quinta-feira, 27 de agosto de 2009

PROFESSOR… FUNCIONÁRIO PÚBLICO OU INTELECTUAL?

Esta dicotomia tem estado sempre presente na cabeça dos dirigentes políticos ora sobrevalorizando o carácter de funcionário público e burocrata do professor, ora valorizando o seu carácter intelectual e humanista.

Com o neoliberalismo e políticas neoliberais, que conduziram o mundo – é preciso que se diga – à situação de crise profunda e grave que actualmente vivemos, veio em força a mentalidade tecnocrática, “o trabalho por objectivos”, “a avaliação por objectivos mensuráveis”, “por evidências” e os “dossiês” e os “portefólios” e os “instrumentos e grelhas de registo e de observação” e os mapas com “fórmulas de cálculo” e o “cálculo do custo-benefício”, e desprezou-se a cultura e a intelectualidade do professor. Este passou a ser visto como um funcionário público com um horário bem detalhado, como um burocrata que tem que preencher, por cada função e por cada tarefa, um conjunto de grelhas, de mapas, instrumentos e relatórios; fazer um conjunto de cálculos, registos, planificações escritas, medições, e esgotar o seu tempo e paciência em papéis e mais papéis. Quando chega a casa, depois de tanta burocracia e das reuniões e das aulas, já não tem disponibilidade para o seu TI (trabalho individual), nem para a família, nem tempo para ler um bom livro quer da sua área científica, quer de natureza cultural, seja ele um romance histórico ou uma boa ficção… Não, o professor deve ser um instrutor, um burocrata, um técnico (inconsciente e acéfalo) que põe em acção um conjunto de procedimentos pré-formatados e pré-estabelecidos. E, se não desenvolver estes procedimentos, estas “boas práticas”, será penalizado como um trabalhador numa linha de produção taylorista. O professor não pode nem deve pensar, reflectir, questionar-se acerca do valor humano e da utilidade humana e cultural daquilo que faz e lhe ordenam fazer, mas embrenhar-se e ocupar-se nos meios para obter outros meios, perdendo-se o fim em vista . Não, o professor deve ser um mero executor de medidas e regulamentos e rotinas e procedimentos previamente estabelecidos por «expertos» (em castelhano) em “educação” do Ministério. É assim – defendem eles, os tecnocratas – que o mundo pula e avança! Porém…

“Eles não sabem nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E, sempre que um homem sonha,
O mundo pula e avança,
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança!”

Eles imaginam um “mundo perfeito”, um mundo mecânico, a funcionar obedecendo, deterministicamente, a um programa composto de leis físicas e mecânicas, como um relógio em que tudo está calculado, previsto e controlado, um mundo “sem falhas” que se desenvolve e cresce linearmente como uma linha de produção, um mundo em que seja sempre possível calcular o custo-benefício avaliando apenas alguns factores quantificáveis. Porém ignoram que este mundo não só não existe, como não é viável. É antes desumano, anti-natura, inconsciente, acrítico e acéfalo, que não prevê nem previne os males humanos que ele próprio provoca, porque é um mundo sem sentido, sem valores, sem (des)orientação na busca do sentido, sem consciência nem consistência, sem humanidade e espiritualidade; é um mundo de profunda ignorância sem disso mesmo ter consciência. E aí é que está a sua gravidade, na sua inconsciência, na sua não cum scientia.

Um mundo, assim, não tem consistência, nem substrato, nem poesia, nem filosofia (não tem sido por mero acaso que esta disciplina tem sido desvalorizada no Secundário e há quem defenda que ela deveria desaparecer porque “não serve de nada”!) e os seus males e verdade virão, rapidamente, ao cimo como o azeite. Se alguém tivesse dúvidas do que afirmo deste mundo, ao nível da economia e sociedade a crise actual dissipará essas dúvidas. O mesmo mundo, agora, aplicado à educação promete-nos um mundo de fazedores, de meros executores, empanturrados de “competências”, produtores e consumidores acríticos e acéfalos, que desenvolvam apenas uma das racionalidades de que fala Jean Gagnepain – a racionalidade ergológica (saber fazer) – mas que lhes falta, sem dúvida, as outras três: saber pensar/dizer; saber ser Pessoa e saber agir (praxis) sacrificando prazeres menores para obter um prazer superior .

Não. Se a economia já nos ensinou alguma coisa (e muito mais terá para ensinar!), então temos que “despertar do sono profundo e dogmático” deste “pensamento” neoliberal, que formatou as cabeças “bem-pensantes” dos governos PSD e PS e a mentalidade do senso comum em geral, e começar a ser pessoas e a pensar de novo. Temos que fazer dos professores aquilo que eles, efectivamente, são e gostam de ser: pessoas e intelectuais e pensadores e criadores e educadores e humanistas com consciência crítica e aberta na busca do sentido e da humanidade no espaço/tempo em que vivemos. Remetê-los à mera função de fazedores/executores/“cumpridores” de directivas impostas e externas é destruir a sua humanidade, a sua pessoa; é desumanizá-los e desumanizar a educação! Mas alguém ainda tem dúvidas?! Temos que promover uma educação humanista, completa, livre das amarras do “pensamento único”, para construir um mundo naturalmente humano e ao serviço da natureza, da espécie e de todas as outras espécies. Temos que destruir o “pensamento” ignorante anti-humanista, tecnocrático e burocrata que pretende fazer do mundo uma grande fábrica mecanizada, com a convergência das info-nano-biotecnologias, e em crescimento linear, exponencial e constante… Temos que regressar ao mundo da natureza e da cultura e ao homem como animal metafísico. Sem cultura e pensamento, não há economia nem educação que vinguem, não há futuro.


Zeferino Lopes, Professor de Filosofia na Escola Secundária de Penafiel, em 18 de Agosto de 2009.

__________

1 Daqui resulta que a escola se torna perversa e contraprodutiva e que a educação se torna muito cara, demasiado cara e que o professor, um trabalhador incansável, mas (quase) inútil.

2 Cf Jean Gagnepain, Leçons d’introduction à la théorie de la médiation, Peeters, Louvain-la Neuve, 1994.

3 Veja-se o caso do portátil, do Magalhães, da Net. Tudo isto não passa de um instrumento, de uma ferramenta que nos permite fazer uns joguinhos, falar com os amigos à distância, enviar e receber e-mails, aceder a conhecimentos reutilizáveis, descartáveis, úteis para fazer umas coisas, uns trabalhos, recorrendo ao copy & paste. Mas o portátil não educa nem forma as pessoas: desenvolve apenas o saber fazer e ter acesso a saberes diversos. Todavia não nos dá a sabedoria, o pensamento e a reflexão, nem o saber ser Pessoa, nem o saber estar e agir… É uma ferramenta importante, sem dúvida. Mas não passa disso mesmo. O seu valor depende sobretudo da qualidade do utilizador e esta o portátil não pode dá-la.

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