quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A POLÍTICA DO BODE EXPIATÓRIO

Esta política, segundo René Girard 1, é tão antiga, ou mais, que a própria humanidade. Com efeito, nos primeiros hominídeos, porque todos desejavam os mesmos objectos ou até as mesmas fêmeas em período de cio, gerava-se uma enorme confusão, dando origem a uma "luta de todos contra todos" – expressão que foi buscar a Hobbes – de tal maneira cruel e perigosa que, no meio da confusão, ou morreriam todos por auto-destruição, ou qualquer um poderia surgir, por efeito mimético, como o opositor de todos e, então, voltavam-se todos contra um só, por ser diferente, coxo, ou de má cara e, por isso, o mesmo era acusado de todos os males, sofrimentos e discórdias. Então todos se uniam e estavam de acordo quanto ao seu castigo, expulsão e morte, à custa do qual todos se reconciliavam porque estavam todos unidos contra ele, acusado e considerado o causador de todo o mal e sofrimento, experimentados pela comunidade. Ele, o bode expiatório, passou a ser a razão da sua unidade e da nova sociabilidade em paz e (relativo) sossego.

Logo que este Governo, deste PS pseudo-socrático
2, tomou posse, começou a aplicar, impiedosamente, a política do bode expiatório até porque, devido à crise, em vez de se diminuir os impostos e dar certas regalias conforme as promessas eleitorais, aplicou-se o sofrimento aos cidadãos comuns com o agravamento das condições de vida, pelo aumento do IVA, pelo desemprego e trabalho precário, pelo desmantelamento de certos centros de atendimento permanente na saúde, etc., o que gerou enorme frustração, mesmo entre aqueles que, votando para um bom governo que providenciasse uma vida melhor, sentiram na pele as dificuldades geradas por aqueles a quem confiaram o seu voto.

Mas logo que o governo tomou posse, dizia eu, começou por dar indícios de que a sua filosofia política a seguir seria a mais primitiva e a mais longínqua, a dos confins da humanidade, a dos tempos mais remotos perdidos nos confins das origens da humanidade - a política do bode expiatório: os juízes deixariam de ter aquela grande benesse de ter férias de meses e, como toda a gente, passariam a ter apenas um mês de férias, como se os tribunais não estivessem a trabalhar praticamente o ano inteiro! A populaça, porque sofre todos os dias os efeitos nefastos da má governação gerada pelo ideário neoliberal (tudo para o lucro, nada ou quase nada para a pessoa que o gera) aplaudiu. Estava confirmada a tese segundo a qual a melhor arte de "bem governar" e convencer ou enganar a população de que está a ser bem governada é indigitar-lhes um inimigo comum: assim, estão todos de acordo, uns com os outros, contra esse inimigo e não contra o governo! Começaram por ser os juízes, depois, os enfermeiros, depois os professores, os médicos, os funcionários públicos, os militares, etc., e, como cada qual pensa sempre, devido à inveja, tão tipicamente nacional e portuguesa, que é muito bem-feita a punição dos outros que não a sua própria – porque os outros "vivem melhor", segundo pensa, que ele – durante tanto tempo e até, pelo que parece, aos dias de hoje, o governo pseudo-socrático manteve o apoio da populaça, ganhando, contra todas as expectativas, as últimas eleições.

Nada tenho contra isso, nem contra a inabilidade dos opositores. Bem pelo contrário: a minha tarefa como filósofo e analista não é essa, mas mostrar como é que as coisas funcionam e como, do desejo de vingança, devido às forças que não julgamos controlar ou poder controlar, nos voltamos e votamos contra nós próprios, julgando punir os verdadeiros causadores da desgraça, ou seja, os outros. E há uma só maneira de o fazer: é apoiar quem castiga o vizinho, que pune os outros de quem tenho inveja. Porém, o divertido da questão, que de piada nada tem, é que todos pensam simetricamente o mesmo uns dos outros. Os professores poderão pensar que a culpa é dos pais ou dos políticos; os pais que a culpa é dos professores, os políticos que é da crise internacional e dos professores; os enfermeiros e médicos, que é dos doentes que aparecem nos centros de saúde e nos hospitais num estado lastimoso e de total desleixo e abandono ou que se queixam por tudo e por nada, etc., etc. E, destas culpas hipotéticas e distribuídas reciprocamente entre os diferentes estratos sociais, o governo sai incólume: a culpa é sempre do vizinho do qual temos inveja e sobre o qual achamos que merece o nosso castigo através do nosso voto, isto é, a culpa é do nosso vizinho médico, professor, enfermeiro, funcionário público, GNR, PSP, militar, etc., etc., e não daqueles que, desde há longas décadas, nos têm (des)governado sucessiva e alternadamente, criando a ilusão de que são a alternativa uns dos outros. Puro engano – ganham sempre os mesmos, em virtude desta coligação negativa das invejas e dos desejos de vingança recíproca que, como se vê, apenas servem as grandes fortunas, os bancos, as multinacionais, etc., e aqueles que, servilmente, estão ao seu serviço, de corpo e alma; e perdem sempre os mesmos, ou seja, perdemos todos nós, as vítimas, vítimas também de nós próprios porque nos deixamos enredar neste jogo de vinganças recíprocas e suicidárias: perdem e têm perdido, sem margem para dúvidas, o pequeno comerciante e industrial, o pequeno trabalhador por conta própria, os professores, os enfermeiros, trabalhadores em geral, os funcionários públicos, os serviços públicos que deveriam estar ao serviço da comunidade (tais como a água, a luz, a educação e a saúde., os caminhos de ferro, etc.) e não ao serviço dos lucros daqueles que, de eleição em eleição, pela razão já exposta, ganham sempre e sempre continuarão a ganhar enquanto as verdadeiras vítimas não se unirem em vez de lutarem umas contra as outras, julgando que a culpa é sempre do vizinho: do professor ou médico, ou enfermeiro, ou funcionário público, ou juiz, ou militar, ou PSP, ou GNR, ou pequeno comerciante ou pequeno industrial. Se todos sofremos, porque nos acusamos reciprocamente?! Assim, qualquer sofista político se ri de nós e mantém a ilusão sobre todos nós de que defende o interesse geral e comum e que os interesses do médico, do juiz, do advogado, do funcionário público, do GNR, do PSP, do militar, do professor, etc., enquanto profissionais que lutam pela sua dignidade, são um interesse "particular e corporativo", como se o geral, para ser geral, não reunisse em si o particular: o Universal, como diz o ilustre colega Jorge Mendonça, para o ser, não pode excluir nada nem ninguém (pois, se o fizesse, seria um particular, entre outros. Não pode excluir os professores, os médicos, os militares, os enfermeiros e os funcionários públicos, etc., etc., porque são gente universal e, como tal, ninguém, mesmo ninguém, deve ser excluído da discussão da coisa pública, da República. E, o que estamos a verificar com este governo (dito) socialista: é a exclusão das pessoas da política, da coisa pública como o ensino e a educação; é a negação da própria Res Pública – que ironicamente atingirá, em Portugal, no muito próximo 2010 a provecta idade centenária; é a negação da dignidade de pessoa humana a todos os cidadãos profissionais dignos sobre os quais se legisla mas dos quais nada se pretende saber ou inquirir ou discutir. É a política do bode expiatório a funcionar no seu maior expoente do máximo requinte maquiavélico: conservar o poder para o oferecer a quem o não deve ter: àqueles que se servem da sociedade em vez de a servir.

Toda a política contra os professores e o autismo do ministério ou do governo só se podem explicar neste quadro desta pseudo-filosofia que é a da perseguição de algum bode expiatório, seja ele quem for: o enfermeiro ou o funcionário público ou o professor, etc., etc.

Esc. Sec. Penafiel, 7 de Outubro de 2009.

Zeferino Lopes

1 Ver René Girard, La violence et le sacré, Grasset, Paris, 1972 e René Girard, Des choses cachées depuis la fondation du monde, Grasset, Paris, 1978.
2 Refiro-me ao Sócrates filósofo e não ao Sócrates político.

Sem comentários:

Desde 01-01-2009


Este blog vale $140.000.00
Quanto vale o seu blog?

eXTReMe Tracker

Estou no blog.com.pt - comunidade de bloggers em língua portuguesa
Twingly BlogRank
PageRank
Directory of Education Blogs

RSSMicro FeedRank Results
Add to Technorati Favorites
Locations of visitors to this page