domingo, 22 de fevereiro de 2009

A GESTÃO DA DEMOCRACIA

O desfile de carnaval em Paredes de Coura é apenas a face visível e mediática de uma questão muito mais negra e que nos traz de volta fantasmas que julgávamos exorcizados das nossas vivências. Trata-se de uma questão de poder e, como qualquer questão de poder, implica algumas tomadas de posição extremadas e à margem daquilo que seriam as normais práticas da democracia e da cidadania.

As Escola estão organizadas de forma a incluírem, nos seus órgãos decisórios, elementos representativos dos seus interesses e organizadores das suas políticas. Essa representatividade é determinada hierarquicamente e aceite pelos constituintes de cada órgão. O Conselho Pedagógico é, por excelência, o órgão decisório na organização de cada Escola. É, acima do Conselho Executivo, responsável pelas actividades a realizar, pelas políticas a instituir e pela agenda da Escola.

As decisões emanadas dos Conselhos Pedagógicos das Escolas são fruto da autonomia de que gozam e legitimadas pela democracia que regula o seu funcionamento… mas não em todas as Escolas. No Minho, em Paredes de Coura há uma Escola onde o Conselho Pedagógico não rege efectivamente a sua própria Escola… não rege não porque não esteja mandatado para isso, não rege não porque não esteja composto de elementos competentes para o fazer, não rege não porque não tenha reconhecimento institucional e social para o fazer…

A democracia tem coisas aborrecidas… tem nuances que incomodam… não serve o interesse de todos ao mesmo tempo… obriga a compromissos em vista de um bem maior… por vezes obriga-nos a aceitar decisões que não nos agradam mas que são fruto de interesses mais representativos que os nossos… não é um sistema organizacional perfeito mas, tendo em conta as opções, é o melhor que temos… A democracia tem regras definidas, algumas delas tão básicas que nem faria falta recordar – a legitimidade da maioria, por exemplo.

Um Conselho Pedagógico com 15 representantes decide, democraticamente, rever e fazer uma gestão mais ajustada do seu Plano de Actividades retirando aquelas que não considera nucleares ao desenvolvimento pedagógico dos alunos. A votação, democrática, não é unânime (o tal empeno da democracia que nem sempre agrada a todos) mas é aceite pelos presentes. Até aqui a democracia prestou um serviço a todos porque, melhor ou pior, todas as partes interessadas estavam representadas e tiveram direito à expressão da sua opinião.

Onde a democracia começou a desfalecer foi no momento em que o Representante dos Pais considerou que esta solução, apesar de maioritária e democrática, não servia os seus interesses. O representante dos Pais (a mim não me representa) tem o direito a lutar pelos interesses daqueles que o nomearam e deve fazê-lo em Sede própria e socorrendo-se dos procedimentos instituídos e aceites por todos dentro da organização hierárquica. Deve fazê-lo também imbuído de um espírito crítico, frontal e honesto para com os seus pares… e não o fez… pondo-se completamente à margem do compromisso funcional do órgão onde tem assento, numa atitude ressabiada de menino a quem não fazem a vontadinha, foi fazer queixinhas à comunicação social… e fugiu à verdade nas suas declarações… exagerou, deturpou, atrapalhou. Ao bom estilo da comunicação social actual, o Representante dos Pais foi "um prato cheio" para os "jornalistas". Não estou com isto a dizer que a sua atitude não foi de esperteza… até foi… a democracia não serviu os seus interesses, não foi capaz de aceitar uma decisão que não lhe era favorável… então toca de arranjar subterfúgios que fizessem vingar a sua derrota – que dos fracos na reza a História.

Não tardava muito que o Ministério da Educação não se fizesse mexer, a bem da educação do povo, fazendo todo o tipo de pressão para que se realizasse o Desfile… "the swow must go on". Como referi no início o Desfile é o fiel da balança… obrigar os professores a participar é a prova acabada de que, neste caso, a democracia é "maleável" e "adaptável" em função de interesses que passam muito além da realidade escolar e da hierarquia estabelecida… é um indicador da força de quem manda... e quem manda assim, atropelando os trâmites determinados e as resoluções anteriormente assumidas em Sede legítima, mata a democracia.

Mal de nós (todos) quando a democracia pode ser determinada pela imprensa e pelos interesses de 1 contra a vontade de 14. Os professores participam obrigados neste cortejo e infelizmente este acto vai ser visto como um vergar dos professores à estratégia do Representante de Pais. Aos mais fracos de espírito não faltará o ímpeto mesquinho de julgar:

– Obrigámos os Professores a participar no Desfile.

Aos professores sobra a consolação de o fazer porque coagidos;

Sobra a tristeza de ver a democracia assim manipulada;

Sobra a consciência de que os órgãos de gestão só servem quando as suas decisões são favoráveis a certos interesses;

Sobra a ideia de que toda a gente tem opiniões a dar na Educação e que todas são consideradas, menos as dos professores;

E a mim em particular acresce a indignação:

quero os meus filhos educados por professores com capacidade de decisão;

quero os meus filhos educados por professores livres, respeitadores e respeitados pela democracia;

quero os meus filhos educados num ambiente onde as decisões se tomem de forma consciente, salutar e solidária;

quero os meus filhos educados por PESSOAS na verdadeira acepção da palavra;

sem estarem manietadas nem serem obrigadas a ir contra as decisões dos seus pares, forçadas por estratégias interesseiras;

quero que os meus filhos aprendam o conceito de Fascismo nos livros de História e não nos livros de Mundo Actual;



Luís Filipe Ribeiro Borges
Professor e Pai de um aluno do Agrupamento Vertical Território Educativo de Coura

7 comentários:

Anónimo disse...

Continuo a pensar no país em que vivo: depois da humilhação feita pelo Ministério de Educação aos professores de Paredes de Coura, não há consequências políticas? Ah, então compreendo quando afirmam que Portugal é um país mais atrasado que a Espanha ou a França, para não irmos mais longe – também os políticos que nos governam ficam nos calcanhares dos políticos espanhóis e franceses.
Pena é que tenhamos de viver nesta ditadura imposta pelos partidos políticos, em que a competência, o profissionalismo e a dedicação às causas nacionais são coisas que valem pouco ou nada para quem nos governa; os interesses prioritários dos mandantes são outros e nada têm a haver com o dia a dia do Zé-povinho.
Vamos também lá ver quantos deputados do PS vão querer continuar na Assembleia da República na próxima legislatura. Porque será que, num regime que se auto promulgou de “democracia” impedem candidaturas de listas independentes de concorrer às eleições legislativas?

Ni disse...

Colega Luis Filipe.
gostaria de comentar o seu post, mas perante a clareza com que expõe o assunto,tirou-me a oportunidade de "brilhar": já disse tudo!
Parabéns pela excelente análise social e política, pela coerência, pela pertinência. Acredito que se tenha manifestado quer na qualidade de pai quer na de professor. E em ambos os casos orgulho-me de ainda haver portugueses desta estirpe.

Anónimo disse...

A partir deste triste e ditatorial acontecimento, as questões que se colocam são as seguintes:
Qual é a legitimidade e a autunomia das escolas a partir de agora?
Como serão realizadas as reuniões de pedagógico? e as decisões lá tomadas? haverá uma acta ou os orgão da sensura terão de analizar os resultados primeiro? Valerá o sacrifício dos professores em reunirem horas a fio, para que os outros decidam sobre as suas decisões?
será que a srª que instigou todo este processo percebe alguma coisa de educação? ou ocupa o cargo(na dren) de pau mandado do Sócrates e da Maria?
Os professores de paredes de coura mostrarm a todos os seus alunos e aos Encarregados de Educação que são corajosos e que em tempos de ditadura não baixam os braços!
Um abraço a todos!

Força

Anónimo disse...

Vejam este divertido filme

http://www.youtube.com/watch?v=2oWJsEORxIE&eurl=http://opiolhodasolum.blogspot.com/

alfarodix disse...

O artigo está muito bem fundamentado, mas peca por dois motivos.

Em primeiro lugar não aborda a motivação que esteve na origem da decisão do CP. O que transpareceu para a opinião pública foi de que esta decisão foi simplesmente uma represália contra a burocracia introduzida na escola. A ser verdade, o representante dos pais tem motivo para estar revoltado. Como o artigo não aborda esta parte, atacar da forma que o fez a atitude do representante dos pais é simplesmente uma atitude imparcial, indigna de credibilidade.

O segundo ponto é o argumento da democracia. Segundo o autor as decisões tomadas por maioria devem ser respeitadas pelas minorias e atitudes como as do representante dos pais não são admitidas. Pode então o autor do artigo, uma vez que é professor, explicar porque razão os professores desafiaram as decisões tomadas por maioria legislativa nacionalmente eleita pelos portugueses? Ou será que o argumento da democracia só é válido quando é para defender interesses próprios e é para desrespeitar quando os interesses próprios estão em causa? Se assim for então o representante dos pais teve legitimidade para desafiar a decisão do CP.

Por favor sejam sinceros convosco e quando esgrimirem argumentos façam-no de forma justa e imparcial.
Crucificar um pai como este artigo o faz quando o comportamento dos professores perante a sua entidade patronal tem sido idêntico só vos tira credibilidade.

Anónimo disse...

Concordo plenamente com o que diz o Alfarodix. É preciso saber o que está por detrás da decisão dos professores. E saber se o representante dos pais no conselho pedagógico foi informado da intenção dos professores ou se foi confrontado com o facto consumado na hora da votação. Se assim foi, foi marginalizado pelos restantes elementos do conselho pedagógico.

Anónimo disse...

Acho vergonhoso que um partido dito socialista , que um partido dito da liberdade, esteja de cócoras ao seviço de social-fascistas. Isto é alguma democracia? O que me custa é que haja tanta gente cega a votar nesta camarilha e tantos oportunistas a baixarem a tromba a troco de migalhas. Nojentos!

Desde 01-01-2009


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