sábado, 14 de novembro de 2009

I HAVE A DREAM

Hoje sonhei com a escola da "minha" aldeia, uma daquelas dos anos 50, imponente e toda branquinha. Sonhei quer a "minha" escola tinha reabeto: grupos de crianças chilreando alegremente brincavam no pátio à sombra das duas frondosas tílias. A vigiar os petizes, a dona Lúcia, a empregada. À porta, duas mestras (antigamente dizia-se assim), de bata branca, em amena cavaqueira abafada pelo murmurejar do ribeirito à saída da fonte. O ar puro do pinhal filtrava um sol ameno e no céu primaveril esvoaçavam, diletantes, as primeiras andorinhas.

De repente, esta visão - digna daquelas brochuras das testemunhas de jeová (não sei se conhecem) em que humanos, leões e gazelas de cores esfumadas convivem em verdes e celestiais prados - esta visão, dizia, estilhaçou-se. Tinha acordado e despertava gradualmente para a realidade, em tudo contrária ao do sonho. De facto, a escola da "minha aldeia" foi uma das milhares ceifadas desumanamente pelo Engenheiro e Lurdes Rodrigues nestes quatro longos e negregados anos. A aldeia, mais uma que, assim golpeada, recuou no tempo histórico a padrões de vida já só na memória das gerações idosas.

Pela minha parte, não tenho dúvidas: o encerramento criminoso de milhares de escolas primárias, por todo o castigado interior do país (assim recuado para os tempos da "Manhã Submersa", de Vergílio Ferreira), às vezes seguido do saque e posterior venda dos terrenos e edifícios esbulhados - em tantos casos, às populações que os tinham construído sem apoios estatais, somente com o suor do seus humildes rostos - bem mereciam que esta gente, esta canalha política, fosse levada à barra da justiça e condenada a pena efectiva.

Mas estamos em Portugal: este autêntico crime contra o país, a educação, as populações do interior e as crianças, inédito em mais de seis décadas com governos e regimes bem diferentes, será mais um dos que ficará sem castigo. Leva já o selo de "irreversível". Até porque, neste país, "o povo é sereno" (e um pouco amnésico também), a oposição de opereta e a culpa costuma morrer solteira. E os políticos, tais como babuínos, acabam senpre a pular, alegres e impunes, de um para outro melhor galho.

Bem sei que não sou do 1º CEB, ninguém me encomendou o sermão, mas mais logo, na mesa do plenário (http://www.spgl.pt/artigo.aspx), só se o tempo não deixar é que não me referirei a este sonho como rodapé da minha intervenção. E também como homenagem à "minha aldeia".

Paulo Ambrósio.

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Querido Paulo,

Fiquei emocionado pelo teu sonho. Espero que ele possa ser realidade, um dia...não na forma, mas no conteúdo. Aldeias onde haja uma vida própria, aldeias capazes de se auto-gerir, que utilizam a escola como um dos pólos de convívio, cultura, decisão democrática colectiva. Esse, o papel da escola-cultura/escola do povo.

Nada que ver com os «sonhos» estreitos e tecnocráticos dos governos e dos partidos que os apoiam. Infelizmente nada que ver, também, com as visões dos partidos que se dizem de oposição e mesmo «anti-capitalistas». Estes, para comporem a «imagem de marca»... contentam-se em picar ponto... e só (!) na assembleia (nas ruas, só se for para fazer uma espécie de desfiles-cortejos-passeatas... e chamam a isso «luta») .

Quanto a sindicatos, é melhor nem falar! Tendo «reentrado» no SPGL, tenho tido muitas surpresas desagradáveis, ou seja, vejo que as coisas ainda estão piores do que eu imaginei, no momento em que retomei o meu cartão sindical.

Burocratas não são nossa «classe», não são nossos «amigos», são parasitas.... quer estejam no governo, nos partidos de oposição ou nas direcções sindicais.

Recordemos o lema da 1ª internacional (erroneamente atribuído a Marx, pois é de todo o proletariado!) «a emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios!». Nunca tal frase me soou mais verdadeira, mais percutente, mais acutilante. Mas os hipócritas não têm vergonha! São capazes de dizer (sem corar) que também a «a fazem sua» e praticam exactamente o contrário.

Abraço,
Manuel Baptista

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