quarta-feira, 11 de março de 2009

CHAMADA DE ATENÇÃO E REQUERIMENTO AO PROVEDOR DE JUSTIÇA

Caros Colegas,

Gostaria de vos alertar para uma situação catastrófica que começou a ganhar forma com a publicação do Decreto-Lei nº 51/2009, de 27 de Fevereiro, e que se consolidará plenamente a 1 de Setembro de 2009. Perto dela, a avaliação (versão simplex ou não) parece uma brincadeira, “poeira para os olhos” para que nos distraiamos do essencial.

Refiro-me àquilo que já está a acontecer nas carreiras técnicas do Estado, nos vários ministérios, e que agora chega aos docentes: é a perda do vínculo, é a passagem (absolutamente inconstitucional e, já agora, absolutamente vergonhosa) dos docentes de quadro (QE e QZP) a contrato. Veja-se a forma cínica e abjecta como surge naquele Diploma Legal:

“Artigo 69.º -A
Alteração terminológica
As referências feitas no presente decreto-lei a nomeações definitivas e a nomeações provisórias consideram -se feitas a contratos por tempo indeterminado e a contratos por tempo indeterminado em período experimental, respectivamente.”

Assim, sem mais nada. Sem uma notificação, um documento qualquer a saber se se está ou não de acordo. Alteração terminológica? Não será mais “alteração da relação jurídica” tomada de forma unilateral? Coteje-se com o novo Diploma de Vínculos, Carreiras e Remunerações da Função Pública (http://www.dgap.gov.pt/) e vejamos se se trata apenas de ‘alteração terminológica’. À semelhança daquilo que está a acontecer com os quadros do Estado, chegou a vez dos professores.

Proponho que, também à semelhança do que os Sindicatos daqueles trabalhadores aconselharam, enviemos, todos nós, professores, um requerimento ao Provedor da Justiça (em anexo), solicitando a anulação deste artigo injurioso que, a seu tempo, provocará mais descalabro do que esta questão da avaliação que, para mim, já deveria estar há muito ultrapassada, pelo ‘Não, assim não, muito obrigada. Avaliada quero ser, mas de forma séria e honesta’.
Colegas, o meu apelo para uma luta ainda maior: mantenhamo-nos juntos, associações, sindicatos, escolas, grupos e façamos um texto a solicitar a impugnação de todo este processo. Sejamos rápidos para evitar maiores males futuros.

Cordialmente,

Noémia Pires



Exmo. Senhor
Provedor de Justiça
Rua Pau da Bandeira nº 9

1249-088 Lisboa

_______________________(nome), ___________ (estado civil), contribuinte fiscal nº ____________ , portador do BI nº____________, residente em ______________________, vem, atento o disposto no n.º 3 do Artigo 20.º do seu Estatuto do Provedor de Justiça, aprovado pela Lei 9/91, de 09/04 alterada pela Lei 30/96, de 14/08, requerer a V. Exª se digne suscitar junto do Tribunal Constitucional pedido de declaração da inconstitucionalidade dos artigos 10.º e 88.º n.º 4 da Lei n.º 12-A/2008 de 27 de Fevereiro, o que faz nos termos e com os fundamentos seguintes:

    1. O signatário é funcionário público de nomeação definitiva desde _____ de _____.

    2. A titulo de uma pseudo e infundamentada reforma da administração pública, ou ainda qualquer explicação plausível e credível que justifique um qualquer benefício, ou prejuízo evitado, ou ainda a indicação de uma qualquer vantagem para o Estado ou para o serviço público prestado aos cidadãos, a Lei 12-A/2008, no art. 10º restringe o vínculo de nomeação definitiva em funções públicas, a um conjunto de carreiras elencadas da alínea a) à alínea f) e,

    3. no art. 88º nº 4 determina que os actuais funcionários públicos, portanto, nomeados definitivamente e a exercerem funções públicas, mas cujas atribuições não estão elencadas no art. 10.º, transitam ope legis, sem outras formalidades, para a modalidade de contrato em funções públicas por tempo indeterminado, abrangendo assim milhares de funcionários públicos cujo legítimo direito adquirido de serem possuidores da nomeação definitiva com as respectivas expectativas legítimas de uma carreira estável e longe de quaisquer pressões.

    4. Uma outra questão que aqui se coloca, e que decorre do art. 22º, será a do trabalhador que agora vai ter um Contrato de Trabalho em Funções Públicas (CTFP), em que lhe estão reservadas as garantias actuais da cessação da relação jurídica de emprego público nos termos do nº 4 do art. 88º, é a de extinção deste direito em função da contratação para um novo posto de trabalho, a que corresponderá um novo contrato (o que até aqui não sucedia). As questões que aqui se colocam e a que a actual lei não parece dar resposta, remetendo estes trabalhadores para uma situação de clara exclusão do seu estatuto de funcionário público e que nos atrevemos a classificar de perfeita inconstitucionalidade – se é que se pode considerar tal no âmbito de uma perfeição, levanta-nos os seguintes problemas:

    5. Em primeiro lugar o que sucede ao trabalhador que celebra o contrato para uma nova categoria e ou carreira? Este trabalhador mantém o regime anterior? Este trabalhador pode ou não ser despedido pelos motivos objectivos e subjectivos que o novo regime empresta aos trabalhadores admitidos ao abrigo do Regime de Contrato de Trabalho em Funções Públicas (Lei 59/2008). A Lei parece tratar estes trabalhadores como se estivessem a fazer um contrato ex novo com a Administração Pública. E, sendo assim, como parece é, este trabalhador – ex-funcionário público, que pode muito bem ser o requerente – entra directamente no campo do RCTFP, com um novo contrato e com todas as regras do regime e já não com a protecção do nº 4 do art. 88º.

    6. Em termos substantivos esta nova lei coloca o trabalhador numa situação em que pode mesmo ser despedido, por exemplo, por inadaptação ao posto de trabalho. Sem pretender aqui entrar na querela que está já lançada sobre o despedimento por inadaptação ao posto de trabalho, quando briga com o período experimental, ou seja, com a possibilidade deste se verificar depois de terminado o período experimental, desde logo porque, se considera aqui a existência duma clara violação do principio da estabilidade (garantia da estabilidade) assegurada pelo art. 53º da Constituição da República Portuguesa, na exacta medida em que, findo o período experimental, o legislador prevê aqui a sua duração ad eternum, na exacta medida em que, a todo o momento o trabalhador pode ser despedido, mesmo tendo dado provas claras de perfeita adaptação durante o período experimental.

    7. Com tal atitude, põe-se assim em causa e em claro prejuízo a sua isenção e imparcialidade no exercício das suas funções, na exacta medida em que, pode ser posto em causa o seu posto de trabalho ao ser sujeito a uma situação laboral bem pior com contrato por tempo indeterminado – que como veremos será a termo de um ano, sem em contrapartida ser adiantada qualquer vantagem da retirada dessa modalidade de vinculo que constitui um legítimo direito já há muitos anos garantido pelo Estado, que, antes demais, deveria ser pessoa de bem.

    8. Esta situação implica para o signatário uma alteração radical dos pressupostos com que aceitou integrar a função pública, a que se sujeitou ao longo de uma vida profissional, com sacrifícios e salários mais baixos do que o verificado para igual função no sector privado, com uma dedicação em exclusivo ao interesse público, o que em boa verdade consubstancia uma clara violação do princípio da segurança no emprego plasmado no art. 53º da Constituição da República Portuguesa.

    9. Efectivamente, após a manutenção da forma de cessação da relação jurídica de emprego, prevista no art. 88º, a lei 12-A/2008, é a mesma lei que nos art. 5º e 6º prevê que o contrato por tempo indeterminado o seja apenas e só por um ano. I.é,

    10. Na medida em que a administração pode e deve ajustar anualmente o mapa de pessoal, o signatário pode, nessa mesma medida ver posto em causa o seu posto de trabalho que pode terminar por extinção, ou outra medida, já que o nº 4 do art. 88º apenas salvaguarda a situação decorrente da transição. Ora,

    11. Nesta medida, a lei 12-A/2008, designadamente o nº 4 do art. 88º, está irremediavelmente ferido de inconstitucionalidade, por afronta ao supra enunciado princípio e por

    12. desrespeitar também, aquilo que deveria garantir - a segurança jurídica relacionada com a estabilidade das relações de trabalho constituídas ao abrigo das normas anteriores, pelas quais os funcionários públicos foram nomeados definitivamente. O Estado como entidade empregadora e no cumprimento do art. 53.º da C.R.P. empregou a signatária e com esta milhares de funcionários que lhe emprestaram o melhor do seu esforço e anos de trabalho leal,

    13. que apenas aceitaram integrar a Função Pública devido ao facto de existir o vínculo da nomeação definitiva que ajudava a atenuar os factores negativos da admissão ao Estado, como a menor remuneração face ao sector privado, a menor liberdade devido a regras de exclusividade que no sector privado nem sempre existem e uma submissão a uma maior disciplina que não permite comprometer a isenção, imparcialidade ou obter benefícios próprios no exercício das suas funções, valores estes «estranhos» ao sector privado devido à diferente natureza das funções pública e privada, a que não será estranho o crime especifico dos funcionários públicos e a forma especial como o código penal os trata – cfr., entre outros arts. 132º, 375º, 376º e 386º. Ora,

    14. Ao garantir este nível de segurança conferido pelo vínculo de nomeação definitiva, é impensável que o Estado enquanto entidade legiferante, pode sem mais, retirar com a justificação fútil que está em causa aproximar as regras do sector público ao sector privado, mesmo sabendo-se que estamos perante realidades diversas e forçosamente sujeitas a algumas regras próprias, principalmente assentes em princípios históricos que se mantém ainda hoje.

    15. Tudo visto, a nova lei é claramente demonstrativa de que apenas PREVÊ UMA ESTABILIDADE DE EMPREGO DE APENAS UM ANO. Ou seja, os trabalhadores ainda que contratados por tempo indeterminado, não passam de meros contratados a prazo por um ano renovável, isto é, de revisão em revisão dos mapas de pessoal. Dito de outra forma o contrato por tempo indeterminado na Administração Pública é igual ao contrato a termo certo de um ano, ou ainda, se quisermos, ACABOU DEFINITIVAMENTE A ESTABILIDADE de emprego na administração pública. Ora, tal desiderato consubstancia, em nossa opinião, e temos a certeza de não estarmos sós nesta interpretação, uma inconstitucionalidade por se tratar de ataque directo ao direito fundamental à segurança e estabilidade no emprego, dado que o absurdo é possível. Efectivamente será equacionável que num ano o serviço apresente carência de pessoal e no ano seguinte tenha necessidade de aumentar o número de trabalhadores do respectivo mapa, e como tal venha desta sorte a orçamentar verba para contratação de novos trabalhadores, sendo que no extremo diríamos estarem a ser substituídos trabalhadores com contrato por tempo indeterminado por outros com contratos a termo resolutivo.

    16. Questiona-se ainda se à luz dos art. 59º e 13º da CRP, será constitucional a possibilidade que o trabalhador admitido ex novo tem de passar à frente de um trabalhador que já milita na Administração Pública há vários anos e a quem não foi dada essa possibilidade de entrar pelo meio da tabela, mesmo que se admita a liberdade contratual e o carácter bilateral do contrato. Em nosso entendimento para que se não verificassem estas inconstitucionalidades, necessário seria que os trabalhadores da Administração Pública tivessem tido a mesma oportunidade, o que sabemos não foi de todo uma realidade. Ora, também por aqui se requer a V. Exª a fiscalização da constitucionalidade do preceito da lei 12-A/2008, quando conjugada com a respectiva norma do RCTFP.

    17. Cabe ainda referir que, através do Decreto Legislativo Regional nº 26/2008/A, foi adaptada a Lei nº 12-A/2008, de 27 de Fevereiro à administração pública regional dos Açores e que no artigo 7º prevê que “Os actuais trabalhadores da administração regional nomeados definitivamente mantêm a nomeação definitiva, sem prejuízo de, caso assim o entendam, manifestarem por escrito, no prazo de 90 dias, a intenção de transitarem nos termos fixados pela Lei nº 12-A/2008 de 27 de Fevereiro, para a modalidade de contrato de trabalho por tempo indeterminado.” O mesmo país e tratamento dos funcionários de forma distinta.

Nestes termos, vem a requerente solicitar a V. Exª se digne, no âmbito das competências que lhe são atribuídas pela Lei que requeira a inconstitucionalidade das normas vindas de citar e de todas as demais que, pertencentes a esta lei, não se encontrem em consonância com a CRP, entre outros os art. 46º a 48º e 113º, por violação do princípio da protecção da confiança, tudo em nome da Justiça e do Direito.


____, de ___________ de 2009


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