terça-feira, 9 de dezembro de 2008

NÃO QUERO MAIS E-MAILS

Ex.mos Srs.

Sou professora há vinte e oito anos. Durante todos estes anos não tive o prazer de receber uma única carta (a Internet é uma invenção recente) nem um e-mail dos vossos serviços, excepto quando fui convidada pelo então ministro David Justino para participar nos Encontros de Caparide, sobre os novos programas de Português. Este convite deveu-se ao facto da minha escola ter estado durante cinco anos consecutivos nos cinco primeiros lugares dos Rankings dos Exames Nacionais do Ensino Secundário e de eu ser uma das professoras responsáveis pelos resultados. De repente, recebo duas comunicações endereçadas por noreply a convidar-me a colocar os meus objectivos on-line (provavelmente para me poupar trabalho e para evitar ter que os discutir com a minha avaliadora, conforme a lei obriga) e ainda três esclarecimentos enviados pelos vossos serviços. Assim gostaria de esclarecer que:
1º Não sou loura nem burra;
2º Sei ler e interpretar a legislação, que mal seria se o não fizesse sendo professora de Português, mas, admitindo que o não fosse, tenho amigos e familiares advogados e juízes sempre prontos a esclarecer-me;
3º Desde o concurso para professores titulares, considero que os vossos serviços não merecem a honra de me contactarem nem de receberem uma resposta minha;
4º Durante vinte e oito anos de serviço dediquei a minha vida à escola, e expensas da minha própria família (prescindi mesmo da licença de amamentação do meu filho para orientar estágio, a pedido do Conselho Directivo, por não haver ninguém disponível e para não perdermos o núcleo de estágio);
5º Na escola onde lecciono, a Secundária de Barcelos, dos professores no 9º escalão, só eu e uma colega do mesmo Departamento ocupámos um tão grande número de cargos. Estive durante três mandatos no Conselho Executivo, fui Directora de Turma, orientei o estágio da Universidade Católica de Braga, orientei estágio na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Docente de Apoio Pedagógico), fui Coordenadora dos Directores de Turma, fui Coordenadora de Departamento e de Secção. Dos cargos existentes na escola só não fui Directora da Biblioteca nem doutras instalações, nem pertenci à Assembleia de Escola;
6º Quase todos estes cargos foram exercidos antes de 2000, ficando, por isso, fora dos sete anos escolhidos para a candidatura a Professor Titular (Portugal deve ser o único país em que Curriculum Vitae não significa toda a vida mas apenas sete anos. A propósito, fui confirmar e no meu processo há registo de todos os meus cargos, de todas as minhas faltas, horários de todos os meus anos lectivos ao contrário do que a Sra. Ministra afirmou quando justificou que o concurso só dizia respeito aos últimos sete anos por falta de registos anteriores;
7º Quase me esqueci de mencionar (pois para o Ministério parece ser o menos importante) que fui professora, tenho anos lectivos sem uma única falta, os meus alunos continuam a ser excelentes nos Exames Nacionais, fiz, para me actualizar todas as acções do Projecto Falar sendo, por isso, Professora Acompanhante dos novos programas de Português;
8º Consegui no concurso para Professora Titular 124 pontos mas não tive vaga, pelo que não passo duma mera professora, que nas palavras da Sra. Ministra não pertence ao leque dos professores excelentes que os pais devem ambicionar para os seus filhos. Na minha escola, num outro Departamento, uma colega é Titular com oitenta e poucos pontos, o mesmo acontecendo noutras escolas;
9º Como aparte devo referir que muitos dos meus antigos alunos desejam que eu seja a professora dos filhos, sabe-se lá porquê!
10º Neste momento, de acordo com a lista graduada da minha escola, descobri que estou no limbo (apesar do papa o ter extinguido) pois apenas tenho o meu índice remuneratório, não pertencendo a nenhum escalão;
Assim, e em jeito de conclusão, agradecia que parassem de me enviar e-mails. Para o caso de não lerem este, vou assinalar no meu o vosso endereço como spam evitando assim enervar-me sempre que vejo o vosso contacto.

Sem mais

ANB

10 comentários:

Anónimo disse...

Muito bem dito.Ah!, Ah!, Ah!.

entre-linhas e entre-letras disse...

A minha resposta ao mail do ME:

Ex.mos Srs.

Sou, há 34 anos, professora de Português. Sei ler e interpretar leis. Quando as mesmas se contradizem, como frequentemente acontece no Ministério de Educação, procuro esclarecer-me. Verifiquei já que esses esclarecimentos não me são dados pelos vossos serviços que não têm disponibilidade para responder. A única vez em que me responderam foi para dizer que vos solicitasse o esclarecimento através da escola porque não prestavam esclarecimentos directamente.

Se alguma vez, por excepção, recebi a simpatia de um postal de Boas Festas - uma formalidade trivial e pouco relevante mas que nos faz sentir que também no Ministério da Educação temos um nome - não foi obviamente, neste mandato do governo.

Assim, não encontro explicação para a mensagem que acabo de receber.

Com os meus cumprimentos,

Anónimo disse...

Seria muito bom esses antigos pais escreverem para os Jornais ou para o senhor Presidente da República, para sabeem a vergonha deste Ministério - Injustiças nest Democracia.

Adolfo Torres disse...

Obrigado pela partilha. Muito Obrigado!
São casos como este que nos dão razão. já agora, gostava que tivesse sido minha professora.

Anónimo disse...

Os ratos perceberam que a blogosfera é um reduto da resistência dos profzecos, vai daí, faz lembrar a célebre frase "depressa e em força para Angola", cá estão eles com o firme propósito de desmantelar toda e qualquer hipótese de oposição aos donos da nação.

Maria Ana

Anónimo disse...

Os ratos perceberam que a blogosfera é um reduto da resistência dos profzecos, vai daí, faz lembrar a célebre frase "depressa e em força para Angola", cá estão eles com o firme propósito de desmantelar toda e qualquer hipótese de oposição aos donos da nação.

Maria Ana

Anónimo disse...

Os ratos perceberam que a blogosfera é um reduto da resistência dos profzecos, vai daí, faz lembrar a célebre frase “depressa e em força para Angola”, cá estão eles com o firme propósito de desmantelar toda e qualquer hipótese de oposição aos donos da nação.

Maria Ana

Anónimo disse...

Pois também os mandei passear. Mais legalisticamente invoquei a legislação em vigor, mas agradeço que a colega tenha compartilhado o seu desabafo. Tenho mais de trinta anos de serviço e optei por não ser titular. Aliás um aspecto que sempre me incomodou neste processo foi que não houvesse uma acção concertada para boicotar a candidatura à titularidade. Não obstante, havemos de lá chegar.
luisladeira

Anónimo disse...

Aqui as ratazanas também entraram...vale tudo para manterem os jobs.

Mariana

Anónimo disse...

«todos estes cargos foram exercidos antes de 2000, ficando, por isso, fora dos sete anos escolhidos para a candidatura a Professor Titular»

Pois, no meio das várias aberrações de que enferma o concurso para Professor Titular esta é a maior.

Como é possível que o curriculum anterior a 2000 não conte?

A quem interessa (interessou) que assim fosse?

Tirando os próprios, que vozes se levantaram para contrariar esta aberração?

Fátima, Porto

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