segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

QUE POLÍTICA PARA O PROBLEMA Nº1 DA EDUCAÇÃO NO PAÍS?

Os nossos filhos não são nada burros; são inteligentes e aprendem uns com os outros a manipular quem os ouve, quase sempre de forma inconsciente, através de falácias, aliás estudadas em Filosofia do 11º ano, para se desculpabilizarem perante os pais ou por causa do fracasso, ou do insucesso, ou da punição, a fim de não perderem a protecção que estes lhes oferecem. Assim:

    «Se ou quando um aluno perturba a aula e é repreendido e não aceita a repreensão, então pode recorrer a alguns dos seguintes argumentos falaciosos» (argumentos falaciosos são argumentos falsos mas enganadores: visam convencer erradamente os ouvintes – pai, mãe e colegas ou amigos – de que não tem culpa nem responsabilidade pelo sucedido):
A: “Se me porto mal, então o(a) professor(a) repreende-me; se me repreende, então pega comigo; se pega comigo, então não gosta de mim. Logo, se me porto mal, não tenho culpa: o professor é que pega comigo e não gosta de mim.”

Falácia da derrapagem: Não há relação entre repreender e pegar ou não gostar de… Se assim fosse, nenhuma mãe gostaria do seu filho!

B: “O(a) professor(a) repreende-me, mas não tenho culpa. O(a) professor(a) é que é injusto(a), exagerado(a), intolerante(a), demasiado severo(a), humilhante e cínico(a): até se ri na minha cara!”

Falácia ad hominem ou argumento contra a pessoa: em vez de discutir o assunto, ataca-se a pessoa…

C: “O(a) professor(a) repreende-me, mas é injusto(a) porque não sou só eu que penso isso: todos os outros pensam o mesmo! Ninguém gosta do(a) professor(a)!”

Falácia demagógica – é do tipo: “fujo aos impostos porque todos fazem o mesmo” ou “falo nas aulas porque todos falam”, etc. O sujeito nunca é o responsável: são os outros!

D: “O(a) professor(a) repreende-me, mas é muito injusto(a). Vou participar de si ao Conselho Executivo e à Ministra! E, se não resultar, os meus pais arranjarão maneira de lhe dar uma coça!” Falácia ad baculum ou argumento à força.

E: “O(a) professor(a) só me vê a mim; eu não estava a fazer nada; o professor persegue-me: coitado de mim que não fiz mal nenhum! – Falácia ad misericordiam ou falácia da misericórdia: procura-se explorar o sentimento de pena a quem ouve.

Erros educativos, que poderão ter consequências muito graves, quando se dá crédito a estas falácias, protegendo, sem razão, o aluno:

Desautorização do(s) professor(es). O(a) professor(a) perde a sua autoridade…

Continuidade do comportamento perturbador: por mais repreensões que se façam, não surtem qualquer efeito (a experiência confirma-me isso!) porque o(a) aluno(a) sabe que não lhe acontece nada, pois julga que terá sempre a protecção dos Pais.

O(a) aluno(a) nunca assumirá a responsabilidade dos seus próprios actos: julga que poderá fazer tudo o que lhe apetecer pois nunca será responsabilizado por nada.

4º Os pais que assim procedem, protegendo sem razão o filho ou a filha, estão a criar um irresponsável até que…

5º Mais dia, menos dia, o filho ou filha fará algo de muito grave (em família, no trabalho, no casamento, na sociedade, na estrada) que irá surpreender os pais e fazê-los sofrer imenso porque terão que suportar uma enorme e dolorosa decepção e já nada poderão fazer: o mal está feito e pode ser demasiado tarde.

A título de exemplo, refiro que na noite de Natal dois jovens (entre 24 e 30 anos) em despique com os seus carros a alta velocidade se mataram na estrada nº 106, Penafiel – Entre-os-rios, em Oldrões, junto à escola de condução Pais Neto (pode-se ainda ver o buraco na parede feito pelos carros), onde o limite de velocidade é 50 Kms/h!

As famílias (vizinhas) de um e outro tomaram-se de razões porque cada uma atribuía a culpa ao outro jovem…. Mesmo morto, ninguém assumiu a responsabilidade; esta é sempre do outro! Continuou a lógica super-proteccionista!

Infelizmente, a indisciplina é já um problema comum que todos conhecem mas que ninguém vê ou quer ver. Muitas vezes, ela resulta de uma “educação” super-proteccionista. Se considerarmos ainda que 1/3 dos alunos já são filhos únicos e que, nestes casos, – nem sempre: tudo depende da formação dos pais – as situações de super-proteccionismo tendem a agravar-se, então poderíamos considerar que a indisciplina torna-se o problema central da educação em Portugal, a par de outros, como as instalações obsoletas e falta de equipamentos modernos nas escolas que contribuem também para a desmotivação e, portanto, para a indisciplina.

A indisciplina é um fenómeno que se agrava ano após ano, porque tem havido erros educativos que consistem em facultar aos filhos sempre situações de prazer, nunca submetendo-os a uma negação ou privação ou a situações que exijam esforço e algum sacrifício. Os pais pensam erroneamente que têm que se sacrificar ao máximo de modo a que aos filhos não lhes falte nada sem que eles partilhem do sofrimento e das dificuldades da família. E eles tornam-se cada vez mais exigentes, mais ditadores, e os pais cada vez mais se escravizam para os servir!

O problema é que a vida traz-nos situações, muitos espinhos, que nos pregam frustrações e, se o jovem nunca experimentou, na sua formação, a frustração e negações, ele não estará preparado para reagir adequadamente: entrará em desespero, poderá tornar-se violento e agressivo ou terá tendências suicidas, ou entrará em depressão com todas as consequências que daí advêm. Veremos isso brevemente com a crise que começará a afectar o conforto consumista em que muitos dos nossos jovens já mergulharam: como irão eles reagir quando os pais lhes recusarem o telemóvel de última geração ou dinheiro para o DVD porque já não têm, simplesmente, dinheiro para sobreviver?!

Perante o fenómeno dos filhos únicos que crescem em número, ano após ano, e que dificilmente aceitam um “não” na escola; perante a “educação” super-proteccionista sem privações de consumismo e sem negações; perante a indisciplina gritante que daí tem resultado, o que nos tem dito o Ministério da Educação dos governos do PSD ou do PS? Nada. Mais eduquês: “a responsabilidade é dos professores”; são eles que têm que resolver todos os erros sociais e educacionais resultantes do sucessivo acumular de erros políticos na condução da educação e da política no nosso país!

Agora, todos já podem perceber por que razão a reforma educativa, centrada apenas no professor, levada a cabo por este governo, só pode estar votada ao fracasso.


Zeferino Lopes, Professor de Filosofia na Escola Secundária de Penafiel, em 10 de Fevereiro de 2009.

2 comentários:

Anónimo disse...

Ganda Zeferino, isto é que é saber filosofar sobre a educação, de forma clara, mostrando como a nossa profissão está cada vez mais "escorregadia". E a culpa de quem é, Sempre? Do professor(a), claro.
Adorei o artigo.
Já trabalhei em Penafiel, nessa mesma escola, há uns anos e adorei. Havia o casal de "patrões" e uma boa sala de professores.
Eva

Anónimo disse...

Uma realidade pura. Os meus Parabéns. Mandes este texto para o Presidente da República, pode ser que assim ele perceba o nosso protestos.

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