domingo, 22 de março de 2009

O PREÇO CERTO

Texto interessante, irónico, publicado no jornal duma escola para dar conta do que estão a viver os resistentes à ADD.


Tudo tem de ser avaliado, neste mundo. É o preço de sermos ou estarmos. Até a nós próprios o fazemos constantemente: “Terei feito bem?”, “Como seria se tivesse feito de outra maneira?” “Será que consigo?”, “Talvez seja melhor assim!”, “ou assado?”, “Terei eu razão?”, “Maldito ponto de vista, cada um com o seu!”, enfim, um turbilhão de hesitações e balanços nos seres pensantes que somos.

Nesta “coisa” da avaliação do desempenho docente (ADD, para os íntimos), dizem a lei / a tutela / os e-mails não assinados da DGRHE que os professores devem estabelecer os seus objectivos individuais, tendo, por referência o PEE, o PAA, os PTT’s, os PCT’s (mais uma catrefada de siglas, que somos preguiçosos para escrever tudo, além de que o espaço no jornal é caro).

Ora, já dizia o Jacinto d’A Cidade e as Serras que a fórmula perfeita da existência, ou seja, a plenitude, era conseguida pela articulação da ciência e da potência: “suma potência” X “suma ciência” = “suma felicidade”. Assim, para que o Ministério da Educação (ME, para os amigos) alcançasse a sua suma felicidade, era necessário todo um processo científico e potente, tipo “mente sã em corpo são”, detalhadamente construído, em que as cúpulas da lei (entenda-se o 15/2007, ou ECD) já fizessem prever a minúcia e a super-produção legal posteriores (de 2008 e 2009) que o regulamentariam até à medula, sua suma consistência.

Mas a Equação Metafísica do ME, apenas atravessada pelas lentes dos nossos óculos de ver ao pé, logo revela “os presuntos, os queijos, os boiões de geleia e caixas de ameixa seca”. Se, às nossas lentes de fora, juntarmos as de dentro (“o essencial é invisível para os olhos, só se vê bem com o coração”), lá se vai a fórmula num instante.

Porque dividiram para reinar, cortaram para se enriquecer, lançaram mais carga em quem já trabalhava muitíssimo, humilharam e espezinharam com uma linguagem deselegante e sem nível todos aqueles que tanto dão e davam, muitas vezes de forma voluntária, ao país. E tudo isto sem critério, arbitrariamente, como se a riqueza, nas nossas escolas, não nascesse da diversidade e do empenho de cada um. Como se tivéssemos andado todos a viver à conta do Estado, sem pudor e sem vergonha. Como se não possuíssemos qualquer dignidade, princípios, formação moral e ainda profissional de nível superior. Como se nunca os professores tivessem sido avaliados: eles que redigem os seus relatórios e se submetem ao olhar dos outros a cada minuto do dia; eles, a quem basta um dos trinta filhos, sessenta pais, outros tantos padrastos e madrastas, cento e vinte avós, algumas amas, tios, primos, etc., estarem descontentes, para se confrontarem com esse olhar, nas escolas e até nos cafés das aldeias, vilas e cidades deste país. Como se de futebol se tratasse.

Acrescentando, agora, à perversidade, dizem que, sem definição de objectivos individuais (como se a nossa vontade democrática tivesse contribuído para a formulação de alguma das regras deste jogo), não há avaliação. E que, sem avaliação, não há carreira, nem concursos. Queriam que definíssemos três a cinco objectivos (umas visitas de estudo, uns apoios à aprendizagem, umas intervenções nuns projectos, uns envolvimentos dos Encarregados de Educação, uns jantares, umas festas, umas actividades extra de enriquecimento), nós que nos espreguiçamos por tantos campos diferentes numa escola: tiramos fotocópias em máquinas sofisticadas; desencravamo-las, por vezes; vamos ao e-mail em casa para receber informações e instruções de trabalho; manipulamos o computador; preparamos e damos aulas (das nossas disciplinas, de EA, de AP, de FC, de SE e Fóruns), seleccionamos materiais; usamos manuais; fazemos e corrigimos fichas, testes e outros trabalhos escritos e orais, telefonamos, escrevemos, recebemos os pais, ouvimos queixas e lamentos, sérias reprovações sobre nós e outros assuntos, tentando sempre arranjar soluções, porque achamos que é nossa obrigação e trabalho. E reunimos constantemente.
Ah! Mas o mais interessante foi a obsessão da quantificação: depois de simplificada a fórmula (só para este ano) cortando-se o peso da obrigatoriedade do resultado dos alunos, ainda ficavam mais dois jantares com, pelo menos, 50% dos EE’s da turma, três visitas de estudo, a recuperação de, pelo menos 50% dos alunos atribuídos nos Apoios, a elaboração e aplicação de 4 fichas diferenciadas, e não sei muito mais porque não fiz.

Trocamos agora correspondência registada com a escola, notificam-nos sobre o incumprimento, mandam-nos ler a lei que já lemos, os códigos determinando procedimentos administrativos, enviam-nos os e-mails não assinados da DGRHE, que julgam constituírem esclarecimentos iluminados, absolutas e últimas interpretações de uma lei que não está escrita em lado nenhum.
Dizemo-nos: “Não desesperes, Mãe! Não passarão!”, porque tudo passa, até eles...

Paula Lacerda

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