terça-feira, 14 de julho de 2009

A SAGA DOS EXAMES DE AFERIÇÃO

Apontamentos, Depoimentos e Entrevista a Nuno Crato sobre o exame de Matemática.


Exames do 9.º ano: Matemática regista melhoria
Duplicam negativas a Português

Três em cada dez alunos do 9º ano teve negativa no exame de Português. As notas abaixo de três quase duplicaram face ao último ano lectivo, passando de 16,7 para 30,1 por cento, de acordo com os números ontem divulgados pelo Ministério da Educação (ME). Já a Matemática houve uma melhoria, com as negativas a baixarem de 44,9 para 36,2 por cento.

Conjugando a nota do exame, que vale 30 por cento da nota final, com a avaliação contínua, verifica-se que a taxa de reprovação a Matemática passou de 26 por cento em 2008 para 24 por cento este ano. Já a Português registou-se um agravamento de um ponto percentual, passando de oito para nove por cento.

O Governo considerou os resultados positivos, mas as críticas não se fizeram esperar, quer da Sociedade Portuguesa de Matemática, quer da Associação de Professores de Português.

A ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, falou em orgulho pelos resultados obtidos. "Gostava de sublinhar que a larga maioria dos alunos teve nota positiva tanto a Português como a Matemática. Isso deve encher-nos de orgulho. É muito positivo e muito bom para o País", afirmou Maria de Lurdes Rodrigues à Lusa, frisando que "é necessário continuar a trabalhar para melhorar" e que o País não se pode "conformar" com estas classificações.

Já o secretário de Estado da Educação, Valer Lemos, afirmou que os resultados dos exames tiveram "variações perfeitamente normais".

Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação de Professores de Português (APP), discorda. "Para nós e para a maior parte das pessoas do Mundo, uma duplicação dos resultados negativos é uma grande diferença, não é uma variação perfeitamente normal", disse ao CM.

Questionado sobre quais as razões para o aumento de negativas registado, o dirigente remeteu explicações para o Ministério da Educação, que acusa de esconder informação dos professores: "As razões só o ME sabe, porque nós, professores, não temos acesso aos resultados pergunta a pergunta. Não sabemos se falharam por não saberem gramática, texto literário ou texto não--literário. Era muito importante os professores terem estes dados e não percebemos porque é que o ME não os partilha", afirmou Feytor Pinto, acrescentando: "Em 2006, as negativas a Português também duplicaram e até hoje não sabemos porquê."

Confrontado pelo CM, o assessor do ME, respondeu que "este Governo foi o primeiro a devolver às escolas os resultados das provas dos seus alunos. Fê-lo com as provas de aferição e vai fazer com os exames, após os dados serem processados".

A Sociedade Portuguesa de Matemática também criticou o facto de o Governo não revelar informação mais pormenorizada sobre os resultados dos exames, apontando igualmente baterias ao alegado facilitismo da prova.

Posição diversa tem a Associação de Professores de Matemática (APM), cujo presidente, Arsélio Martins, considerou que o exame "não era menos exigente do que nos anos anteriores". "Os exames estão a ser cada vez menos um elemento de perturbação. Penso que, neste momento, estamos a aproximar-nos de uma certa normalidade", afirmou à Lusa o presidente da APM, que venceu o Prémio Nacional de Professores em 2007.

APONTAMENTOS

EXAMES DA 2.ª FASE

A Associação de Professores de Português criticou os exames do 12.º ano, 2.ª fase, que se realizaram ontem. "Não existe um equilíbrio no grau de dificuldade entre as provas das duas fases, já que a da 1.ª fase estava elaborada de uma forma muito mais clara e explícita", defendeu num parecer.

19 432 FIZERAM EXAME

Segundo os dados ontem revelados pelo Ministério da Educação, realizaram os exames da 2.ª fase de Português 19 432 alunos dos 27 298 que estavam inscritos, o que representa uma assiduidade de 71 por cento.

"OSCILAÇÕES SÃO ACEITÁVEIS"

Valter Lemos, secretário de Estado da Educação, considerou ontem normais as variações nos resultados dos exames, apesar de as negativas a Português terem duplicado. "Não há nenhum efeito estranho. Há sempre oscilações em todos os países do Mundo e estas tiveram sinais contrários, mas os intervalos foram aceitáveis", disse, em Conferência de Imprensa, no Ministério da Educação.

Valter Lemos foi secundado nesta opinião por Carlos Pinto Ferreira, director do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE), entidade responsável pela elaboração dos exames. "Há sempre este tremor estatístico, mas o importante é ver a tendência de longo prazo", disse.

Para o secretário de Estado, esta tendência é claramente positiva. "Houve um avanço significativo desde o início da legislatura, apesar de muitos nos acusarem de ter uma estratégia de facilitismo", afirmou.

O governante rejeitou também a ideia de que os alunos foram perturbados durante o ano lectivo devido às lutas dos professores. "O ano correu normalmente e os exames de forma exemplar", disse, considerando que os resultados estão num nível positivo e, por isso, "é cada vez mais difícil melhorar".

SATISFAÇÃO EM VISEU: "EXAMES FORAM FÁCEIS"

Na Escola Secundária Infante D. Henrique, em Viseu, o ambiente às primeiras horas da manhã era de relativa tranquilidade e com pouca afluência dos alunos. Aos poucos, os estudantes chegaram e dirigiram-se ao local onde estão afixados os resultados dos exames nacionais. A maioria esboçou um sorriso de "grande satisfação" com os resultados obtidos. Foram poucos os resultados negativos e muitas notas acima do quatro.

"Os exames até foram fáceis", desabafaram alguns estudantes em surdina. Em grupo, sozinhos ou acompanhados pelos pais, foram saber os resultados finais de um ano de esforço. A grande maioria dos alunos ficou satisfeita e deslocou-se à secretaria da escola para preparar a matrícula noutro estabelecimento de ensino. "Chegou a altura de optarmos pelo curso que queremos seguir e pela actividade profissional por que vamos enveredar", referiu Rui Costa, "indeciso" quanto ao seu futuro.

"SITUAÇÃO DO ENSINO É CRÍTICA" (Nuno Crato, pres. Sociedade Portuguesa de Matemática)

Correio da Manhã – Está surpreendido com a melhoria nos exames de Matemática?

Nuno Crato – Não. Na altura dos exames dissemos logo que eram muito simples. Chegámos a dizer no parecer que era "escandalosamente fácil", por isso já esperávamos que as notas subissem. As nossas observações confirmaram--se: dissemos que os exames do 12.º eram mais razoáveis e os resultados baixaram; este foi mais fácil e subiram.

– Como interpreta os resultados?

– O facto de os exames serem feitos com critérios variáveis torna difícil fazer comparações de ano para ano. Mas penso que haver 36 por cento de negativas num exame extremamente fácil significa que o estado do Ensino Básico é, infelizmente, bastante mau, uma situação crítica.

– A Associação de Professores de Português queixa-se por não ter os resultados discriminados por pergunta...

– O Ministério da Educação gosta de guardar informação. É um velho problema. Era importante ter esses dados para saber no que os alunos erraram mais e menos.

– Que consequências trará o facto de os exames serem fáceis?

– Tem implicações a longo prazo, uma vez que baixa as expectativas dos alunos. Fazer exames mais fáceis do que aquilo que estão habituados nas aulas e nos manuais desincentiva-os de estudar.

DEPOIMENTOS

"As minhas notas são um espectáculo. Tive cinco a Matemática e quatro a Português. Mesmo sem ter estudado muito, já esperava ter boas notas porque os exames foram fáceis. Vou seguir a área das Artes porque tenho vocação para isso. Vou de férias muito mais tranquilo." (Guilherme Santos, 15 anos, Viseu)

"Tive negativas a Português e a Matemática. Chumbei o ano e ainda estou a pensar como é que vou contar aos meus pais. A Matemática tive um ano miserável e já contava reprovar, mas a Português não. Fiquei muito surpreendida porque o exame tinha corrido muito bem." (Sheila Gomes, 16 anos, Lisboa)

"Tive três a Português e quatro a Matemática. Para mim foram boas notas, mas tenho a noção de que poderiam ter sido melhores se tivesse estudado um pouco mais. Só me apliquei na véspera das provas, o que foi pena. Quero seguir o curso de Engenharia Civil e por isso vou matricular-me numa escola profissional." (João Castanheira, 16 anos, Viseu)

"Tive piores resultados nos exames do que nas notas da avaliação contínua. A Matemática tive dois no exame e fiquei com três de nota final. A Português tive três no exame, mas fiquei com quatro de resultado final. O mais importante é que passei o ano e claro que estou muito satisfeita." (Rita Silva, 15 anos, Lisboa)

In Correio da Manhã.

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