sábado, 27 de dezembro de 2008

ESTOU DE LUTO, ESTOU EM LUTA

A nossa pedagogia esqueceu que os rios sussurram

Há dias em que a voz não te sai assim só porque queres dizer. Este é um desses dias. Foi um dia feito de anos. Preciso escrever porque preciso falar, mas não consigo falar nem consigo calar. A garganta estrangula, a voz encalacra perturbada por uma despedida. Despedida de uma amizade que começou aos dez anos, era sessenta e seis. Hoje tornou-se dia de ontem. Morreu um pedaço da minha memória. Amigo à flor da pele na juventude, em primaveras incensadas de cravos e flor de laranjeiras. Alma gémea em estio tórrido, quando na encosta de urze e giesta e mar ao longe, enquanto nos vendiam a guerra, comprávamos a nossa verdade e a nossa paz.

Durante nove anos nos sentámos nos bancos da mesma escola, quase sempre na mesma turma. Juntos, encontrámos o gozo da escola e do ensino. Fascinaram-nos olhos negros; flamantes de querer saber, entender, resolver e conhecer; de esperança num futuro virgem de independência. Cooperantes na Guiné, naquela escola de quem nada tinha, excepto vontade, vivemos a esperança de ajudar a conhecer, a escolher, e a ler futuros. Ao cabo de um ano regressaste e eu permaneci, acabei baptizado Mamadu. Aqueles olhos que julgavam ter nada e tinham mundo, deixaram-nos reféns e desenharam-nos a vida. Depois andei à procura do mundo e a tactear mundos, e nos desencontrámos. Para me entregar, para continuar a aprender, escolhi regressar às escolas da nossa terra. Nos dias que correm, vivo um país, e vivo escolas, nos antípodas da quimera contida na minha escolha.

Hoje recebi uma lição dos teus alunos que ali estavam, os últimos que te viram. Os que, intrigados, perceberam, que o mesmo não eras naquele dia. Por eles, percebi que ainda tinhas mundo, e generoso, o continuavas a partilhar. Perceberam que eras habitado e ouviam-te. Percebi que também te escutavam. Agora, impotentes, choram-te. Ficas neles e nelas, e com eles e com elas, por cá. Não há tostão que pague. São eles e elas os tostões que nos pagam a vida; quando têm vida. Contaram-me o teu último sumário: entraste, olhaste fixamente todos, sem dizer palavra foste embora.

Alguém te recordava sem angústias, nem depressões aparentes. Recordaram-te ainda bem parecido, elegante, de bem com a vida e desafogado. Fica uma mãe sem filhos; ficam dois filhos sem pai, um deles é uma criança. Era impossível imaginar esta decisão na tua cabeça. Quando te encontraram no carro à porta de casa, chamaram para avisar que te estavas a atrasar, quando não respondeste perceberam que estavas a antecipar. Não repararam que tinhas saído e voltado. Passavam minutos da última aula. Ao lado tinhas uma carta de renúncia, a um papel que te atormentava na escola. Não chegaste a entregá-la. Preferiste a coragem de um revolver enferrujado, apontado à raiz de pensamento sombrio. Depois, foi uma semana de vida suspensa por um fio de morte cerebral, e enfim, voaste.

Hoje na capela, a tua presença era a tua ausência, não era um soco, era um nó, era uma fotografia perturbante que não olhava, inquieta teimava cair no chão. Eras os escritos dispersos, com palavras que vestiste e povoaste, palavras com que te vestiram, e sonhos que te descreveram. As palavras que nos custavam, incredulidade e soluços, olhos raiados e olhos escondidos, lenços, e convulsões. E os olhos que não te conseguiram ver.

No instante em que te pegaram para virar cinza, fez-se real, cheguei tarde demais para te abraçar. Faltaram palavras que se perderam. Os três que ficamos, dos quatro cúmplices de ontem, abraçámos o que era possível, de madeira escura envernizada com escritos grudados. Vimos, olhos nos olhos, o regresso instantâneo ao presente e a lembrança do futuro, e lemos nas lágrimas o nosso dantes comum decepado. De um escrito, que levava uma parte do mundo que te habitou, fiz desvanecer uma frase, onde lia: “luto por uma pedagogia que não se esqueça que os rios sussurram, que as aves gritam…”. Desculpa as letras salgadas, Fernando. Há ausências que estrafegam.

Ainda atordoado, lembrei-me de outro ser, muito vistoso por fora, mas aos meus olhos, oco, desprovido de ponta de seriedade, honestidade e consistência por onde se lhe pegue. Este não tem mundo, quer o mundo. Faça por isso. Não à custa da minha pele, nem à custa da minha dignidade. Não o admito. Atropela e não respeita a formação e educação dos outros, tal como não respeitou a sua. Não é um homem com palavras, é só caumbersa. É uma ausência, presente e perigosa, absoluto e pai natal.
Não se sente homem mas Deus
Criador da paz e da guerra
Um milagre lhe atribuem os meus
O de criar inferno nesta terra.

Não é palavra em que se acredite, não é verbo, só conhece e conjuga primeira pessoa do singular, é substantivo impostor, adjectivo falacioso, e advérbio de modo fanfarrão. Não vale uma resignação! É palavroso, de um palavreado enganoso, para mim odioso, vazio, exterior, nem fálico nem encefálico. E o pior, não é um Homem de Palavra. Imagino a dor de quem o legitimou. Da ausência presente, no prometido que acreditou.

O momento é delicado para exteriorizar este facto, para exorcizar publicamente esta dor, mas não fui eu quem determinou a hora, muito menos este destino. Que não se retirem ilações, aqui não há acusações. Ninguém sabe Nada! Só que, do momento, não consigo varrer o que há no horizonte:
- Morte de inteligência colectiva;
- Liquidação de células cerebrais, que se tornam preguiçosas, ou mesmo inúteis, porque dispensáveis no percurso formativo. Contudo, indispensáveis ao património comum;
- Genocídio intelectual;
- Estagnação cultural e social, de gerações vindouras de pobres e remediados. Percurso regressivo, rumo à estratificação social por descendência.
Ou seja, olhando para o prejuízo: limitação da base de selecção. Um cérebro nasce por ter nascido, desenvolve estimulado, fertilizado; merece revelar-se por ser, não por ser filho de… Conjecturas e preocupações, que resultam do que vivencio, à luz da minha observação enferma de intolerância: à astúcia, à manipulação, ao vexame da inteligência alheia.

Hoje
Mais que nunca
Mais que demais
Faz sentido a faixa negra, com que tenho andado por aí.

Estou em luta,
Estou de luto.

Da próxima vez que levar a faixa pelo braço, ela leva-te no coração.

Teodoro Manuel
16/12/2008

2 comentários:

professora disse...

Repito aqui o comentário que deixei no Profavaliação. É o meu contributo para que o aviso passe:

Li todo o texto com um misto de terror e devoção: terror por descobrir que não é ficção e que a morte bateu à porta de mais um dos nossos; devoção pelo respeito e homenagem que esta dor encerra. Infelizmente já partiram demasiados.Infelizmente muitos mais de nós vamos partir. A ferocidade do ataque leva-nos a alma antes de nos levar a vida. O seu texto é a mais bela das homenagens porque é um belíssimo poema à amizade e é também o grito inconformado que, como um arauto, nos avisa a todos da infâmia urdida. Ouçamos o grito, estejamos atentos, saibamos com a nossa resistência, dar sentido à morte do Fernando. Obrigada, colega.

Anónimo disse...

Começa a ser frequente...E tudo está nas nossas mãos.Que ninguém se esqueça disso!

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