quinta-feira, 19 de março de 2009

A OBSERVAÇÃO DE AULAS

Ela tem confirmado a tese que há muito defendo: «Os professores sabem como dar aulas, o que sucede é que, muitas vezes, não têm os meios humanos (alunos e pais), organizacionais (complicação burocrática e gestão centralizada) nem condições materiais para o poder fazer com qualidade» (Vide texto que mobilizou os docentes para a manifestação nacional).

Os professores, pelo menos nas aulas a que assisti, têm feito aulas excelentes quanto à sua planificação, execução e relação pedagógica, por várias razões:

1º Regra geral os alunos portam-se melhor porque a presença de uma pessoa estranha na sala lhes provoca uma certa intimidação;

2º Os professores preparam com exaustão, minúcia e cuidado as aulas assistidas, sabendo que está em causa, em parte, o seu futuro;

3º Procuram os meios TIC e áudio-visuais e outros que, habitualmente, não é possível usar: se todos requisitassem todos os dias os projectores multimédia para as suas aulas, aplicassem todos os dias fichas de trabalho, etc., haveria todos os dias uma guerra civil na escola.

Se o problema não está nos professores, porque insiste o Ministério numa política de ensino centrada apenas no professor? A razão é simples. Os professores no topo da carreira, os ditos titulares são os mais caros e é preciso empurrá-los o mais cedo para a reforma antecipada e penalizada porque, como há grande desemprego entre o professorado, é fácil substituir cada dois por um ganhando uma ninharia e muito mais dócil. Eliminando os mais contestatários, ficarão os professores sem vínculo, contratados, muito mais dóceis para fazer tudo o que o ministério lhes pedir porque a sua situação frágil e a necessidade de trabalho assim os obriga: trabalhar muito por pouco dinheiro. Por outro lado, como há excesso de professores, dificultando-lhes a vida, infernizando a sua vida sem momentos de relaxe, trabalhando de dia e noite e ao fim de semana, sem possibilidade de ler um livro e de se actualizarem, muito abandonarão o ensino ou emigrarão para outras paragens onde possam trabalhar com mais dignidade e melhores salários.

Mas isto não resolve o problema da educação no nosso país por muitos planos de acção, planos de recuperação, planos de desenvolvimento, planos de enriquecimento e adaptações curriculares que se façam. Os resultados das aprendizagens dos alunos continuarão fracos ou piores porque estes já se habituaram a que as responsabilidades de todo o mal seja atribuído aos professores e, portanto, sentem-se autorizados a fazer tudo o que lhes apetece porque não há problema: afinal no final do ano passam praticamente todos mesmo sem se esforçar ou estudar. Por outro lado, grande parte dos Encarregados de Educação também já se habituou a pensar igualmente que a responsabilidade é dos professores, mesmo quando os seus filhos se portam mal ou são punidos por algum desacato mais grave. Por outro lado ainda, o cansaço dos professores em burocracia completamente inútil, diminuirá a sua disponibilidade para os alunos e, logo, a qualidade das outras aulas não poderá ser tão boa como se estivessem frescos e motivados.

Não há reforma do ensino que produza quaisquer efeitos consideráveis e radicais:
1º Se não se mudar o paradigma da educação em Portugal; se continuarmos a pensar que é o professor que tem que inculcar na cabeça do aluno um conjunto de ideias, conhecimentos e procedimentos e que, portanto, este não deve fazer qualquer esforço para aprender. Tal como o ensino está organizado e estruturado torna-se praticamente um convite à preguiça mental.

2º Se não forem restauradas a dignidade e autoridade profissionais; se os professores continuarem a ser tratados como vadios, profissionais incompetentes, que até agora não fizeram nada de válido; se aos professores não for reconhecido e dado o poder de impor o respeito e a disciplina necessária para o desenvolvimento das actividades pedagógicas e, com isso, poder defender o direito dos outros à aprendizagem e formação pessoal.

3º Se os pais e alunos não forem responsabilizados pelo seu comportamento e atitudes dentro da escola e sala de aula; se os pais não se interessarem pelo que os seus filhos fazem, ou não, na escola.

4º Se as escolas não forem todas equipadas com meios modernos capazes de competir com os meios que os alunos já dispõem em suas casas.

5º Se a escola continuar sem autonomia administrativa, financeira e pedagógica; se todos os dias continuar a chegar à escola uma catadupa de documentos do ME, do DGRHE, do CAE, do Secretário de Estado, da Ministra, do Director Regional, etc., etc., que retiram tempo útil aos professores para que sejam lidos.

6º Se as escolas continuarem a ser edifícios velhos, caducos, desconfortáveis, demasiado frios ou quentes.

Outra política e organização educativa precisa-se com urgência. Resposta a qualquer Sócrates que tenha dúvidas e que, portanto, pense. Nada de respostas a qualquer Sócrates cheio de certezas e sem dúvidas e que, por isso, não pense.

Zeferino Lopes, Professor de Filosofia da Escola Secundária de Penafiel, em 19 de Março de 2009.

2 comentários:

Anónimo disse...

Concordo inteiramente.

Para a semana vou frequentar um seminário sobre observação de aulas,o qual me foi praticamente imposto.A informação veio quase de um dia para o outro.
Começa às 17 horas e acaba às 22 horas. Serão cinco horas de trabalho, sem jantar e logo após um dia de aulas. Claro que no dia seguinte as aulas começam às 8.30 como se nada tivesse acontecido!

Ninguém recusou, pouco se refilou!
Alguém disse que é normal!

É? E os deveres familiares? E o descanso necessário? E a vida privada?
Isto é mesmo normal ???

Paulo Mante disse...

Olá colega Zeferino. Muito bem escrito e melhor pensado!

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