segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

UM ACTO... UMA LUTA... UMA VIDA... NUMA SEMANA!

Car@ Colega,

Não obstante as contingências da vida, nesta semana que se inicia, julgo ser necessário reflectir algumas questões relativas à avaliação de desempenho docente (ADD), pois dia 6 é a data limite para a entrega dos objectivos individuais no nosso Agrupamento.

Tenho lido muito do que circula por e-mail; tenho acompanhado os blogues; sigo esforçadamente o que na imprensa vai aparecendo.

Como cada um, sinto-me exausto nesta luta, mais por sentir que o Governo e o ME não olham a meios para intimidar, atemorizar e aterrorizar uma classe inteira que luta há mais de um ano pela defesa da dignidade; uma classe que só deseja poder trabalhar e dar o melhor de si; uma classe exaurida, perdida e extenuada nesta luta.

Contudo, o que verdadeiramente me choca e ofende, enquanto pessoa e profissional, é ver alguém vergar-se perante o medo e o terror que criam à sua volta, é sentir que a força da razão, do sentimento, da luta, da dignidade cedem passo ao terrorismo psicológico e à chantagem de quem não tem de seu lado outra força senão a de algum poder: físico, psicológico, de hospedaria, legislativo ou de propagando. Ceder à ameaça é indigno de gente formada e informada, é homologar a cobardia, é vilipendiar a condição de pessoa e de profissional. Nesta luta, e nesta fase da mesma, sobram os exemplos de coerência, de dignidade, de união, de firmeza, de carácter, o que nos deve identificar a todos como professores que diariamente dão o melhor de si ao país, que continuamente se privam da família, do tempo de lazer, de almoçar e de jantar a horas, dos amigos, que diariamente emprestam os seus recursos para servir a Educação do país (é o tempo de trabalho que vai muito além das 40 horas, é o trabalho em horário pós-laboral sem qualquer gratificação nem suplemento, são as reuniões à noite para servir os direitos da comunidade, é a energia, os serviços de Internet e demais consumíveis em casa a custas próprias, o computador e suas actualizações, é o escritório de casa por não haver condições na escola onde trabalhar, são os custos de comunicação ao serviço da actividade profissional, é o traz, faz e leva trabalho para exercer a profissão com dignidade, é o ter de fazer agora todo o tipo de provas e de documentos que esta diarreia legislativa e normativa impõe, é o não poder gozar férias noutro tempo senão quando a profissão nos disponibiliza, é o ficar refém de calendário de exames, de reclamações e de provas para se poder ter vida planificada, é o não poder marcar uns dias de férias para atender a familiares enfermos ou a outra necessidade candente, é o estar sujeito aos apetites de políticos ignorantes sobre o Ensino, a Aprendizagem e a Educação…) e de tudo o resto que o comum dos profissionais da administração pública não tem de suportar (o insulto de clientes directos e indirectos, espaços de trabalho frios, desconfortáveis e deprimentes, a algazarra e a má-criação, as ofensas que crescem impunemente, a tristeza de crianças maltratadas, a dor de pessoas pequenas com grande sofrimento na curta história de vida, a aflição de um jovem em crescimento e a viver o desconcerto do eu com o mundo, a aflição dos alunos que têm dificuldades e toda uma geração que não valoriza a escola e o seu papel, por culpa de um país sem laivos de futuro e de um mundo deprimido pelos senhores do poder). No sector privado é certo que há quem trabalhe um pouco como nós, mas têm o merecido reconhecimento, e não nos deixemos enganar, de forma oficial ou de qualquer outra, como automóvel, telemóvel, seguros disto e daquilo, viagens, prémios de desempenho, almoço pago, suplemento remuneratório não declarado, horas extraordinárias, recompensa em espécie, etc..

E tudo isto, car@ colega, nós fazemos, nós damos, nós suportamos quantas vezes com o coração despedaçado, quantas vezes com preocupação e dor profundas, mas sempre com esforço, com dedicado empenho, porque os alunos são a nossa obra e ajudar o discente a aprender e a ser melhor cidadão, capaz, a nosso arte.

Tudo isto, car@ colega, fizemos e fazemos mesmo contra o desacerto de sucessivas políticas educativas, mesmo contra reiterados experimentalismos na Educação do país. Fazemos tudo e tudo temos feito pela melhor Educação e o melhor Ensino, esse mesmo que de reforma em reforma continua a ter de ser reformado.

É isto que os 150 mil que somos não mais aceitam; é por isto que uma classe inteira saiu à rua e gritou o desespero dos oprimidos; é por termos sido, nós, professores, insultados por este Governo, por esta equipa ministerial e por esta política, que não aceitamos este embuste que é o sistema de avaliação de desempenho docente, com ou sem Simplex, para este ou para qualquer outro tempo ou ano. Titulares e Não Titulares, Contratados ou Providos, do Quadro de Escola ou de Zona (Agrupamento doravante), professores da bolsa ou do saco, todos temos responsabilidades no presente e no futuro do sistema educativo, todos sofremos para todos ganharmos, TODOS, UNIDOS!!!!!!!!!!!!!

Como podemos argumentar que cedemos porque em causa está o nosso futuro?

Com que carácter deixamo-nos embalar, e justificamo-nos com os temores, na entrega dos objectivos individuais (OI) e rompemos com toda a luta, com todos os sacrifícios e com todos os custos destes meses?

Que colegas, e até amigos, somos se só olhamos para o nosso egoísmo e deixamos os nossos pares isolados, sós, desamparados na luta?

Onde e quando desejamos ser respeitados na nossa integridade de pessoas e na nossa dignidade de profissionais?

É TEMPO DE GRITAR!

É TEMPO DE DIZER NÃO!

É TEMPO DE LUTA E MESMO DE INSURREIÇÃO!


Neste passo, ocorre-me Bocage, num momento de lúcida dor pela e na vida...


Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah!, cego eu cria, ah!, mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não doirava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos.
Saiba morrer o que viver não soube.



Com que dignidade nos deixamos tombar?!

Somos professores, não somos mercenários, por isso não nos vendemos, não estamos em saldo e não cumprimos missões sujas.

Entregar os objectivos é trair o país, é trair os alunos, é trair a Educação, é destruir o Ensino, e subornar a aprendizagem.

Entregar os objectivos é dizer sim hoje e sempre, é destruir a força política deste caso, e trespassar de morte a força dos professores organizados em movimentos e em organizações sindicais.

Colega, ser egoísta, pensar só no EU e justificar com o medo não é ser solidário com os demais. A solidariedade não se diz, pratica-se.

É neste desabafo de alma despida, é neste sentir, que apelo à união, que peço que nem um só de nós entregue os OI, que desafio cada um para reforçar a luta e a fileira dos que não cedem a chantagem, dos que têm determinação, dos que sabem que pela luta e pelo trabalho construiremos um futuro melhor, que acreditam que pela determinação e pela afirmação do que sentem e que acreditam que deste modo serão felizes.

Se cedermos, poderemos ter momentos de ilusão secreta, de satisfação de nossas pretensões, cujo alcance não é certo nem consequente à entrega dos OI, mas ficaremos com o sentimento de deslealdade e de termos partido este elo, como outros daí decorrentes.

Gostava de ouvir cada um, gostava de sentir o nosso agrupamento unido e determinado.

Não há momentos fáceis, não há momentos ideais para sermos fortes, por isso espero que, num momento particularmente difícil, este meu contributo ajude à reflexão profunda e à tomada de posição mais acertada.

O Agrupamento merece e cada um sabe que poderá contar com todo o apoio e diligências que eu possa fazer, hoje e depois, porque o mundo não acaba no próximo dia 6, sendo que o seu destino, como o da nossa vida, também depende muito da acção de cada um de nós.

A submissão até pode funcionar como anestésico, mas jamais cura a dor que, mais tarde, mais forte se evidenciará.


Post-scriptum:

× além de abalado, estou sem paciência para reler o que escrevi, pelo que peço perdão pelos erros que nem descortine num relance. Não é correcto, mas é o que é e não me importo com mais;

× peço que este e-mail seja reenviado a todos, para que ninguém fique de fora.


Aristides Sousa

http://www.crivo.net/


[recebido por e-mail, solicitando que seja reenviado a todos]

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