segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A PRESSA DO GOVERNO

O jornal Público tem hoje um dossiê sobre o ensino profissional. A não perder!


Pressa no ensino profissional pode criar guetos de jovens
12.01.2009, Natália Faria

Até 2010, o Governo quer que metade dos jovens no secundário escolham as vias profissionais.
Será depressa de mais?

O Ministério da Educação não está a dar às escolas públicas as condições necessárias para garantir a eficácia dos cursos profissionais, dizem especialistas ouvidos pelo PÚBLICO agora que o ensino profissional faz 20 anos.

O Governo acaba de anunciar que o ensino profissional mais do que triplicou nos últimos dez anos, em alunos e cursos, e que o objectivo é que, até 2010, metade dos jovens no secundário optem pelas vias profissionais - onde "não há desemprego", segundo Maria de Lurdes Rodrigues. Mas "esta pressa toda", alertam especialistas, tem fins estatísticos e ameaça transformar o ensino profissional numa "oportunidade perdida".

Os problemas apontados vão da falta de preparação dos professores à falta de recursos materiais, passando pela ausência de autonomia para poder adequar os cursos às necessidades de emprego de cada região. "Querer andar depressa em educação é trágico. Querer andar depressa para melhorar estatísticas é perverso", diz Fátima Antunes, investigadora do Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho, cuja tese de doutoramento analisou o subsistema profissional de ensino.

Ninguém questiona a pertinência de abrir a escola pública aos cursos profissionais, até porque, como diz o investigador Luís Imaginário, "tudo o que for para diversificar a oferta formativa é bom". O que os especialistas criticam, em primeiro lugar, é o facto de o Governo estar a apresentar o ensino profissional como remédio para todos os males do desemprego entre os jovens. "É desonesto querer atrair os jovens para os cursos profissionais dizendo-lhes que, a seguir, terão emprego", diz o professor associado na Faculdade de Psicologia e das Ciências da Educação da Universidade do Porto. "Isso não passa de uma ilusão que vai contribuir para que estes jovens se sintam falhados."

"Os meninos do insucesso"

Os cursos profissionais em Portugal nasceram há 20 anos por iniciativa privada, que englobava autarquias, associações empresariais e industriais. "Não era tudo ao molho e fé em Deus", ressalva Imaginário, um dos impulsionadores. "Havia numerus clausus e, portanto, os jovens eram seleccionados", corrobora Fátima Antunes. Por outro lado, o lançamento do subsistema de escolas profissionais foi acompanhado pela criação de equipas técnico-pedagógicas que "andaram, durante anos, a correr o país e a supervisionar o processo".

Muito à conta disso, a empregabilidade dos jovens destas escolas, e estamos a falar das privadas, era (e é) muito alta. "Cerca de 75 por cento dos alunos que terminam o curso têm emprego ao fim do primeiro semestre e, ao fim do primeiro ano, a taxa sobe para os 90 por cento", diz Luís Presa, presidente da Associação Nacional do Ensino Profissional (Anespo), que congrega "praticamente a totalidade" das 200 escolas profissionais privadas do país. Ainda não há números sobre empregabilidade dos jovens que saem das públicas, uma vez que esta integração só começou em 2004.

Foi atraído pelo sucesso da experiência privada que o Ministério da Educação decidiu, nesse ano, transpor os cursos profissionais para as escolas públicas. Hoje, 60,3 por cento dos 91 mil alunos do ensino profissional estão na rede pública.

Só que esta "abertura torrencial" dos cursos profissionais nas escolas públicas tem "um risco muito elevado de desvirtuar o sucesso educativo alcançado pelo ensino profissional", alerta Joaquim Azevedo, presidente do Centro Regional do Porto da Universidade Católica.

Onde está a fina flor?

Razões do risco? Porque, "regra geral, é uma medida política comunicada administrativamente a escolas onde impera a matriz liceal" e onde a cultura de ensino profissional é igual a zero", diz Azevedo. Porque as escolas secundárias "geram enormes caudais de insucesso e de abandono escolar" e porque, neste contexto, o que se tem estado a fazer é afectar os "meninos do insucesso" aos cursos profissionais. O resultado prático, conclui Azevedo, é que se criou "um novo tipo de guetização para os jovens que não estão preparados para prosseguir os estudos superiores".

À frente do conselho executivo da Secundária Fontes Pereira de Melo, no Porto - onde 40 por cento do ensino é profissional -, José Manuel Teixeira confirma que "os alunos que caem no ensino profissional não são a fina flor dos estudantes", mas os que "não têm pedalada para seguir o ensino regular". O professor Silva Pereira, com décadas de experiência no ensino profissional, concorda. "Os nossos alunos têm origens sociais e competências inferiores às dos que se mantêm no ensino regular."

Para Hugo Fonseca, 23 anos e aluno do 10.º ano de mecatrónica automóvel, a alternativa a andar na escola era trabalhar nas obras como servente. "Cheguei a andar um ano como trolha, depois a minha namorada pediu-me para eu vir estudar", conta. O 7.º, 8.º e 9.º já tinham sido feitos "em dois anos", num curso de educação profissional. "Fiz os módulos todos a tempo e até tirei boas notas. Aquilo era só o básico. Dava uma vista de olhos na matéria e chegava." Antes deste curso, Hugo chumbou vários anos e ainda tentou um curso de cozinha, mas desistiu. De seguida, iniciou um de canalizador, mas também saiu "porque era longe de casa". Agora está "um bocado desiludido, porque a matéria é muito repetitiva". É para desistir também? "Num sei. O horário aqui é um bocado sobrecarregado..."

Certeza absoluta: "Voltar para a escola normal é que nunca! Não é que eu seja burro, mas aquilo era muito secante. Ficar 90 minutos fechados a levar com um prof punha-me maluco."

Perspectivas: "Se conseguisse fazer o 12.º e ter um emprego certinho e garantido... Mas o mal deste cursos é que muitos não arranjam emprego ou então, como muitos que eu conheço, vão trabalhar em coisas que não têm nada a ver..."

Com a tónica colocada na quantidade, os cursos profissionais, em vez de serem uma alternativa, estarão, em muitas escolas públicas, a funcionar como travão à marginalidade juvenil. Não será pouco, mas poderia ser muito mais.

E por isso o professor Silva Pereira insiste no exemplo das privadas. "As escolas profissionais privadas, porque visam o lucro, têm que ser capazes de colocar os alunos no mercado de trabalho. E, porque têm fundos, conseguem ter convénios, proporcionar estágios na Alemanha, comprar materiais no valor de milhares de euros e contratar técnicos que asseguram a qualidade da formação. Qual é a capacidade das escolas públicas para fazerem isso? Zero."


In
Público (12-01-2009)

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