Uma escola de malandros
Os políticos e os gestores ditos modernos salivam com “rankings” e com indicadores de “performance”. Eles vêem objectividade em tudo o que se exprima em números, ignorando como os números podem proporcionar leituras fortemente subjectivas e distorcidas da realidade. Basta que os resultados a que conduzam sejam ditados por metodologias imbecis. Concluir que a escola que melhores resultados obteve nos exames nacionais é a melhor escola do país é grosseiro. Transformar uma lista seriada de resultados de exames num indicador absoluto da qualidade das escolas é absurdo. Mas proscrever liminarmente qualquer tentativa de seriar instituições, por simples aversão fundamentalista aos “rankings”, tão-pouco me parece avisado. Examinemos-lhes a relevância dos critérios e estaremos a reduzi-los ao que realmente valem, sem descurar atavismos que se lhes colam: dum lado, a “direita”, com a tendência para endeusar o “mercado”, a que os “rankings” são caros; doutro lado a “esquerda”, que privilegia vertentes mais intrínsecas e puras da aprendizagem, a que os “rankings” são dispensáveis e quantas vezes perniciosos. Imaginemos que trocávamos os alunos da escola que melhores resultados obteve nos exames pelos alunos da escola que está na última posição do “ranking”. Continuaria na posição cimeira?
O mercado é altamente competitivo. Mas o ensino é uma actividade eminentemente cooperativa, onde os resultados extravasam os simples indicadores de “performance”. Fiquei boquiaberto quando conheci, recentemente, a prática experimental de três escolas de Paris. Pagam para os alunos irem às aulas! E não pagam pouco, já que as turmas que menos faltas derem podem chegar a receber 10 mil euros. A ideia é introduzir uma forte competição entre turmas, que leve a diminuir o absentismo. O propósito é generalizar ao resto do país se os resultados da mercantilização do dever básico da assiduidade o justificarem. O resultado será uma escola de malandros, se a aberração pegar.
Onde nos conduzirá a neurose dos resultados? É impossível, a este título, que não se reflicta sobre os 24 suicídios de trabalhadores da France Telecom em 19 meses, 5 dos quais em Setembro passado, consequência da perseguição de resultados a qualquer preço, com redução da dignidade humana a coisa bem menos representativa que o menor indicador de “performance”.
2. Em colegas que muito prezo, provocou algum desconforto a referência implícita que fiz na última crónica ao “Compromisso Educação”, designadamente ao cepticismo com que vejo os resultados práticos que dele possam advir. Compreendo, mas compreendam-me, também. O compromisso foi obtido com os partidos da oposição. Não foi obtido com o PS e o PS ganhou as eleições. Em democracias maduras, terminadas eleições que não dêem maioria absoluta, negoceiam-se compromissos que permitam a governação. Aqui, tenho a sensação que já começámos a próxima campanha (para eleições antecipadas, pois claro!) e se pensa mais na estratégia (ou será simples táctica?) partidária que nos problemas do país.
Manuela Ferreira Leite (que perdeu as eleições) diz que não abdica do seu programa e que espera que Sócrates (que ganhou as eleições, com grande consternação minha, mas ganhou) diga de que forma vai alterar o dele, para tornar o país governável. Ou seja: o PS, que ganhou sem maioria absoluta, deve fazer cedências (o que me parece lógico); mas o PSD, que perdeu, não muda nada (o que me parece ilógico). De todas as combinações possíveis para gerar maiorias indispensáveis à aprovação de diplomas só tenho escutado claras recusas de associação. E como se não bastasse, se ilusão ainda havia, as eleições mostraram bem qual é o peso que a Educação joga na política, passados que sejam os apertos e os circunstancialismos. Como não estar céptico perante este quadro, tanto mais que a farsa da avaliação do desempenho se vai consolidando, o concurso para titulares poderá trazer surpresas e o assalto ao poder nas escolas avança a bom ritmo?
O “Compromisso Educação” tinha um peso se o PS perdesse as eleições. Tem outro, no quadro actual. Os professores perderam quando Sócrates ganhou. Diferentes partidos da oposição vão honrar as promessas promovendo iniciativas legislativas. Mas isso não significa a solução dos problemas. O tempo joga a desfavor dos professores. Instalada a nova assembleia, constituído o novo governo e debatido o programa, até final do ano (na melhor e mais pacífica das hipóteses) vai impor-se o orçamento de Estado. Depois, retomo a ideia anterior: a precariedade imposta ao exercício da profissão docente e a sistemática retirada de direitos aos professores não foram meros instrumentos conjunturais. São pilares de uma política que será excluída, liminarmente, do pacote de cedências para consumo parlamentar, ou que será utilizada, como convirá, como instrumento de vitimização do novo Sócrates dialogante.
Santana Castilho
In Público (14-10-2009)
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1 comentário:
Não era este que, caso ganhasse o PSD, constava estar indigitado para ME? O que será que ele sabe e que a nós, simples professores, escapa por completo? O futuro o revelará (ou não...)!
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