terça-feira, 24 de novembro de 2009

O FUTURO DA EDUCAÇÃO NUMA EDUCAÇÃO SEM FUTURO

“Isto de todos serem iguais é uma trafulhice” (Medina Carreira, Revista do “Expresso”, 24/10/2009)

Prezado Dr. João Viegas:

A minha gratidão pelo seu comentário que muito me sensibilizou por, na sua qualidade de advogado, como escreveu, “fazer da polémica profissão”, e por dedicar a benevolência da sua atenção a um simples amador - aquele que ama - de uma arte com tradição na vida cultural portuguesa. Não o reconhecer seria uma falsa modéstia que, não poucas vezes, serve para esconder o sentimento da vaidade.

Desde sempre me habituei a ver nos profissionais do Direito e das chamadas Letras cultores de um Português exemplar. Seria, todavia, cometer injustiça se não acrescentasse a este rol os profissionais da Medicina que, ao longo dos tempos, deram às Belas-Letras um contributo muito valioso como, v.g., Júlio Diniz, Fernando Namora, Miguel Torga e António Lobo Antunes. Razão assistiu ao professor de Medicina Abel Salazar quando escreveu (cito de memória) que “um médico que só sabe de Medicina nem isso sabe”. Ele fê-lo com a autoridade de uma rica personagem multifacetada no âmbito da Cultura.

Anos atrás, preocupado com a forma como alguns dos meus alunos universitários redigiam e interpretavam textos, dei conta das minhas angústias a um professor de Direito, que me disse passar-se o mesmo com uns tantos dos seus alunos. Embora este exemplo me desse uma certa consolação, muito me entristeceu por ser uma prova (mais uma!) do estado lastimoso como chegam aos claustros universitários os alunos, depois de um percurso académico de 12 anos, tantos são os que vão do início 1.º ciclo do ensino básico até ao final do secundário; e isto para já não falar daqueles que viriam a chegar à Universidade, poucos anos depois, através das “Novas Oportunidades” (que eu, em tempos, baptizei de "Novos Oportunismos") e do “Exame de Acesso ao Ensino Superior para Maiores de 23 anos”. Desta inominável forma, a simples apresentação do Bilhete de Identidade passou a sobrepor-se a toda e qualquer forma de avaliação de competências (o extinto “Exame Ad Hoc” ainda dava alguma garantia de o autodidactismo dos respectivos candidatos não ser uma forma de ignorância por conta própria).

Um certo pudor, mas a que a verdade se sobrepõe, poder-me-ia levar a não referenciar o plano inclinado, num declive quase a pique, de uma determinada formação de professores, em que a excepção para mais não serve do que para justificar a regra. Apenas um exemplo. Antes do chamado “Processo de Bolonha”, para a docência da disciplina de Matemática - e todos nós temos consciência do estado lastimoso a que chegou a sua (des)aprendizagem - do 2.º ciclo do ensino básico, tanto era exigida uma licenciatura universitária como uma licenciatura das Escolas Superiores de Educação. Acrescia que a licenciatura universitária habilitava, tão-só e exclusivamente, para o ensino da Matemática, enquanto a licenciatura das Escolas Superiores de Educação dava acesso, em simultâneo, ao ensino da Matemática e das Ciências da Natureza.

Mas esta aberração - para utilizar um eufemismo de escândalo - não se fica por aqui. Em simples demonstração, vejamos: um aluno saído das Escolas Superiores de Educação (cujo ingresso foi feito com classificação mais baixa, a frequência com menos anos de estudo e o diploma com classificação mais alta) com 13 valores quando em concurso, para a docência do 2.º ciclo do ensino básico, com um licenciado em Matemática com um simples valor a menos (12 valores), passava-lhe à frente.

É natural a interrogação: mas como foi isto possível? Isto foi possível por um sindicalismo docente que, ao serviço dos interesses dos seus dirigentes e da sua clientela, fez com que o Ministério da Educação andasse a reboque de reivindicações que arrastaram atrás de si uma série de medidas que conduziram ao actual “statu quo”, que tão mal visto nos deixa vistos no “Programme for International Studend Assessment" (PISA)”, lançado em 1997, para comparar, a nível internacional, os resultados dos diversos sistemas educativos medindo o desempenho de jovens com a idade de 15 anos na literacia em leitura, Matemática e Ciências.

Durante alguns anos do tempo em que Ana Benavente foi secretária de Estado da Educação, Portugal não participou no PISA, em coerência com a pedagogia então reinante, denunciada num notável livro de Nuno Crato em que não avaliar em exames nacionais, quanto mais em provas internacionais, era a senha de um ensino de sucesso manipulado com estatísticas que, segundo Medina Carreira, “fazem do Estado um mentiroso compulsivo”. A prova da miséria do ensino da Matemática, por exemplo, está bem expressa nos resultados de 2006, em que Portugal ficou em 25.º lugar entre os 29 países concorrentes.

Foi aventado no seu comentário “a vantagem de uma lei ibérica que obrigasse os cidadãos a lerem o Dom Quixote pelo menos uma vez todos os cinco anos”. Trata-se de uma utopia que se arrisca a afundar-se nas areias movediças do nosso sistema escolar, no qual os programas de Literatura Portuguesa, em nome de um país que vivia agarrado ao ecrã televisivo para ver o “Big-Brother”, passaram a integrar textos a ele alusivos.

Vieira, Camilo, Eça, Ramalho, Torga, qual quê! E mesmo quando estes autores, porventura, eram dados houve quem o fizesse através de curtas sinopses das suas obras, deixando a tarefa de transmitir os clássicos para filmes de êxito de bilheteira, como o “Crime do Padre Amaro”, em que uma simples imagem desnuda de Soraia Chaves passou a valer mais do que as páginas literárias de uma atormentada Amélia, figura central do drama passional.

Já vai longo este lençol de desgraças de um país que mereceu o desalento pessoano: “Não tenho culpa de ter nascido em Portugal, e exijo um país que me mereça”. Jovens portugueses há que, a exemplo, não têm culpa de terem nascido em Portugal e, por isso mesmo, devem exigir um sistema educativo que mereça os melhores cérebros saídos das nossas universidades, que se vêem, muitas vezes, na necessidade de sair das fronteiras lusas, abandonando uma terra onde o mérito tem sido substituído pelas cunhas para os melhores empregos.

Quanto eu prezaria terminar com uma mensagem de esperança, mas isso seria trair a minha própria consciência. Os órgãos tutelares da Educação que o façam. Ou melhor, que o continuem a fazer, sem rebuço, em prejuízo de um país na cauda europeia, em parte, por culpa de um ensino que, nem sequer, ensina a fazer as simples contas da antiga 4.ª classe da escola primária!

Rui Baptista

3 comentários:

Vieira disse...

A injustiça existe em mais grupos de docência. Por exemplo ma educação musical, professores que passaram oito e mais anos de estudo e aproveitamento nos conservatórios são ultrapassasos por quem tirou uma licenciatura nas Escolas superiores de Educação, quando muitos deles pouco ou quase nada sabem de música em comparação a quem andou anos no consevatório. Isto é só compadrios e favores. É só injustiças do bando de palhaços que nos têm desgovernado depois do 25 de Abril.

Anónimo disse...

Para também lembrar quem fez "verdadeiros" bacharelatos em Românicas, Germânicas e Clássicas e mais tarde a profissionalização e verem-se ultrapassados por licenciaturas das ESES (4 anos). Enquanto os outros continuam a ser detentores de Bacharelatos embora tenham 5 anos de trabalho "duro" os da ESE são LICENCIADOS... Que injustiça!!!!

Rui Bapptista disse...

A resposta ao dois comentários acima pode ser encontrada nestas duas opiniões:

1. "As carreiras são ente nós matéria importante, visto estarmos num país de carreiristas no qual todos buscam uma calha que lhes permita deslizar sem atritos" -João Lobo Antunes, "Um Modo de Ser", 1996.

2. "Para tudo isto os sindicatos têm dado uma eficaz mãozinha, não raro intervindo, com desenvoltura, em áreas que não são, nem da sua vocação nem da sua competência" - Eugénio Lisboa, "JL", n.º 964, de 12 a 25 de Setembro de 2007.

Ponto final, parágrafo...

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