quarta-feira, 3 de junho de 2009

A HISTÓRIA DE UMA CARREIRA

Quando deixei a profissão, estava tão revoltada que só queria pensar noutras coisas. Mas, o que fui observando na Escola, quando a visitava, o desespero e o excesso de trabalho que vi nos colegas que como eu não puderam desistir, o caos em que as escolas se transformaram, levaram-me a escrever estas linhas. Quero divulgar a história de alguém que, como muitos outros, depois de uma vida de trabalho empenhado e com a consciência de ter cumprido o seu dever, se sentiu obrigada a abandonar tudo, quase expulsa, devido ao rumo que as coisas tomaram.

Sempre sonhei ser professora, desde o tempo em que dava aulas às minhas bonecas ou em que ensinava as primeiras letras aos meus primos mais novos. Gostaria de ter ingressado no Magistério Primário, mas os meus pais desejavam que tirasse um curso superior e optei por seguir a área das Ciências, acabando por me licenciar em Geologia. Iniciei a minha actividade profissional em Novembro de 1972, no 2º ciclo do Ensino Básico.

Estreei-me, com uma turma de alunos repescados para a escolaridade obrigatória. Eram crianças que rejeitavam a Escola e com as quais era difícil trabalhar. Sem qualquer preparação pedagógica, o caminho foi difícil, mas foi um início determinante no meu percurso profissional.

No ano seguinte, ao ser escolhida para delegada de disciplina, tive a possibilidade de participar em várias sessões de formação sobre o Ensino Experimental das Ciências. Estas sessões e as reflexões sobre elas, com os colegas do grupo disciplinar, muito me ensinaram. Na época, não havia horas obrigatórias, para além das lectivas, mas trabalhava-se muito mais em grupo, nas escolas.

Em 75/76 realizei o estágio clássico. A avaliação era realizada a partir de aulas assistidas pela orientadora. Percebi logo de início, que o mais importante não era o que os alunos aprendiam, mas o espectáculo que o professor dava durante a aula. Como a avaliação final era importante, tentei aprender a lição e segui-la nas aulas assistidas, procurando conseguir uma avaliação decente.

Após o estágio, continuei uma eterna procura do método mais adequado para a aprendizagem dos alunos. Em 81/ 82, iniciou-se a profissionalização em serviço, época dourada na Educação em Portugal, pela dinâmica que se gerou nas Escolas e pelo trabalho em equipa que foi realizado. Como delegada de disciplina, tive de acompanhar três formandos em profissionalização. Considero ter realizado, na época, um novo estágio pedagógico. O trabalho em equipa foi fundamental. Como a partilha é a verdadeira formação, após dez anos de serviço, rejuvenesci para a profissão. Parti à procura de outras respostas, conhecendo, o que chamo a «fada madrinha» da minha evolução profissional, o Movimento da Escola Moderna (MEM). Só aí, aprendi o que era um modelo pedagógico e tive formação que me ajudou a aplicá-lo nas minhas aulas. Participei em sábados pedagógicos, em congressos, partilhei e reflecti com outros, sobre as práticas de cada um com objectivo de as melhorar.

As reduções da componente lectiva, de que, entretanto, por força da idade e do tempo de serviço, comecei a usufruir, não serviram para descansar, mas para investir numa melhor qualidade do meu trabalho, preparar mais e melhores materiais para os meus alunos trabalharem e participar em mais acções de formação.

Durante seis anos trabalhei no ensino recorrente. Vivi a experiência do trabalho conjunto na sala de aula com outros docentes. Construímos uma verdadeira equipa educativa, realizamos a articulação horizontal, trabalhamos os conteúdos de forma transversal, com estreita ligação ao meio e fazendo uma gestão flexível do tempo, promovemos o crescimento profissional de todos os envolvidos.

Em 93/ 94 integrei a Comissão Instaladora duma nova Escola. Outra experiência que, apesar de algum trabalho burocrático, que não era o que mais me agradava, ainda me permitiu realizar, com a turma que leccionava, um trabalho interdisciplinar a nível da Área Escola, que me viria a incentivar, mais tarde, para uma grande aposta na leccionação das novas áreas curriculares não disciplinares. Passados os dois anos da comissão de serviço, regressei à minha escola, pois interessava-me mais o trabalho directo com os alunos.

Voltei a ser eleita Delegada de Disciplina e mais tarde Coordenadora do Departamento. Em 1999, completei 50 anos de idade. Pensei que chegara a altura de largar o poder e dar lugar aos mais novos. Eles são, muitas vezes, uma mais - valia. Por decisão própria pus o cargo à disposição. Continuei, no entanto, a participar nas várias actividades e a intervir, nas reuniões, com as minhas opiniões. O grande interesse pelo trabalho em equipa e interdisciplinar levou-me a apostar nas novas áreas curriculares, de que fui coordenadora. Mais liberta de cargos pedagógicos, apostei na minha formação e no melhoramento da minha prática lectiva. Muita dessa formação foi por mim custeada. Além dessa, realizei um curso de formação especializada na ESE do Porto e outras acções no Centro de Formação da Escola, tantas, que consegui mais 20 créditos do que aqueles que eram necessários para progredir e chegar ao topo da carreira.

Completei 33 anos de serviço, sentia-me realizada na minha profissão. Continuei a adquirir formação para melhorar a minha prática lectiva e a intervir nas actividades da Escola e do Departamento. Dei formação creditada a outros professores da Escola. Tinha a sensação do dever cumprido e regozijava-me com os progressos conseguidos.

Mas, depois da bonança, veio a tempestade. O PS ganhou as eleições e o ME passou a ser dirigido pela equipa da Doutora Maria de Lurdes Rodrigues. De repente, um «lobo mau» surgiu na minha carreira. As afrontas aos professores começaram. Passamos a ser considerados uns mandriões que trabalhavam poucas horas. Ninguém nos perguntou o que fazíamos nas horas «não lectivas». Marcou-se esta componente no horário, sem qualquer critério, o que, para quem trabalhava a sério, veio roubar muitas das horas que podiam ser dedicadas à formação, ao trabalho em equipa e à preparação de aulas. Como queria continuar a ser uma boa profissional, não esmoreci, passei a trabalhar até altas horas, para preparar e organizar, convenientemente, a prática lectiva. Seguiu-se o concurso para professores titulares, a grande «bofetada» no meu esforço de todos os anos de trabalho. Vinte e oito anos da minha carreira foram «deitados ao lixo», pois só contaram
os últimos sete. Precisamente aqueles em que decidira deixar os cargos, para investir nas áreas curriculares não disciplinares, na minha formação e continuar a aperfeiçoar a prática lectiva. Fui penalizada por ter «objectivos individuais» antes da senhora ministra os exigir. Vi colegas, com metade do tempo de serviço, terem uma pontuação muito acima da minha e, se não fora ter feito a formação especializada e a escola ter vagas suficientes, não conseguiria chegar a professora titular. Não que me interessasse muito chegar a titular, não concordo com professores de primeira e de segunda, mas o que aconteceria a quem não o conseguisse, não era claro e tinha medo de vir a ser penalizada na aposentação.

Achei uma injustiça, mas continuei a cumprir os meus deveres profissionais. Fiz parte da equipa que elaborou o projecto do Plano de Acção da Matemática (PAM) da Escola e orientei uma Oficina de Formação para 14 formandos, no âmbito deste projecto, sem qualquer remuneração, apenas a troco de um bloco de 90 minutos, semanal, na componente não lectiva. Em cada semana as horas de trabalho cresciam. Com o novo modelo de avaliação do desempenho, veio uma sobrecarga de reuniões e fichas para fazer que não tinham fim e o ambiente da escola deteriorou-se. Não se trabalhava mais em grupo, não se discutiam questões pedagógicas, só a avaliação era o tema do dia. O Centro de Formação ia fechar e teve de se acelerar todo o processo da Oficina. Comecei a apontar as horas semanais que trabalhava para a Escola: quarenta, quarenta e duas, numa semana chegaram a ser cinquenta e duas! Impossível! Não conseguia conciliar vida profissional e pessoal. Quase já nem conseguia dormir! Ou deixava de preparar as aulas e de as dar em condições ou ia parar ao manicómio! Optei por pedir a aposentação antecipada. Perdi dinheiro, abandonei a profissão da minha vida, mas tive que dizer: «Basta!»

Por estranho que pareça, a «via-sacra» continuou. Pedi a aposentação em Maio e esperei até Outubro. O que significou voltar a pegar nas turmas do ano anterior, para as deixar passado mês e meio. Foi muito penoso, tanto para mim como para os alunos. O tempo de serviço só contou até Maio. Trabalhei um mês inteiro, depois de receber a carta da aposentação, e recebi já pela pensão transitória. Descontaram-me contribuições que dizem não ter feito em 1972 e 73, ao valor monetário actual. Passei a receber, continuamente, e-mails da DGRHE que me mandavam entregar os objectivos individuais, concorrer ao concurso para professores titulares, etc. Cada vez que os recebia, recordava o que se tinha passado e entrei em depressão.

Para me distrair e sentir útil, passei, inocentemente, a ir à Escola, ajudar um aluno com dificuldades e participar nas reuniões e nos trabalhos do PAM, projecto em que muito me empenhara. Quando conheci as intenções do ME em instituir o trabalho voluntário, para os professores aposentados, decidi não ir mais. O meu trabalho tinha a intenção de ajudar a Escola, colegas e alunos que o mereciam. Continuar a fazê-lo, seria pactuar com uma instituição que, pelas suas atitudes, foi a causadora de eu ter abandonado a profissão. Não podia trabalhar, gratuitamente, para essas pessoas. Se precisam de professores que contratem os muitos que há, por aí, desempregados.

Gratuitamente, só trabalharei para aqueles a quem devo e o merecem. Ao MEM e aos meus alunos devo tudo aquilo que progredi e aprendi. Aos vários Conselhos Executivos e colegas com quem trabalhei devo o respeito e a consideração que sempre tiveram pelo meu trabalho. À minha família, as horas de atenção que lhes roubei para dedicar à profissão. Ao Ministério da educação não devo nada. São eles que me devem!

MARIA CLOTILDE LOBO

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Desde 01-01-2009


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