O pior sucede quando o “pequeno ditador” chega à escola. Trata os professores com o mesmo desrespeito e insolência que trata os seus pais. Se são chamados à atenção, ripostam com arrogância e altivez: “Mas eu não fiz nada!”; “O que é que eu fiz?!”; “O(a) professor(a) só me vê a mim!”; “O(a) professor(a) é que pega comigo!”… Se é severamente reprimido por algum comportamento mais descabido, não suportando qualquer frustração porque teve sempre a resposta pronta e desejada dos pais, vai apresentar-lhes queixa: “O(a) professor(a) pegou-me de ponta.”; “O(a) professor(a) foi muito severo e autoritário”; “O(a) professor(a) não gosta de mim e por isso pega sempre comigo: não me deixa em paz!”. Naturalmente, os papás, sobretudo os de filhos únicos (lembro que cerca de 1/3 dos alunos são já filhos únicos), numa atitude super-protectora e acrítica, desconhecendo a realidade da sala de aula, vão transmitir as queixas dos filhos, em primeiro lugar, ao Director de Turma e, depois, à Direcção da escola.
Mas ainda pior: o “pequeno ditador”, habituado que está a ter tudo sem esforço porque sempre servido pela sua “criadagem”, pensa igualmente que tem direito a tudo e reclama boas classificações, mesmo sem fazer qualquer esforço para as obter. Serve-se antes de pequenos expedientes como tentar adivinhar, nas vésperas do teste, as perguntas do mesmo, fazer copianços com as formas mais subtis das novas tecnologias, metendo toda a informação possível no telemóvel, na máquina calculadora, no Ipod, em papelinhos minúsculos, etc. Se a disciplina insiste sobre conhecimentos memorizáveis, se o(a) professor(a) não se apercebe de nada e se estamos no 1º ou 2º períodos em que as matérias são ainda poucas, a coisa corre bem e o resultado do teste é bem positivo. Mas, se a natureza da disciplina ou do teste não permite a cábula ou esta não serve de nada, ou se ainda estamos no 3º período e a matéria é muita, ou se a questão exige raciocínio para compor uma resposta adequada, então é o descalabro e as notas não correspondem às expectativas. Mas não há problema: o “pequeno ditador” sabe aproveitar-se da cultura instalada – “Quem teve positiva no 1º e no 2º períodos, 2/3 do ano, não pode reprovar só porque teve negativa no 3º período que é apenas 1/3!” e, como diz a Srª Ministra, “os alunos têm direito ao sucesso!”.
Numa disciplina como a Filosofia ou a Matemática ou a Física, se o(a) professor(a) faz um trabalho sério, não é fácil, sobretudo em Filosofia em que não há escolhas múltiplas, iludir o problema. Por vezes, os professores de matemática exclamam: “Não percebo como é que esta(a) aluno(a) tem a escolha múltipla toda certa e erra tudo o resto! Eu não os vi copiar!” Bem, é sempre possível transmitir, mesmo por linguagem gestual e sinalética previamente combinada, as respostas, A, B, C ou D. Mas em Filosofia, uma disciplina que não tem exame, mas que pode estragar a média geral a quem luta exclusivamente pela nota, não é possível responder com uma letra: é necessário construir um texto coerente, bem estruturado, que responda efectivamente ao problema colocado. Mas, se não houve concentração nas aulas, esforço, estudo e trabalho, nada feito. O(a) professor(a) passa, então, a ser visto(a) como um obstáculo a notas mais altas, à boa média e, quiçá, à entrada na faculdade e no curso desejados, e logo o(a) professor(a) de uma disciplina que não tem exame! Se ainda fosse o(a) de Matemática ou de Biologia e Geologia, disciplinas de exame! Mas o(a) de Filosofia, isso é inadmissível!
Mas os “pequenos ditadores” têm sempre uma saída: em primeiro lugar responsabilizam, perante os pais, os professores das disciplinas sem exame mas que, sendo exigentes, não embarcam no facilitismo da boa nota; em segundo lugar, pedem aos pais que façam pressão na direcção da escola para que o(a) professor(a) seja substituído por um que dê melhores notas por um preço mais baixo como se os professores estivessem à venda. É evidente que, perante um eventual conflito entre os pais de uma turma e um(a) determinado(a) professor(a), a direcção da escola opta por resolvê-lo da maneira mais fácil, deslocando-o(a) para outra turma no ano lectivo seguinte. Isto é óbvio e resolve o conflito, mas não resolve o problema: os “pequenos ditadores” continuarão a mandar, a julgarem ser o centro do mundo, aqueles que têm apenas direitos e não deveres, a quem todos devem servir. Mas cuidado! Fechem bem as portas e as janelas! Liguem a rádio e a TV e conectem-se à Rede Global e estejam atentos. Eles vêm aí: se já mandam em casa, na escola ou na empresa, muito em breve mandarão no país! Cuidado: de um “pequeno ditador” pode surgir “o grande ditador”!









2 comentários:
Espero que os pais e "alguns professores" leiam este artigo...
Estava me lembrando de alguém que se assemelha a tudo o que o articulista colocou. O mais difícil é ser membro de uma extensa família (coisa rara em Portugal, mas por aqui ainda existe) e se ver às voltas com os tais "pequenos ditadores". Às vezes, mais de um em uma mesma família. A rinha é certa. E nela eles se sangram. Dá para compreender porque o autoritarismo não morre, porque há a perpetuação de tudo que abominamos. Creio, no entanto, que há algo mais que o convívio com pessoas complacentes para determinar o futuro de um "pequeno ditador".
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