sábado, 23 de janeiro de 2010

FACTOS E CONFUSÕES

Por Inês Pedrosa

Agora os alunos, por favor

O Ministério da Educação pode finalmente dedicar-se ao ensino.

Terminou a saga sobre a vida dos professores, muito mais morosa e menos interessante do que os sete volumes de "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust. Esperamos que tenha terminado mesmo, apesar das ameaças não tão veladas do secretário-geral da FENPROF à saída da árdua maratona negocial. A ministra da Educação sublinha que "o país estará sempre à frente do interesse de uma classe". Era urgente passar da discussão das carreiras dos professores para o trabalho nas escolas; Isabel Alçada entendeu-o e agiu, depressa e bem, em circunstâncias e com interlocutores muito adversos. E conseguiu o essencial: que os professores se sentissem estimulados, sem deixar cair a ideia de avaliação e recompensa do mérito, à qual os sindicatos opunham - e opõem - uma resistência muito pouco pedagógica. Os professores têm agora a garantia de que a excelência será efectivamente recompensada. Os restantes funcionários públicos, que não só não têm acesso garantido ao topo da carreira como estão sujeitos a um sistema de quotas muito estreito, onde os "excelentes" e os "muito bons" são escassíssimos, mesmo que o seu trabalho o mereça (e merece-o numa proporção muito maior do que a má-língua diz), têm muito que meditar sobre métodos de combate, prioridades e objectivos. Mas o Ministério da Educação pode finalmente dedicar-se àquilo que lhe dá nome. A Educação, pois é. Até que enfim.

Isabel Alçada já anunciou que está a trabalhar na revisão e ajustamento dos currículos, o que é de muito bom augúrio. O número de disciplinas leccionadas nos segundo e terceiro ciclos do ensino básico é inversamente proporcional ao sucesso escolar dos alunos, o que deve fazer-nos reflectir. A intenção de reduzir a variedade de matérias do terceiro ciclo é de louvar, mas é urgente olhar também para o segundo ciclo. A existência de uma disciplina chamada Área de Projecto é algo que escapa ao meu entendimento: não deveriam todas as "áreas" - História, Matemática, Português, Inglês, Ciências, Educação Visual, Educação Física, etc. - ter um projecto? A aprendizagem de métodos de trabalho e de elaboração de projectos não é a base de qualquer matéria que se queira ensinar? O excesso de disciplinas não-curriculares prejudica o rendimento dos alunos nas disciplinas curriculares. É talvez tempo de, também para os alunos, se reivindicar uma carreira única: o que é um currículo que inclui matérias não-curriculares? O melhor projecto que se pode dar a uma criança ou adolescente é o hábito de pensar, interrogar a realidade. Parece-me evidente que a aprendizagem das Línguas, da Literatura, da Matemática, da História ou das Ciências ditas exactas beneficiaria muito do ensino da Filosofia, esse saber fundador e central que tem sido arredado para área de especialização. A verdadeira Educação para a Cidadania começa, ou devia começar, pelo ensino da Filosofia. Tão cedo quanto possível, porque pensar e fazer perguntas é uma actividade a que, em geral, as crianças dedicam mais e melhor tempo do que os adultos.

A ministra falou da necessidade de assegurar a segurança nas escolas. O avanço que, a esse nível, se conseguiu nos últimos anos no primeiro ciclo do ensino básico é notável; mas uma criança de 9 ou 10 anos passa de uma relação de ensino personalizada num professor e de uma escola pequena, onde os seus tempos estão todos preenchidos e o espaço é familiar, para uma escola imensa, com uma dezena de matérias e professores distintos, com horários cheios de "furos" e sem nenhum controlo. O modo de funcionamento do segundo ciclo do ensino básico necessita de ser repensado; esse período difícil e escorregadio em que já não se é exactamente criança mas também ainda não se é adolescente é particularmente crítico para o desenvolvimento futuro da personalidade e das competências de cada um. Nunca percebi porque se acabou com o conceito, útil e eficaz, de "ciclo preparatório". Imagino que devia ser caro ter escolas destinadas apenas a dois anos de ensino. Mas funcionava.

Isabel Alçada avançou já duas outras medidas importantes: o ensino da música e o reforço do ensino profissionalizante. Está provado que a música desenvolve capacidades de concentração, plasticidade mental, ritmo e harmonia que potenciam muito as outras aprendizagens - a começar pelo Português e pela Matemática. E é indispensável que o ensino técnico seja valorizado, ampliando a empregabilidade dos jovens e a eficiência do país.

A educação começa pelo trabalho e pelo bom senso, duas coisas que andavam há demasiado tempo esquecidas.

In Expresso.

6 comentários:

Anónimo disse...

Neste país toda a gente sabe de tudo. Deve ser por se terem habituado a escrever para gente pouco esclarescida,...

Ó mulher informa-te, informa-te,...faz pesquisa antes de escrever sobre assuntos que não percebes peva!!!

"Atão" área de Projecto não é curricular?!!

"Ai Jasus!"

celeste caleiro disse...

A saga dos professores ainda não acabou!

Anónimo disse...

Atenção, Sr.Professor(a): "esclarescida" ou "esclarecida"?
Já agora, e em relação à famigerada "Área de Projecto", estou inteiramente de acordo que seja banida do ensino e que se aposte na interdisciplinaridade. Inicialmente, a referida Área funcionava centrada na pessoa do Director de Turma. Posteriormente, ganhou o estatuto de disciplina o que, em meu entender, está errado.

Carlos JC S.

Manuel Pereira da Silva disse...

Para nos animar um pouco!!!
Mario Vargas Llosa refere na edição de hoje do jornal “EL PAÍS” a propósito das eleições Presidenciais no Chile que deram a vitória ao candidato da direita, Sebastian Piñera, que num encontro que teve com este, três dias antes do acto eleitoral, lhe perguntou qual queria que fosse a sua melhor contribuição no governo se ganhasse as eleições. “Dar um impulso decisivo ao nosso plano de oito anos, para crescer a um prometido 6% anual, algo perfeitamente realizável. Se o conseguirmos, o PIB, que é agora de 14.000 dólares terá um aumento para 24.000. Alcançamos Portugal”, Chile deixará então o subdesenvolvimento e será o primeiro país da América Latina a integrar o primeiro mundo.

Tendo o nosso governo copiado o modelo Chileno de Avaliação de Professores, eis senão quando que passamos a ser o modelo a seguir.
Um abraço,
Pedro Nunes

Anónimo disse...

Para que os professores chegassem ao topo, o que se ganhava pelo caminho não era muito. Na parte final da carreira é que surgia um ordenado mais animador. Era uma compensação pelos outros anos mal pagos.No entanto, os valores do topo continuam a ser singelos se os compararmos com os verdadeiros topos.
Certamente que Inês Pedrosa não gostaria de chegar ao fim da sua carreira a ganhar este nosso topo: Seja honesta, informe-se e depois fale!
Além disso, é pena ficar tão cansada destas nossas lutas. É só porque não as quer compreender.
Qualquer dia pode não haver professores disponíveis e isso será um problema nacional, ou não? É claro que as elites podem sempre mandar estudar os filhos para outras paragens.

Anónimo disse...

Esclarecida colega, "ca burra!!!"

Desde 01-01-2009


Este blog vale $140.000.00
Quanto vale o seu blog?

eXTReMe Tracker

Estou no blog.com.pt - comunidade de bloggers em língua portuguesa
Twingly BlogRank
PageRank
Directory of Education Blogs

RSSMicro FeedRank Results
Add to Technorati Favorites
Locations of visitors to this page