- «Se ou quando um aluno perturba a aula e é repreendido e não aceita a repreensão, então pode recorrer a alguns dos seguintes argumentos falaciosos» (argumentos falaciosos são argumentos falsos mas enganadores: visam convencer erradamente os ouvintes – pai, mãe e colegas ou amigos – de que não tem culpa nem responsabilidade pelo sucedido):
Falácia da derrapagem: Não há relação entre repreender e pegar ou não gostar de… Se assim fosse, nenhuma mãe gostaria do seu filho!
B: “O(a) professor(a) repreende-me, mas não tenho culpa. O(a) professor(a) é que é injusto(a), exagerado(a), intolerante(a), demasiado severo(a), humilhante e cínico(a): até se ri na minha cara!”
Falácia ad hominem ou argumento contra a pessoa: em vez de discutir o assunto, ataca-se a pessoa…
C: “O(a) professor(a) repreende-me, mas é injusto(a) porque não sou só eu que penso isso: todos os outros pensam o mesmo! Ninguém gosta do(a) professor(a)!”
Falácia demagógica – é do tipo: “fujo aos impostos porque todos fazem o mesmo” ou “falo nas aulas porque todos falam”, etc. O sujeito nunca é o responsável: são os outros!
D: “O(a) professor(a) repreende-me, mas é muito injusto(a). Vou participar de si ao Conselho Executivo e à Ministra! E, se não resultar, os meus pais arranjarão maneira de lhe dar uma coça!” Falácia ad baculum ou argumento à força.
E: “O(a) professor(a) só me vê a mim; eu não estava a fazer nada; o professor persegue-me: coitado de mim que não fiz mal nenhum! – Falácia ad misericordiam ou falácia da misericórdia: procura-se explorar o sentimento de pena a quem ouve.
Erros educativos, que poderão ter consequências muito graves, quando se dá crédito a estas falácias, protegendo, sem razão, o aluno:
1º Desautorização do(s) professor(es). O(a) professor(a) perde a sua autoridade…
2º Continuidade do comportamento perturbador: por mais repreensões que se façam, não surtem qualquer efeito (a experiência confirma-me isso!) porque o(a) aluno(a) sabe que não lhe acontece nada, pois julga que terá sempre a protecção dos Pais.
3º O(a) aluno(a) nunca assumirá a responsabilidade dos seus próprios actos: julga que poderá fazer tudo o que lhe apetecer pois nunca será responsabilizado por nada.
4º Os pais que assim procedem, protegendo sem razão o filho ou a filha, estão a criar um irresponsável até que…
5º Mais dia, menos dia, o filho ou filha fará algo de muito grave (em família, no trabalho, no casamento, na sociedade, na estrada) que irá surpreender os pais e fazê-los sofrer imenso porque terão que suportar uma enorme e dolorosa decepção e já nada poderão fazer: o mal está feito e pode ser demasiado tarde.
A título de exemplo, refiro que na noite de Natal dois jovens (entre 24 e 30 anos) em despique com os seus carros a alta velocidade se mataram na estrada nº 106, Penafiel – Entre-os-rios, em Oldrões, junto à escola de condução Pais Neto (pode-se ainda ver o buraco na parede feito pelos carros), onde o limite de velocidade é 50 Kms/h!
As famílias (vizinhas) de um e outro tomaram-se de razões porque cada uma atribuía a culpa ao outro jovem…. Mesmo morto, ninguém assumiu a responsabilidade; esta é sempre do outro! Continuou a lógica super-proteccionista!
Infelizmente, a indisciplina é já um problema comum que todos conhecem mas que ninguém vê ou quer ver. Muitas vezes, ela resulta de uma “educação” super-proteccionista. Se considerarmos ainda que 1/3 dos alunos já são filhos únicos e que, nestes casos, – nem sempre: tudo depende da formação dos pais – as situações de super-proteccionismo tendem a agravar-se, então poderíamos considerar que a indisciplina torna-se o problema central da educação em Portugal, a par de outros, como as instalações obsoletas e falta de equipamentos modernos nas escolas que contribuem também para a desmotivação e, portanto, para a indisciplina.
A indisciplina é um fenómeno que se agrava ano após ano, porque tem havido erros educativos que consistem em facultar aos filhos sempre situações de prazer, nunca submetendo-os a uma negação ou privação ou a situações que exijam esforço e algum sacrifício. Os pais pensam erroneamente que têm que se sacrificar ao máximo de modo a que aos filhos não lhes falte nada sem que eles partilhem do sofrimento e das dificuldades da família. E eles tornam-se cada vez mais exigentes, mais ditadores, e os pais cada vez mais se escravizam para os servir!
O problema é que a vida traz-nos situações, muitos espinhos, que nos pregam frustrações e, se o jovem nunca experimentou, na sua formação, a frustração e negações, ele não estará preparado para reagir adequadamente: entrará em desespero, poderá tornar-se violento e agressivo ou terá tendências suicidas, ou entrará em depressão com todas as consequências que daí advêm. Veremos isso brevemente com a crise que começará a afectar o conforto consumista em que muitos dos nossos jovens já mergulharam: como irão eles reagir quando os pais lhes recusarem o telemóvel de última geração ou dinheiro para o DVD porque já não têm, simplesmente, dinheiro para sobreviver?!
Perante o fenómeno dos filhos únicos que crescem em número, ano após ano, e que dificilmente aceitam um “não” na escola; perante a “educação” super-proteccionista sem privações de consumismo e sem negações; perante a indisciplina gritante que daí tem resultado, o que nos tem dito o Ministério da Educação dos governos do PSD ou do PS? Nada. Mais eduquês: “a responsabilidade é dos professores”; são eles que têm que resolver todos os erros sociais e educacionais resultantes do sucessivo acumular de erros políticos na condução da educação e da política no nosso país!
Agora, todos já podem perceber por que razão a reforma educativa, centrada apenas no professor, levada a cabo por este governo, só pode estar votada ao fracasso.
Zeferino Lopes, Professor de Filosofia na Escola Secundária de Penafiel, em 10 de Fevereiro de 2009.









2 comentários:
Ganda Zeferino, isto é que é saber filosofar sobre a educação, de forma clara, mostrando como a nossa profissão está cada vez mais "escorregadia". E a culpa de quem é, Sempre? Do professor(a), claro.
Adorei o artigo.
Já trabalhei em Penafiel, nessa mesma escola, há uns anos e adorei. Havia o casal de "patrões" e uma boa sala de professores.
Eva
Uma realidade pura. Os meus Parabéns. Mandes este texto para o Presidente da República, pode ser que assim ele perceba o nosso protestos.
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