quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A FALTA DE CLASSE

Mais um excelente texto do Prof. Santana Castilho, no Público de hoje. Uma excelente escrita, assente na acutilância e pertinência ímpares e moldada numa independência que ultrapassa qualquer servidão ou interesse.

Clicar na imagem para ampliar.In Público (25-11-2009)



A falta de classe

Santana Castilho *

Perdoem hoje o estilo. A prosa sairá desarticulada, quais dardos soltos. Este artigo é, conscientemente, feito de frases curtas. Cada leitor, se quiser, desenvolverá as que escolher. Meu objectivo? Manter a sanidade mental. Escorar a coluna vertebral. Resistir. Este artigo é também uma reconfirmação de alistamento na ala dos que não trocam os princípios de uma luta pelo pragmatismo de um lance. Porque amo a verdade e a dignidade profissional como os recém-chegados ao mundo amam o bater do coração das mães. Porque não esqueço os que nenhum lance poderá já compensar. Porque com a partida prematura deles perderam-se pedaços da Escola que defendo. Porque pensar em todos é a melhor forma de pensar em cada um.
A avaliação do desempenho é algo distinto da classificação do desempenho. A avaliação do desempenho visa melhorar o desempenho. A classificação do desempenho visa seriar os profissionais. Burocratas que morreram aos 30 mas só serão enterrados aos 70 tornaram maior uma coisa menor. Quiseram reduzir realidades díspares à unicidade de fichas imbecis. Tiveram a veleidade Kafkiana de particularizar em 150.000 interpretações individuais os objectivos de uma organização comum a todos. Convenceram a populaça que se mede o intangível da mesma forma que se pesam caras de bacalhau. Chefiou-os uma ministra carrancuda, que teve o mérito de unir a classe. Chefia-os agora uma ministra sorridente, que já se pode orgulhar de dividir a classe. Porque, afinal, custa, mas não há classe. Há jogos! De cintura. De bastidores. De vários interesses. Parlamentares, sindicalistas, carreiristas e pragmatistas ajudaram à Babel. Da sua verve jorra a água morna de Laudicéia, a que dá vómitos.
Alçada derreteu o implacável Mário Nogueira que, em socorro da inexperiência da ministra, veio, magnânime, desculpar-lhe as gafes. E, cristãmente, entendeu agora, de jeito caridoso, que não seja suspenso o primeiro ciclo avaliativo. Esqueceu duas coisas: o que reclamou antes e que ciclos avaliativos são falácias de anterior ministra. Ciclos avaliativos, Simplex I, Simplex II e o último expediente (no caso, um comunicado à imprensa, pasme-se) para dizer às escolas que não prossigam com o que a lei estabelece são curiosos comandos administrativos. Uma lei má, iníqua, de resultados pedagogicamente criminosos, devia ter morrido às mãos do parlamento. Por imperativo da decência, por precaução dos lesados, por imposição das promessas de todos. Quanto à remoção das mágoas, meu caro Mário Nogueira, absolutamente de acordo. Depois de responsabilizar os que magoaram. Depois de perguntar aos magoados se perdoam. Por mim, cuja lei foi sempre estar contra leis injustas, a simples caridade cristã não remove mágoas. Não sei perdoar assim, certamente por falta de céu.
Agora, porque sou amigo de Platão mas mais amigo da verdade, duas linhas para Aguiar Branco. Gostei de o ouvir dizer, a meu lado e a seu convite, que a avaliação do desempenho era para suspender. Mas não justifique a capitulação com a semântica. Poupe-me à semântica, porque a semântica não o salva. Enterra-o. Suspender é interromper algo, temporária ou definitivamente. É proibir algo durante algum tempo ou indefinidamente. Substituir é colocar algo em lugar de. Não só não tinha como não terá seja o que for, em 30 dias, para colocar em lugar de. Sabe disso. Bem diferente, semanticamente. Mas ainda mais importante nos resultados. O Bloco Central reanimou-se nas catacumbas e o PS agradeceu ao PSD o salvar da face. Mas os professores voltaram a afastar-se do PSD, apesar do arrependimento patético de Pedro Duarte. E, assim, o PSD falha a vida!
Um olhar aos despojos. Reverbera-se a falta de capacidade de muitos avaliadores para avaliar, mas homologam-se os “Muito Bom” e “Excelente”, que significam mais 1 ou 2 pontos em concurso. Os direitos mal adquiridos de alguns valeram mais que os direitos bem adquiridos de muitos (como resolverão, a propósito, os direitos adquiridos dos “titulares” que, dizem, vão extinguir?). Porque toca a todos, muitos “titulares” que não tinham vagas de “titulares” em escolas que preferiam, foram ultrapassados em concurso por outros de menor graduação profissional, que agora lá estão, em almejados lugares de quadro. Ao mérito, há muito cilindrado, junta-se uma palhaçada final, em nome do pragmatismo. Muitos dos que foram calcados recordam agora que negociar é ceder. Mas esquecem que os princípios e a dignidade são inegociáveis, sendo isso que está em jogo. Um modelo de avaliação iníquo, tecnicamente execrável e humanamente desprezível, que não lhes foi aplicado ao longo de um processo, é agora aceite, em nome do pragmatismo, para não humilhar, uma vez, quem os humilhou anos seguidos.
Sócrates, que se disse animal feroz, vai despindo a pele. Mas não nos esqueçamos da resposta de um dos sete sábios da Grécia, quando interrogado sobre o mais perigoso dos animais ferozes. Respondeu assim: dos bravos, o tirano. Dos mansos, o adulador.
Vão seguir-se meses de negociações sobre o estatuto. O défice, que levou à divisão da carreira e às quotas, agravou-se. Se a desilusão for do tamanho da ilusão, tranquilizem-se porque a FENPROF ficará de fora, como convém, e a FNE poderá assinar um acordo com o Ministério da Educação, como não seria a primeira vez. Voltaremos então ao princípio. O que é importante continuará à espera. Mas guardaremos boas recordações de duas marchas nunca vistas.

* Professor do ensino superior.

10 comentários:

Fernando Godinho disse...

Mais um excelente texto de opinião de Santana Castilho. O dedo na ferida!

Anónimo disse...

Plenamente de acordo. Esperoestar muito enganado. Cá por casa sofremos tudo isso na pele. Bem gostaria de saber como me vão pagar os 5 anos em que estou no mesmo escalão e como resolver a ultrapassagem, em concurso, a minha mulher, que sendo titular continuou nos arrabaldes, e a vaga que esperava há anos foi ocupada por um não titular menos graduado ...

Anónimo disse...

Plenamente de acordo

Anónimo disse...

Estamos entregues à bicharada. Mas os professores são uma classe difícil, tão difícil e tão miudinhos que nem uma ORDEM querem ter. Abram os olhos e vejam as outras classes profissionais. Quem chega à frente quando há problemas deontológicos? A ORDEM! Cada um tem o que merece...

zeca disse...

Que posso eu dizer desta primeira proposta? Com papas e bolos se enganam os tolos. Esperemos que as entidades representativas de professores não embandeirem só no engodo do fim da divisão da carreira pois os outros aspectos apresentados como propostas são gravosos e permitirão desde logo uma filtragem que começará ainda mais cedo do que no sistema vigente e logo estaremos a contribuir mais uma vez involuntariamente para o combate ao défice que se prespectiva alto e resultante de opções politicas. ASSIM NÃO...OBRIGADO.

Rui Baptista disse...

Ao Anónimo (25 Nov.21:09):

A Ordem dos Professores, há que ter a coragem de chamar os bois pelos nomes, não interessa à Fenprof, que já o disse publicamente, nem ao ministério da Educação. Ambos são fiéis ao princípio de dividir para reinar.

O mal não está tanto neles, mas nos professores que se sentem bem no papel de escravos gregos ao serviço dos senhores de Roma: A Fenprof e o ministério da Educação que enfrenta grupos de professores fragilizados por uma caterva de sindicatos que se uniram numa plataforma sindical quando o sino tocou a rebate. Amanhã, quando o sino deixar de ecoar voltarão às guerras entre eles para defenderem as capelinhas de interesses próprios e dos respectivos associados.Os movimentos Independentes dos Professores, como o MUP, são a garantia de que nada será igual no futuro. Os professores deixaram de ser piões da Nica de guerras que lhes dizem directamente respeito.

Anónimo disse...

O que esta ministra está a preparar é muito pior do que está em vigor...
Até aqui impediam os professores de progredir de professor para professor titular (do 6º para o 1º de titular) agora querem impedir a transição do 2º para o 3º.
Ainda agora chegou ao ministério e já aprendeu a roubar os professores...
O que interessa a Sócrates não é ter excelentes professores, mas roubá-los..

Anónimo disse...

Alguém que escreveu o que deve ser escrito e dito. Bravo!

Anónimo disse...

Concordo plenamente.

celeste caleiro disse...

O importante mesmo é continuarmos atentos e activos, agitar os que andam adormecidos e embalados com tanto sorriso...manter o espírito de contestação.Como se previa e se calhar terá que ser sempre assim a nossa luta é constante. Nada de baixar os braços!Vamos a animar!E os sindicatos precisam de sentir isso nos professotes, os sindicatos são aquilo que nós quisermos, deixarmos, que sejam.

Desde 01-01-2009


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