sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O DIABO VESTE-SE NA SOMBRA

Por que é que me oponho de modo tão convicto ao novo modelo de gestão escolar? É simples: defendo a gestão democrática com os mesmos fundamentos que advogo a democracia como regime político, apesar de todas as suas imperfeições, como, por exemplo, o de sufragar de modo repetido muita liderança comprovadamente incompetente.

O sistema iniciado na Grécia Antiga tem uma comprovação científica, digamos assim e por registo das ciências políticas, que lhe confere um lugar de primazia. Foi na democracia que se registaram os mais significativos progressos das sociedades em qualquer dos parâmetros por onde se queira analisar.

E porquê? De modo resumido poderemos dizer assim:

  • pela renovação e legitimidade dos mandatos de poder - com limitação do número consecutivo nos exemplos mais avançados e prósperos - pelo sufrágio directo e universal;
  • pela consequente divisão de responsabilidades com aumento significativo da participação, e mobilização, cívica e profissional;
  • pela liberdade de expressão e de circulação de ideias o que proporcionou níveis elevados de inovação e de espírito empreendedor;
  • pelos níveis de parcimónia, de transparência e de escrutínio da gestão dos bem comuns;
  • pela repartição da riqueza e pelos incomparáveis progressos no bem-estar das pessoas e dos indicadores de esperança de vida;
  • pelos inauditos níveis de desempenho profissional e de proficiência dos pessoas e das diversas organizações;
  • pela afirmação de lideranças fortes, segundo o seguinte princípio de simultaneidade: "os líderes sentem-se capazes de o fazer e os liderados reconhecem essa autoridade".

Sabe-se, e no domínio empresarial isso é também mais do que comprovado, que as estruturas que adoptaram regimes democráticos obtiveram melhores resultados.

Conhece-se que o contrário de democracia regista resultados quase opostos aos que observámos.

A questão que se coloca à gestão escolar em Portugal começa agora a ser sentida: afinal mudou-se para a regressão? Apesar de haver lideranças que se afirmam em qualquer modelo, o contrário é também verdadeiro. Mas no sistema que se quer impor, não só se reduzirão os níveis de competência, mobilização, divisão de responsabilidades, autonomia, inovação, responsabilidade, transparência e profissionalismo, como se proporcionará o desgraçado poder arbitrário de muito tiranetezito. E por incrível que possa parecer, só ainda sobrevive quem faz de conta na selecção do director escolar e das lideranças intermédias, não cumpre o espírito do que se propõe e mantém disfarçados os regimes de sufrágio directo e universal; ou seja, em Portugal escolhe-se de modo dissimulado e envergonhado a vida em democracia.

Diábolos que me tenho de beliscar.

In Correntes

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