quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

RATOS, RATOEIRAS E PALHAÇADA

REUNIÃO DO SECRETÁRIO DE ESTADO, JORGE PEDREIRA,

COM PROFESSORES SOCIALISTAS.

Relato feito nos comentários do jornal «Público» de 23.12.2008


Jorge Pedreira equipara os professores a ratos numa reunião de professores socialistas, explicando porque não pode ceder o ministério às exigências dos professores:

- Quando se dá uma bolacha a um rato ele a seguir quer um copo de leite!

O Secretário de Estado falou durante 50 minutos, ininterruptamente e sem recurso a qualquer tópico escrito. Trazia, natural e obviamente, a lição mais do que sabida.

Disse essencialmente disparates e mentiras. E até ofendeu os professores. Aquelas coisas que estamos fartos de ouvir: os professores trabalham poucas horas, nunca foram avaliados, não querem ser avaliados, os sindicatos assinaram e agora não cumprem com o que assinaram, os professores eram uns privilegiados porque progrediam automaticamente nas carreiras, o excessivo abandono escolar, a falta de hierarquias, o premiar do mérito, etc., etc., etc.

Na plateia reconheci, de imediato, o Humberto Daniel, ex-presidente da junta de freguesia de S. Sebastião, e o Paulo Pedroso, deputado do PS. Paulo Pedroso teceu críticas ferozes, também preocupado com os resultados eleitorais. Disse que "a Escola está agora pior". E referindo-se a uma passagem do discurso do Secretário de Estado, em que este dizia que os últimos dez anos foram uma barafunda (não me lembro se a palavra foi esta ou outra idêntica) nas escolas, Pedroso lembrou que "o PS esteve 7 desses 10 anos no governo". Foi muito aplaudido. Seguiram-se outras intervenções, de professores.

No final do discurso, Jorge Pedreira havia dito, referindo-se às negociações com os sindicatos, que não estava na disposição de ceder nem de renegociar. E coroou o seu raciocínio com o provérbio chinês:

"Quando se dá uma bolacha a um rato, a seguir ele quer um copo de leite".

Assim, sem tirar nem pôr! Depois de me apresentar, esclareci que sabia o que era uma metáfora, mas que não podia ficar indiferente à contextualização dada àquele provérbio, onde os professores eram comparados aos ratos, e salientei:

- Um professor pode até aceitar uma bolacha e pode até beber um copo de leite, mas também sabe desmontar uma ratoeira.

Tensão na sala, com muitos olhos em cima de mim, de pé, com o microfone na mão. Mas não fraquejei e achei que devia ser ainda mais contundente. Depois de referir as fraquezas deste modelo, a má-fé e as reais intenções que estão por trás dele disse:

- Isto é uma palhaçada!

Continuei dizendo que o ME está sempre a passar à opinião pública que os professores trabalham poucas horas e que têm muito tempo de férias. Lembrei:

- Em relação às horas, não sei como chegam a essa conclusão, pois eu nunca trabalho menos de 40h por semana, e é frequente trabalhar bem mais. Quanto às férias e às paragens, como nos podem atirar isso à cara, se nos limitamos a cumprir o calendário estipulado pelo ministério? Até parece que os professores andam a roubar alguma coisa a alguém.

Sabia que estava a pisar terrenos argilosos, mas arrisquei de novo:

- Isto é uma palhaçada!

Às tantas, o Vítor Ramalho interveio e disse que não podia admitir esta linguagem, que se tratava de um encontro de militantes do PS onde as pessoas se respeitavam. Eu, que vejo na generalidade dos políticos pessoas que são tudo menos sérias, estive-me nas tintas para os seus pruridos. Perguntei-lhe se os não-militantes não podiam intervir. Disse que sim. Perguntei-lhe se me deixava continuar e concluir a minha opinião. Disse de novo que sim. E eu continuei. Para concluir lembrei-me de uma série de ataques que o secretário de estado fez aos professores e às suas formações. A esses ataques respondi:

- Todos os professores têm formação média, superior ou equiparada, alguns têm mestrado, outros têm doutoramento. Fizeram profissionalização dentro dos moldes estipulados superiormente. Fazem acções de formação e actualização com regularidade. Como nos podem atirar também isso à cara? Lembro que mais de 90% dos professores têm habilitações académicas superiores às do primeiro-ministro.

Aí é que foram elas! Não se podia falar mal do ai-jesus de todos eles, ali. Pateadas da mesa e de muitos dos presentes na plateia. Ainda perguntei, por duas vezes:

- Estou a dizer alguma mentira?

Ninguém me disse que não. Sentei-me. Ninguém bateu palmas. Ouvi atentamente as intervenções seguintes. Um psicólogo referiu que a ministra tem, à partida, qualquer coisa contra os professores e que isso é notório nas suas intervenções. O último a falar foi um colega que referiu conhecer como funcionam as coisas noutros países da Europa, onde esteve várias vezes em trabalho, e não saber de nenhum onde os professores sejam divididos em duas carreiras. Questionava ele a que país, afinal, tinha ido o ME inspirar-se. Para terminar, foi dada a palavra ao secretário de estado, que voltou a falar das virtudes deste modelo de avaliação e da importância de o levar à prática. Foi um discurso circular, onde muito pouco se reflectiram as preocupações colocadas pela plateia. Foi assim a minha aventura de quatro horas numa palestra promovida pelo partido que suporta o governo e que está a destruir o ensino público no nosso país.

António Galrinho da Escola Secundária de Sebastião da Gama - Setúbal

3 comentários:

Anónimo disse...

Isto está a ficar sinistro! Chantagens, manipulação, mentira e sobretudo o medo e a ameaça...
Soa familiar! A democracia ainda está assim tão verde?
Será possível que os portugueses não pensem? Será possível que acreditem que a quase totalidade dos professores tenha perdido o juízo?
É espantoso como se está a embarcar nesta onda de mediocridade sem uma reacção expressiva de quem tem capacidade de entendimento! Abandalhe-se mais a imagem dos professores e veja-se o resultado no futuro. A crise de autoridade funciona como uma bola de neve. Caos, ditadura... o que vamos ver?

Anónimo disse...

Como pode alguém, em sã consciência, utilizar tal metáfora para professores? "Quando se dá uma bolacha a um rato, a seguir ele quer um copo de leite". Estou pasma.

Modesta Trindade Theodoro
BH - Brasil
blogda modesta.zip.net

Anónimo disse...

ISTO DEVERIA SER DIVULGADO NA COMUNICAÇÃO SOCIAL E, POR MIM, TER CHEGADO AO SENHOR PRESIDENTE DA REPUBLICA
...ELE DIZ QUE É DE TODOS, SERÁ ???

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