sexta-feira, 15 de maio de 2009

GUERRILHAS E ESCOLA PÚBLICA

O Presidente da Câmara, o Director da Escola, o Coordenador e a filha dele

Ana Drago, deputada do BE

No tempo em que só havia dois canais de televisão, e o país parava para ver os episódios finais das novelas , chegou até nós um apetitoso enredo brasileiro que dava pelo nome de "O Bem Amado". A telenovela contava a história de um "prefeito" de uma pequena cidade, que tudo tentava para inaugurar o cemitério local, a sua obra de referência - e a busca de um morto inaugural dava aso às peripécias arriscadas. Lembrei-me da personagem do "bem-amado" esta semana, a propósito da escola de Quinchães.

Em Quinchães, concelho de Fafe, o Presidente da Câmara local - do PS - inaugurou, feliz, uma biblioteca escolar, num Domingo de manhã. Achou o Sr. Presidente, contudo, que havia pouco povo para celebrar a obra. Vai daí, pediu explicações ao novo Director do agrupamento de escolas. O Director, por sua vez, anunciou um inquérito interno, puxou dos seus novos poderes e destituiu o Coordenador da Escola.

Depois vieram os detalhes que conferem densidade e dramaticidade à história: o dito Presidente da Câmara tinha sido concorrente do actual líder da Federação do PS de Braga, de quem o coordenador da escola - o destituído - tinha sido apoiante. Por isso, o representante dos pais - ele próprio membro da comissão política concelhia do PS - acusa o processo de ser "um linchamento político". Em declarações ao Público, o Presidente da Câmara diz que não, que a divergência é mais antiga: o dito ex-coordenador "zangou-se, em 2005, porque não garanti emprego à filha dele, que fez estágio profissional na Câmara de Fafe e trabalha agora na autarquia de Cabeceiras de Basto". Tudo gente do PS num enredo sumarento, portanto.

Creio que por mais caciquismo e guerrilha política a que os portugueses se tenham habituado, ainda é chocante que um director de Escola destitua um coordenador num contexto de guerra interna do PS, porque o Presidente da Câmara - do PS - pede justificação pela depauperada plateia numa manhã de Domingo. Pensava-se que um coordenador deveria ser avaliado pela qualidade educativa da sua escola , mas estávamos enganados. Afinal é arregimentar apoiantes para as muitas inaugurações.

A verdade é que tudo isto se tornou recentemente não só possível, como legal. Aqui está a prova das alegrias trazidas pelo novo modelo de gestão escolar, imposto pelo Governo PS e pela actual equipa governativa do Ministério da Educação. Colocou as autarquias a escolher os directores das escolas, e deu aos directores o poder de nomear e destituir os coordenadores a seu bel-prazer. Agora há toda uma cadeia de comando que responde diligente a quem manda na "terra". Mas não em nome da qualidade educativa das escolas. Os poderes conferidos à nova figura do director,com a morte matada da gestão democrática não conferem mais autonomia à equipa escolar, mas antes arbitrariedade. O caciquismo e a partidocracia têm agora um novo espaço de actuação - a escola pública.

Preocupemo-nos pela escola pública: haverá muita guerrilha interna no PS, e muitas inaugurações no longo caminho para o futuro ciclo eleitoral.

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