quarta-feira, 13 de maio de 2009

SUPERPROFESSORES CONTRATADOS PARA ENSINAR ALUNOS REBELDES

por Kátia Catulo, Publicado em 13 de Maio de 2009

Ser professor é pouco para ficar entre os seleccionados. É preciso provar que se consegue ensinar numa escola de risco
Ter um diploma na mão, gostar do que se faz e mostrar vontade de trabalhar é pouco. Quem quer ensinar numa escola problemática precisa de mais trunfos. Caso contrário, as hipóteses de ficar entre os seleccionados são nulas. Pela primeira vez, os estabelecimentos de ensino considerados de risco estão a recrutar os seus docentes. O resultado do concurso só será conhecido no final do mês e excluiu qualquer interferência do Ministério da Educação. São os conselhos executivos que definiram os seus próprios critérios. Os 64 agrupamentos, que fazem parte dos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária, determinaram o que querem de cada um dos candidatos.

"Não é uma ambição ao alcance de todos", avisa Armandina Soares, presidente do conselho executivo do Agrupamento de Escolas de Vialonga, em Vila Franca de Xira. Só para os que conseguirem ser professores, mediadores culturais, directores de turma, formadores, assistentes sociais, psicólogos, gestores e administradores. Tudo ao mesmo tempo e, mesmo assim, não chega. Há também que dominar as novas tecnologias, participar em colóquios, seminários e conferências em Portugal ou no estrangeiro para as probabilidades aumentarem. Doutoramentos, mestrados, cursos de formação e reciclagem e ainda muita experiência em escolas problemáticas são as condições finais para garantir a selecção.

"Os nossos critérios são mais exigentes do que os do ministério porque estamos perante um contexto escolar com maior complexidade", explica Hélder Pais, presidente do Agrupamento de Escolas D. Domingos Jardo, em Sintra. Ser apenas professor não basta. É preciso ser um superprofessor para enfrentar alunos rebeldes, crianças desmotivadas, adolescentes com dificuldades de aprendizagem e ainda encarregados de educação ausentes.

Nas escolas do agrupamento de S. Domingos Jardo, quem tem menos de três anos de experiência profissional ficou fora da corrida. E os que têm formação em mediação de conflitos e em áreas de insucesso escolar estão na dianteira. Coordenadores de projectos educativos, experiência em tecnologias de informação e comunicação são as mais-valias que os candidatos usaram para engordar a sua pontuação que segue uma escala de zero a 100: "Privilegiamos as pessoas que são interventivas", conta Hélder Pais.

O júri, constituído pelo presidente do conselho executivo e quatro docentes, quis saber o que o professor andou a fazer nos anos anteriores, além de dar aulas: "O candidato ideal é o que, na sua actividade diária, apresentou várias propostas para dinamizar o ensino." Não há, portanto, hipótese para os que se limitaram a seguir a matéria de acordo com o programa tradicional. Mas, a arma secreta para entrar nas escolas do agrupamentos de Sintra está em já ter trabalhado num estabelecimento de ensino da freguesia de Agualva-Cacém: "O conhecimento do meio local é fundamental para responder às nossas necessidades."

Prata da casa O mesmo critério de selecção é usado no agrupamento de Vialonga. Superar os rivais que já leccionam nos três estabelecimentos de ensino básico e secundário de Vila Franca de Xira é por isso missão quase impossível para os candidatos de outros concelhos. O júri assumiu logo à partida que prefere a prata da casa. "Desde 1996 que estamos integrados nos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária e foi a partir dessa altura que estabelecemos como prioridade requisitar os docentes a longo prazo", conta Armandina Soares.

Antes disso, nenhum professor ficava tempo suficiente. "A má fama que as nossas escolas tinham faziam com que os docentes não quisessem permanecer aqui", conta a dirigente do conselho executivo. Construir projectos educativos de longo prazo, acompanhar alunos do 7.o ao 9.o ano ou avaliar a sua evolução foram metas fracassadas durante anos a fio: "A pouco e pouco fomos estabilizando o nosso corpo docente." O agrupamento promoveu cursos segundo as necessidades de cada turma: "São precisamente as acções de formação ministradas pelas nossas escolas que mais valorizamos para seleccionar os candidatos."

Melhorar a aprendizagem individual é a principal aposta dos estabelecimentos de ensino de Vialonga porque a maioria das crianças faz os trabalhos escolares em casa sem qualquer apoio: "Por regra, os pais têm horários de trabalho incompatíveis com a disponibilidade dos filhos." A escola é portanto o local onde os miúdos são acompanhados pelos adultos: "Assim que deixam a sala de aula, a rua passa a ser o único espaço de convívio", explica Armandina Soares.

Cursos, experiência profissional, habilitação académica, actividades extracurriculares ou cargos de gestão, tudo contou para conseguir entrar numa das 167 escolas incluídas nos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária. Cada valência é como um cromo de caderneta - quantos mais coleccionou, maiores foram as hipóteses de chegar à última etapa da selecção - a entrevista.

"Foi o momento determinante para convencer o júri", defende Margarida Góis, presidente do conselho executivo do Agrupamento da Trafaria, em Almada. Foi a altura em que o júri avaliou se o candidato tem ou não perfil para dar aulas numa escola de risco: "A personalidade teve mais peso do que a habilitação profissional pois, à partida, todos os que percorreram o caminho até à entrevista são professores muito experientes."

Para chegar à última etapa, os concorrentes jogaram todas as cartadas até ficarem em pé de igualdade. O desempate entre finalistas aconteceu olhos nos olhos. "Capacidade de comunicar ou de relacionar-se com os alunos e colegas são alguns dos principais aspectos que avaliámos durante a entrevista", conta Margarida Góis.

Mas, enquanto o candidato esteve sentado frente aos cinco membros do júri outros imprevistos surgiram: "Colocámos cenários de indisciplina ou de apatia entre os alunos para o docente encontrar algumas soluções a médio e longo prazo." Cada aspirante usou intuição e tudo aquilo que aprendeu nos cursos, nos mestrados, nos seminários ou em qualquer outro lado para provar aos jurados que não é apenas um professor. É sobretudo, um superprofessor.


In Ionline.

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