terça-feira, 22 de setembro de 2009

NEM TODOS BAIXAM OS BRAÇOS

O Mup só baixará os braços quando os professores quiserem...
Para que haja uma acomodação substancial, terão de estar resolvidos os principais problemas que constituíram o centro de uma longa e intensa luta dos professores portugueses em defesa da escola pública, da qualidade do ensino e da classe docente.


Movimentos independentes antecipam redução da contestação
Professores baixam as armas nos seus blogues

Quando, ironicamente, louvaram a ministra da Educação, Maria Lurdes Rodrigues, por ter conseguido unir uma classe tradicionalmente desunida, os autores dos blogues sobre Educação e os representantes dos movimentos de professores independentes dos sindicatos não estavam a brincar. É por isso mesmo que levam a sério o vazio que, acreditam, será gerado pela perda desse factor de união a partir de dia 27. E que se preparam, desde já, para o dia seguinte às eleições. Com um aviso: venha quem vier a governar o país poderá contar com uma vigilância "activa" de quem não tenciona "perder o cheiro a balneário".

Paulo Guinote fez encher uma caixa de comentários com agradecimentos e despedidas emocionadas quando, anteontem, anunciou no seu blogue A Educação do meu umbigo que, a partir de Outubro, em vez de uma dúzia, passará a escrever dois ou três textos por dia. Ramiro Marques fez acender vários alertas quando no seu blogue Profavaliação decidiu lançar o debate sobre aquilo que, após as eleições, poderá acontecer aos blogues e aos movimentos de professores.

Ambos se basearam na convicção de que, se nada ficará como antes de 2007 - "era uma pasmaceira", descreve Guinote - "também não será fácil voltar a assistir-se à erupção" que varreu a blogosfera, arrastando 120 mil professores para a rua, em finais de 2008. "O mérito desse movimento impressionante - que, aliás, mantém o meu blogue entre os 20 portugueses mais vistos - é todo de José Sócrates e da sua equipa ministerial", ironiza Guinote.

Ramiro Marques concorda, mas sente que o momento de viragem já se deu, que "o fim de ciclo antecedeu a mudança de Governo". "No dia em que foram conhecidos os resultados das eleições europeias, os professores consideraram ganha a guerra contra uma nova maioria absoluta", acredita.

Guinote admite que sim e diz ser justificada esta "descompressão" dos professores: "Ainda que o próximo governo minoritário seja liderado por José Sócrates, a oposição, de acordo com as promessas feitas, bastará para fazer cair dois dos motivos de muita insatisfação: as quotas previstas neste modelo de avaliação e a divisão da carreira entre titulares e não titulares".

Correm, então, o risco de verem pulverizados os respectivos blogues? De maneira nenhuma, reagem Paulo Guinote e Ramiro Marques, que não escondem, até, o alívio por poderem trocar a contestação pela reflexão e construção de propostas alternativas. Consideram, ainda, que terão sempre um papel de "pressão e de vigilância sobre o poder político. E, deste, também os movimentos independentes de professores não abrem mão.

"Em relação aos sindicatos, temos esta enorme vantagem de sermos verdadeiramente independentes, de termos uma estrutura bastante ágil e de mantermos o "cheiro a balneário" de quem vive o dia-a-dia das escolas. Se houver motivos para tensões, a nossa capacidade de mobilização mantém-se inalterável", avalia Ricardo Silva, da APEDE (Associação de Professores e Educadores em Defesa do Ensino).

Tal como Octávio Gonçalves, coordenador do movimento Promova (Professores Movimento de Valorização), Ricardo Silva está disposto a, para além de manter a vigilância, colaborar na construção de soluções. E ambos recusam liminarmente a possibilidade levantada nalguns blogues de os movimentos se virem a juntar para formarem um sindicato independente. "Não somos profissionais de luta, mas de ensino", justifica o dirigente da APEDE. "Entrámos nesta luta como professores e dela sairemos como professores", reforça Octávio Gonçalves.

Já Ilídio Trindade, do Movimento para a Mobilização e Unidade dos Professores (MUP), deixa no ar que o MUP "pode vir a assumir uma forma que lhe permita ser mais interventivo". "Caso os motivos de insatisfação se mantenham, será necessário garantir mais eficácia e capacidade de negociação", explica. Mas não confirma que o movimento se vá constituir num sindicato, nem dá a certeza de que se virá a verificar alguma alteração. Diz que a estratégia ainda está a ser definida e que será anunciada antes das eleições.

E uma vitória de José Sócrates? Será uma derrota dos professores? Todos dizem que não, mas Ricardo Silva é o mais enfático. "Não precisamos de ir mais longe: há um ano alguém imaginava que hoje não se pudesse conceber outro resultado que não o de uma maioria relativa? Alguém calculava que a Educação tivesse tal peso nos programas eleitorais de todos os partidos? Não e, nesse aspecto, a vitória já é nossa".

In Público.

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