo deste modo sempre penalizado, porque ou não deu a aula (A.1) ou não participou ou dinamizou actividades previstas no PEE, PAA e PCT’s (C.1.).
1.1. O PCE sente-se com capacidade e competência para avaliar objectivamente o parâmetro “Cumprimento do serviço do apoio educativo e do apoio individual aos alunos” (A.2.1.1)? E, no caso de entender que “o docente propôs, dinamiza e colabora sistemática e continuadamente em actividades de apoio educativo e apoio individual aos alunos” (A.2.1.1.4), atribui-lhe 9 ou 10? Temos direito a saber qual a diferença!
1.2. Se, em relação ao parâmetro B.1.2, o docente tiver definido os objectivos pelo mínimo terá grandes probabilidades de os superar. Pode o PCE garantir que os objectivos estavam clara, objectiva e honestamente definidos?
1.3. Como é que o PCE avalia objectivamente “o empenhamento e a qualidade da participação” de todos os docentes nas estruturas de orientação educativa e nos órgãos de gestão (C.3.1.1)?
1.4. Não será utópico que aos professores, para além das múltiplas e absorventes tarefas e funções, ainda lhes seja exigida a “participação e dinamização de projectos de investigação, desenvolvimento e inovação educativa” (C.4)?
1.5. Parâmetro E. “Relação com a comunidade”, baseia-se apenas nos objectivos individuais. O que é preciso fazer para ter a nota máxima?
1.6. No parâmetro F.1.3. o avaliador é penalizado (só tem 3 pontos) se atribuir “à maioria dos docentes avaliados igual classificação em todos ou quase todos os itens e parâmetros”. Afinal, não é possível isso acontecer, sobretudo em áreas disciplinares onde se trabalha muito em equipa, i.e., os professores dos mesmos anos planificam aulas em conjunto, elaboram testes em conjunto e partilham experiências e recursos?
1.7. Tal como referido no ponto 1.1., aparecem vários itens/indicadores com classificações como “1 a 6” ou “9 ou 10”. Afinal em que ficamos? É um 1 ou é um 6? É um 9 ou um 10? O que é que distingue estas classificações?

1.8. Perguntas ao PCE:
1ª Possui instrumentos de registo de todas as observações que tem de efectuar? Se não tem, o processo não pode ser iniciado. Se tem, temos direito a conhecê-las.
2ª Sente-se com capacidade e tempo disponível para avaliar com objectividade, coerência, fundamentação e justiça todos os docentes desta escola em todos os indicadores e parâmetros?

2. Na ficha de avaliação pelo Coordenador de Departamento/Professor Avaliador:

2.0. Parece haver incoerências no parâmetro A., uma vez que o parâmetro A.1. “Correcção científico-pedagógica e didáctica da planificação das actividades lectivas” engloba todos os outros, i.e., as estratégias, metodologias e recursos fazem parte da planificação.
2.1. No parâmetro B.1. há uma redundância pois os objectivos e orientações já estão incorporados nos programas.
2.2. Quanto ao parâmetro B.3., para além de poder ser questionada a questão da eficácia da utilização das tecnologias na aprendizagem dos alunos, assim como a sua acessibilidade, também é necessário definir o que são “recursos inovadores” e se a única forma de observação deste parâmetro são as grelhas das aulas assistidas. Afinal vamos ter de fazer planos de aula “especiais” para quando o avaliador está presente ou será simplesmente mais honesto e natural seguir o nosso plano de trabalho?
2.3. O conteúdo do parâmetro C, itens/indicadores C.1., C.2., e C.3., remete para muito do que já está incorporado no parâmetro B., enquanto o item C.3. remete para situações extra lectivas que não podem ser observadas, como a grelha sugere, na grelha de observação de aulas.
2.4. Perguntas aos Coordenadores de Departamento/Professores Avaliadores:
1ª Possuem instrumentos de registo de todas as observações que têm de efectuar? Se não têm, o processo não pode ser iniciado. Se têm, temos direito a conhecê-las.
2ª Sentem-se com competência científica e/ou pedagógica para avaliar com coerência, justiça, fundamentação e objectividade todos os docentes que lhes estão atribuídos, mesmo que não pertençam à vossa área disciplinar ou eventualmente tenham uma preparação científica, académica ou até pedagógica superior a vossa?

Perante todas as dúvidas e incoerências demonstradas e convictos de que:

1. Todas estas questões decorrem da regulamentação imposta pelo Decreto Regulamentar nº. 2/2008 e não da nossa incapacidade ou falta de vontade de resolver problemas;
2. A avaliação de desempenho dos professores e a sua progressão na carreira não se pode subordinar a parâmetros como o sucesso dos alunos, as classificações atribuídas e o abandono escolar, desprezando variedades inerentes à realidade social, económica e familiar das turmas que lhe são atribuídas, bem como à relevância das aprendizagens anteriores dos alunos, e cria desigualdades devido ao facto de algumas disciplinas/anos/turmas estarem sujeitos a avaliação externa e outros não.
3. O modelo não assegura a justiça, a imparcialidade e o rigor, não valoriza de facto o desempenho dos docentes e não beneficia a aprendizagem dos alunos;
4. A sua apressada implementação tem desviado os professores para tarefas burocráticas de elaboração e reformulação de documentos, em detrimento das funções pedagógicas;
5. As escolas e os alunos estão a sofrer com a exaustão de professores afogados em burocracia, instabilidade, insegurança e excesso de carga horária e de trabalho;

Os professores abaixo assinados solicitam a todos os órgãos da escola, particularmente Conselho Geral Transitório, Conselho Executivo e Conselho Pedagógico, que não aprovem quaisquer documentos nem dêem início ao processo de avaliação de desempenho de docentes, sem estarmos todos esclarecidos em relação às questões acima mencionadas e convictos de que o modelo é exequível e intrinsecamente bom, rigoroso, justo, imparcial e benéfico para os alunos, para os professores, para a comunidade educativa e, em última instância, para o sistema de ensino em Portugal. Solicitamos ainda que quaisquer resoluções destes órgãos sejam devidamente fundamentadas, divulgadas aos professores e enviadas para o Ministério da Educação.

Escola Secundária Dr. Júlio Martins, 16 de Outubro de 2008

6 comentários:

Anónimo disse...

Se as escolas adoptassem este tipo de postura todos sairiam a ganhar:
Os alunos que teriam professores a fazer aquilo que até agora fizeram e repito fizeram-no bem - formar, ensinar a pensar, ajudar a que cada um cresça e tome decisões;
Os pais que poderiam confiar num sistema justo e isento de vicios;
Nós, que poderíamos pensar sem pressão as aulas e a nossa vida porque acima de tudo somos Pessoas, temos familia e, como qualquer trabalhador temos direito a descansar ao Sábado e Domingo e, pelo contrário temo-nos visto atulhados em papeis, grelhas e tudo mais. Já agora, em nome de quê?

Safira disse...

Parabéns aos colegas da Escola Sec. Dr. Júlio Martins. Força Professores!

Abraço solidário,

Safira

anna disse...

Colegas,
As questões que colocam são muito pertinentes e ilustram bem a insanidade desta espécie de modelo de avaliação. Integro a CCAD da minha escola (sob protesto!) e estou a elaborar uma noção de esclarecimento, espero que não se importem que aproveita algumas das vossas questões.
Muito obrigado!
Abraço solidário,
anna

Anónimo disse...

Cada vez tenho mais orgulho em ser transmontana. Com esta medida pode ser que a dignidade dos professores venha de novo ao de cima. Força colegas não nos deixemos humilhar por alguém que nada percebe de ensino. Vamos continuar a ser aquilo que sempre fomos - PROFESSORES.
E acreditem: Nós ainda havemos de ser Professores e esta senhora(?) já não há-de ser ministra.
Parabéns aos Professores de Chaves. Vamos todos usar as mesmas armas e lutar pela nossa saúde mental.

Ana Silva disse...

Como é gratificante ver os professores da "minha" 1ª escola (1982)a assumir uma posição de valor e sustentada em argumentos válidos. Ao contrário da nossa Ministra/Governo que apresentou/apresenta razões balofas (como ela)para sustentar o Estatuto e a divisão da carreira dos professores, o regime de avaliação ou o novo Modelo de Gestão, os professores com estas atitudes mostram que não são contra apenas porque "são", desmascaram todos os podres de um documento plagiado, fascista e sem nenhum benefício para a Educação.

Manuel Pereira da Silva disse...

Parabéns pela coragem!!!
Vou seguir a vossa proposta e apresentá-la na próxima reunião do meu Departamento de Expressões.
Até ao momento penso que ninguém a ia aceitar, agora já faz sentido dada a dinâmica que se está a criar.
Aqui no Porto, ou pelo menos na minha escola a coragem anda um bocado arredada.
Um abraço,
Pedro Nunes
(Escola Secundária de Carvalhos)

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