Logo que este Governo, deste PS pseudo-socrático 2, tomou posse, começou a aplicar, impiedosamente, a política do bode expiatório até porque, devido à crise, em vez de se diminuir os impostos e dar certas regalias conforme as promessas eleitorais, aplicou-se o sofrimento aos cidadãos comuns com o agravamento das condições de vida, pelo aumento do IVA, pelo desemprego e trabalho precário, pelo desmantelamento de certos centros de atendimento permanente na saúde, etc., o que gerou enorme frustração, mesmo entre aqueles que, votando para um bom governo que providenciasse uma vida melhor, sentiram na pele as dificuldades geradas por aqueles a quem confiaram o seu voto.
Nada tenho contra isso, nem contra a inabilidade dos opositores. Bem pelo contrário: a minha tarefa como filósofo e analista não é essa, mas mostrar como é que as coisas funcionam e como, do desejo de vingança, devido às forças que não julgamos controlar ou poder controlar, nos voltamos e votamos contra nós próprios, julgando punir os verdadeiros causadores da desgraça, ou seja, os outros. E há uma só maneira de o fazer: é apoiar quem castiga o vizinho, que pune os outros de quem tenho inveja. Porém, o divertido da questão, que de piada nada tem, é que todos pensam simetricamente o mesmo uns dos outros. Os professores poderão pensar que a culpa é dos pais ou dos políticos; os pais que a culpa é dos professores, os políticos que é da crise internacional e dos professores; os enfermeiros e médicos, que é dos doentes que aparecem nos centros de saúde e nos hospitais num estado lastimoso e de total desleixo e abandono ou que se queixam por tudo e por nada, etc., etc. E, destas culpas hipotéticas e distribuídas reciprocamente entre os diferentes estratos sociais, o governo sai incólume: a culpa é sempre do vizinho do qual temos inveja e sobre o qual achamos que merece o nosso castigo através do nosso voto, isto é, a culpa é do nosso vizinho médico, professor, enfermeiro, funcionário público, GNR, PSP, militar, etc., etc., e não daqueles que, desde há longas décadas, nos têm (des)governado sucessiva e alternadamente, criando a ilusão de que são a alternativa uns dos outros. Puro engano – ganham sempre os mesmos, em virtude desta coligação negativa das invejas e dos desejos de vingança recíproca que, como se vê, apenas servem as grandes fortunas, os bancos, as multinacionais, etc., e aqueles que, servilmente, estão ao seu serviço, de corpo e alma; e perdem sempre os mesmos, ou seja, perdemos todos nós, as vítimas, vítimas também de nós próprios porque nos deixamos enredar neste jogo de vinganças recíprocas e suicidárias: perdem e têm perdido, sem margem para dúvidas, o pequeno comerciante e industrial, o pequeno trabalhador por conta própria, os professores, os enfermeiros, trabalhadores em geral, os funcionários públicos, os serviços públicos que deveriam estar ao serviço da comunidade (tais como a água, a luz, a educação e a saúde., os caminhos de ferro, etc.) e não ao serviço dos lucros daqueles que, de eleição em eleição, pela razão já exposta, ganham sempre e sempre continuarão a ganhar enquanto as verdadeiras vítimas não se unirem em vez de lutarem umas contra as outras, julgando que a culpa é sempre do vizinho: do professor ou médico, ou enfermeiro, ou funcionário público, ou juiz, ou militar, ou PSP, ou GNR, ou pequeno comerciante ou pequeno industrial. Se todos sofremos, porque nos acusamos reciprocamente?! Assim, qualquer sofista político se ri de nós e mantém a ilusão sobre todos nós de que defende o interesse geral e comum e que os interesses do médico, do juiz, do advogado, do funcionário público, do GNR, do PSP, do militar, do professor, etc., enquanto profissionais que lutam pela sua dignidade, são um interesse "particular e corporativo", como se o geral, para ser geral, não reunisse em si o particular: o Universal, como diz o ilustre colega Jorge Mendonça, para o ser, não pode excluir nada nem ninguém (pois, se o fizesse, seria um particular, entre outros. Não pode excluir os professores, os médicos, os militares, os enfermeiros e os funcionários públicos, etc., etc., porque são gente universal e, como tal, ninguém, mesmo ninguém, deve ser excluído da discussão da coisa pública, da República. E, o que estamos a verificar com este governo (dito) socialista: é a exclusão das pessoas da política, da coisa pública como o ensino e a educação; é a negação da própria Res Pública – que ironicamente atingirá, em Portugal, no muito próximo 2010 a provecta idade centenária; é a negação da dignidade de pessoa humana a todos os cidadãos profissionais dignos sobre os quais se legisla mas dos quais nada se pretende saber ou inquirir ou discutir. É a política do bode expiatório a funcionar no seu maior expoente do máximo requinte maquiavélico: conservar o poder para o oferecer a quem o não deve ter: àqueles que se servem da sociedade em vez de a servir.
Esc. Sec. Penafiel, 7 de Outubro de 2009.
1 Ver René Girard, La violence et le sacré, Grasset, Paris, 1972 e René Girard, Des choses cachées depuis la fondation du monde, Grasset, Paris, 1978.










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