terça-feira, 16 de dezembro de 2008

E AGORA QUE OS BÁRBAROS NÃO VÊM, QUE FAZER?

Por Mário Crespo, in Jornal de Notícias

Dos últimos dias de guerra da educação fica uma única questão: que fazer agora que tudo falhou? Na conferência de Imprensa, Mário Nogueira remeteu para os professores a continuação "da luta" com um cardápio genérico de apelos às escolas para que continuem em instabilidade. Nada mais. Os sindicalistas saíram da malograda última reunião com a tutela derrotados e sem mais propostas.

Com ingenuidade surpreendente para os homens da luta, tinham aceite ir a um encontro definitivo sem uma agenda clara num ambiente cheio de pré-avisos do Ministério de que não haveria cedências. Sei, por relato em primeira-mão, que foi uma reunião de uma frieza e falta de cordialidade brutais. Esta ambiência, pela mera forma, não traz boas notícias para um sindicalismo que já não pode ir mais para a rua sem correr o risco de ser suicidário.

Mário Nogueira revelou o nervosismo que tudo isto lhe causa, adoptando em conferência de Imprensa uma atitude mimética do comportamento mediático governamental. Insistiu em longas tiradas de discurso inconsequente e sem novidade, não se deixando interromper por jornalistas, refugiando-se em repetições dispersivas e irritantes para todos. O episódio teve o mérito de mostrar em público que o desnorte na educação é total.

Do lado do Ministério, a ausência de flexibilidade transformou um problema técnico importante numa mera questão política que remete directamente para o primeiro-ministro a solução do problema e acabará por ensinar a Maria de Lurdes Rodrigues a lição de Sociologia que Wellington deu depois da vitória de Waterloo. Que só havia uma coisa pior do que perder uma batalha. Era ganhá-la.

A actuação de Sócrates terá de ser uma qualquer de cedência com uma qualquer suspensão do modelo inaplicável que a ministra concebeu. O primeiro-ministro tem de avocar a si este dossier porque o secretário-geral do Partido Socialista não tem já mais saídas. A rejeição frontal da política de educação por Manuel Alegre empurra-o à esquerda, enquanto as ofertas de mediação propostas por António José Seguro fragilizam-no na própria área de Executivo moderado e eficaz onde se tem tentado afirmar. De facto, a proposta de mediação de Seguro desafia e critica a sua liderança em toda a linha. Adicione-se a isto o facto de largas dezenas de milhar de professores serem eleitorado do PS e deduz-se que Sócrates tem um calendário com poucas semanas, talvez mesmo apenas dias, para reagir, senão Cavaco Silva, falando como sempre na terceira pessoa, virá a público manifestar a grande preocupação do presidente da República com o estado a que chegou a educação no país.

O Natal e Ano Novo, quando as boas vontades dos homens com estratégia se congregam, são alturas tão propícias a reflexões destas. Uma coisa é certa, este calendário da acção de Sócrates coincide exactamente com o tempo de vida que resta à actual equipa do Ministério da Educação, incluindo as suas curiosas delegações regionais, cuja inabilidade política e comportamental destruiu por si as imunidades que os três anos de filiação partidária e militância espalhafatosa lhes têm dado. Quem continuará a sofrer com isto é a escola. A escola de onde todos querem sair. Os professores para a reforma e os alunos para a rua. A escola que é a obra conjunta de Maria de Lurdes Rodrigues, Mário Nogueira et al.


In Jornal de Notícias.

8 comentários:

Anónimo disse...

Mas de bárbaros falamos? Dos alunos ou dos professores? Tenham vergonha.

Anónimo disse...

"Bárbaros" conotação histórica: aqueles que levaram à queda do Império Romano!

25sempre25 disse...

Não posso garantir, mas parece-me que ninguém a não ser o Mário Crespo, se lembraria de aliar o Mário à MLR na destruição da escola.

professora disse...

Os professores fizeram tudo o que lhes foi possível e lhes foi pedido nesta luta. Aliás, superaram em muito tudo o que fosse possível imaginar. Este capital foi mal gerido e mal aproveitado. Temos que ser nós mesmos, professores a redimensionar e a conduzir a nossa luta ou seremos esmagados sem dó nem piedade. Se fomos capazes de responder como o fizemos até agora, também vamos ser capazes de tomar o destino nas nossas mãos de agora em diante, ou damo-nos por vencidos? Olhemos para o exemplo que nos vem de outros sectores, aparentemente menos capazes. Vejamos os exemplos dos camionistas, dos funcionários derecolha do lixo: partiram para a luta e fizeram-na a sério, não às pinguinhas e resolveram o problemas de vez. As grandes trovoadas que causamos fazem pouco estrago, sempre receosos dos prejuízos que possamos causar.

professora disse...

que fazer agora que tudo falhou? Na conferência de Imprensa, Mário Nogueira remeteu para os professores a continuação "da luta" com um cardápio genérico de apelos às escolas para que continuem em instabilidade. Nada mais. Os sindicalistas saíram da malograda última reunião com a tutela derrotados e sem mais propostas."
Mário Crespo tem toda a razão, e a pergunta que faz tem a resposta que todos nós conhecemos: a batata quente foi-nos passada, e não é com um dia de greve remetida para as calendas de Janeiro que a ganhamos. Ou enveredamos por uma estratégia de luta a sério ou não vale a pena continuarmos a dar espectáculos de diversão pública. Lamento que não se tenha optado por uma greve bem conduzida às avaliações da próxima semana. Mais uma vez apelo aos Movimentos de Professores. É connosco que temos que contar. Greve de um dia não faço.

Anónimo disse...

Sejamos bárbaros então!
Derrotemos este ministério e este primeiro ministro que ordena que se cumpra o que ELE quer.
Está na hora, não da ministra ir embora, mas de se fazer um novo 25 de Abril!
Professora Sara de Freitas

Anónimo disse...

Isto começa a "cheirar a esturro"... será o 2º MEMORANDO????
Para quando a "BOMBA ATÓMICA" de uma semana, às avaliações, de zelo????
Afinal, creio que na verdade, se dormirmos muito iremos ter muitos pesadelos e acordar sem roupa

lobo disse...

Bárbaros são todos aqueles que estão contra o humanismo, a cultura. Obviamente, o governo e seus apoiantes enquadram-se muito bem na definição. Só um inculto, um bárbaro, não entende isto.

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