quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

PORQUE LUTAM, AINDA, OS PROFESSORES?

Em virtude da campanha de desinformação que corre em alguns meios de comunicação social, passo a expôr algumas das razões que assistem aos professores na contestação às medidas que o Ministério de Educação tem lançado nestes últimos anos sobre a Escola Pública, a qual a minha escola representa com o orgulho de quem se tem pautado pela construção de um Projecto Educativo que a define como uma escola de rigor e de exigência.

A prova do que acabo de dizer, são os excelentes resultados obtidos pelos nossos alunos nas provas externas, nomeadamente nos exames nacionais, com melhores médias externas do que internas e sem reprovações. A escola conta um sucesso quase absoluto no final do 3º Ciclo e não regista abandono escolar.

Em 2001, a escola foi sujeita a uma avaliação externa, no âmbito das Avaliação Integrada das Escolas, por um equipa inspectiva que durante meses avaliou tudo, assistindo, inclusíve, às aulas dos professores. Ouviu alunos, Encarregados de Educação, Associação de Pais, cruzou dados e informações de fontes diversas. Nesta avaliação a nossa escola foi considerada uma escola de Excelência, tendo aparecido, em destaque, nos jornais diários como sendo uma das 50 melhores do país.

Quando este governo tomou posse, na minha escola já havia aulas de substituição, planos de recuperação, Centro de Recursos Educativos, aberto das 8.30 às 18h, apoios diversos, entre eles, Apoio Pedagógico Acrescido a Matemática, Língua Portuguesa, Inglês. Tinha várias modalidades de Desporto Escolar, vários Clubes em funcionamento: Oficina de Teatro, Ateliê de Artes, Oficina da Imagem, Clube da Floresta, Grupo Coral e Instrumental, o que significa que para nós a «escola a tempo inteiro» há muito era uma realidade.

O elevado padrão de qualidade que a minha escola possuí, só tem sido possível graças a um esforço colectivo de todos os que nela trabalham que não se resignam a deixar-se soterrar na loucura burocrática imposta pela avalanche legislativa que quase diariamente invade as escolas. A exigência por que nos pautamos, tem conseguido sobreviver à cultura do facilitismo com que nos pressionam todos os dias, fazendo crer que estudar não exige esforço, que o sucesso não pressupõe trabalho, logo que, feita a matricula basta frequentar a escola para que o sucesso seja garantido. Esta ideia de Escola é sublinhada por um “Estatuto do Aluno” inconsequente, burocrático e que impede a escola de garantir a disciplina que é absolutamente essencial a um ambiente de tranquilidade onde todos, alunos, fucionários e professores se sintam respeitados e seguros, onde prevaleça um ambiente de escola que promova a cidadania e garanta a qualidade das aprendizagens. Todos estes pilares que sustentam a escola estão a ruír por força de uma política educativa que age sobre uma realidade que desconhece e é incapaz de antever as suas consequências.

Os professores sabem que a escola não é só deles, mas também é deles. Têm a consciência que sem alunos não há escola, mas que sem professores também não há. Para todos os efeitos são eles que lidam diariamente com dezenas de alunos que têm que reconhecer no seu professor a autoridade de quem tem que gerir um processo de aprendizagem que exige orientações precisas e posturas correctas.

O professor precisa de quem reforçe a sua autoridade, não precisa que, quem os tutela, apareça sistematicamente nos meios de comunicação social a ofender a sua imagem, tomando a parte pelo todo. Imagine que é trabalhador de uma empresa e que o seu patrão vem sistematicamente a público dizer que os seus trabalhadores não trabalham, que o trabalho que realizam é de péssima qualidade. Não estaria dessa forma a desmoralizar os seus trabalhadores, incluíndo os excelentes trabalhadores? Não estaria a levar a sua empresa à ruína por falta de consumidores que não acreditam na qualidade do produto que tem para vender? Pois é exactamente isso que vai acontecer a curto prazo. Se esta política de desmoralização, de facilitismo, de favorecimento da indisciplina se mantiver, a Escola Pública irá ser, apenas, um local frequentado por quem não puder pagar a privada.

A Escola Pública que sempre foi, um meio de promoção e desenvolvimento social, garante de igualdade de oportunidades para quem dela queria beneficiar, não conseguirá cumprir o seu papel. A Escola está, por força de orientações superiores, a transformar-se num local onde os alunos têm dificuldade em perceber o que é espaço de lazer e espaço de trabalho, num imenso recreio sem lei nem ordem. Nós não queremos ser responsáveis pelos excluídos do futuro.

Este é, acreditem, o principal motivo da revolta dos professores, o atentado permanente que tem sido feito à sua dignidade e da Escola Pública. A este junta-se a divisão da carreira de forma absolutamente artificial, sendo que o concurso para professores titulares feriu de morte o princípio de que a promoção se faria pelo mérito.
A questão da avaliação foi, tão somente, a gota de água que fez transbordar o copo, porque é injusta e inexequível. Não promove o mérito, não promove a qualidade das aprendizagens, nem defende os interesses dos alunos. De tão burocrático vai consumir em absoluto as energias da escola: dois terços vão estar absorvidos a produzir «evidências» e um terço a avaliá-las. Os professores vão ter, obrigatoriamente, que se centrar em si em vez de se centrarem nos alunos, que é o que realmente importa. A simplificação proposta pelo Ministério, é válida apenas pra este ano, pelo que, no próximo o modelo regressa em todo o seu explendor. É essa a razão pela qual os professores continuam a exigir a sua suspensão. Além disso, essa simplificação só acontece para quem, desde logo, desista da classificação de Muito Bom e Excelente.

Não é verdade que os professores não querem, ou têm medo de serem avaliados. Na minha escola a suspensão do processo de avaliação foi votada pela quase totalidade dos professores (apenas um voto contra e uma abstenção). Acreditam mesmo que a esmagadora maioria dos professores desta escola têm medo da avaliação? Não, não têm. Têm, sim, sentido de Escola e consciência de que caminhamos a passos largos para o caos.

Por tudo isto e muito mais que, pela sua complexidade, não posso de uma maneira resumida explicar, apelo à compreensão e apoio que considero essencias à defesa da qualidade da Escola Pública, defesa essa que não devia ser apenas uma causa dos professores, devia ser a CAUSA pela qual se devia mobilizar o país.

Fátima Laranjeira, professora do 3º Ciclo, da Escola EB 2,3 Frei Bartolomeu dos Mártires de Viana do Castelo

1 comentário:

Anónimo disse...

Subscrevo, na íntegra, o texto desta ilustre Professora, colega com quem há anos, trabalho, e com quem já tive o prazer e honra de conduzir os destinos da EB2,3 Frei Bartolomeu dos Mártires.
Não foi necessária, naquele então, a verborreia da tutela nem a falta de conhecimento do real do quotidiano escolar que a mesma manifesta, para sermos inovadores, para implementarmos medidas que respondessem à melhor educação e ao melhor ensino, porque simplesmente sentimos e vivemos a profissão, somos profissionais e não passageiros pela Educação em Portugal.
AS

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