terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

HUMANISMO TIPO SOCIALISMO MODERNO

Dizia-me, em entrevista há uns anos, um conterrâneo meu moçambicano a propósito das nacionalizações feitas pela Frelimo em 1975: "Quando foram os prédios e as fábricas, as pessoas gostaram, mas quando chegou a vez da sua palhota [para irem para a aldeia comunal] as pessoas começaram a sentir [o mal que lhes estava a acontecer]."
Quis o destino que a minha mãe falecesse. Enquanto professor do ensino secundário, fui informado que legalmente tenho direito a cinco dias de nojo. Mas, para cumprir todas as aulas previstas para que a minha futura avaliação não seja prejudicada, as últimas terão de ser leccionadas. Fico com um dilema: ou o Estado respeita um direito que se prende com a dignidade da condição humana sem me causar remorsos; ou fico com um peso na consciência por infringir o dogma de não faltar às aulas. Isso porque os outros professores do meu grupo (História), que normalmente trabalham mais do que lhes seria exigível, andam numa azáfama para compensar as minhas ausências. O que quer dizer que ficarei a dever-lhes um favor. Ou seja, o direito que o Estado (aparentemente) me confere vai sair da pele de quem não tem nada a ver com a situação. E as aulas em que eu não for substituído por um docente de História talvez tenha de leccioná-las adiante.
Sinto, neste episódio familiar, a maldição de ser professor. Os meus irmãos, todos do sector privado, nenhum está a passar por este tipo de dilemas. Antes, na fase de agravamento da doença da minha mãe, todos eles tiveram liberdade de horário e total compreensão dos seus superiores para assisti-la. Eu só podia fazê-lo à noite e ao fim-de-semana.
Era bom que Sua Excelência, a Senhora Ministra da Educação, soubesse que antes de sermos professores somos pessoas. Na verdade, empurram-nos para baixo do nível de África, enquanto nos acenam com o modelo finlandês. É a vida...

Gabriel Mithá Ribeiro, Almada

1 comentário:

Anónimo disse...

Pois caro colego eu bem o compreendo... a minha mãe foi operada, como sou filho único e vivo longe da terra Natal, vi-me de mão atadas. Não aceitei sobrecarregar os colegas e paguei a um taxista para a levar ao hospital e esperar por ela durante as consultas pré e pós operatório. Financeiramente foi um desastre - 3 dias de trabalho por cada viagem/espera de taxi; mas o pior foi ouvir a minha mãe dizer duvidar destas regras absurdas do ME, pois todos os familiares chegados acompanhavam os seus doentes, trabalhassem eles no público ou no privado. Um belo assunto para os sindicatos tratarem, mas ainda não os ouvi dizer nada.

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