domingo, 17 de janeiro de 2010

O PROTESTO E A DISSIDÊNCIA

Por Baptista-Bastos
b.bastos@netcabo.pt

Maria de Lurdes Rodrigues foi, durante quatro anos, o rosto de uma guerra suja, aparentemente de dúbio significado, quando se tem em conta os recentes resultados obtidos por Isabel Alçada. Refiro-me, está bem de ver, ao conflito, sem precedentes...

Maria de Lurdes Rodrigues foi, durante quatro anos, o rosto de uma guerra suja, aparentemente de dúbio significado, quando se tem em conta os recentes resultados obtidos por Isabel Alçada. Refiro-me, está bem de ver, ao conflito, sem precedentes, que a ex-ministra da Educação manteve, implacável e obstinada, com os professores. Maria de Lurdes Rodrigues foi o rosto de uma política ordenada e desencadeada por José Sócrates. Num Governo, qualquer que ele seja, não há decisões unilaterais: obedecem a um todo e assentam, fundamentalmente, na doutrina do primeiro-ministro. Maria de Lurdes Rodrigues foi enxovalhada, alvo de medonhas chacotas, objecto das críticas mais violentas, e aguentou, firme e inabalável, assumindo, pessoalmente, uma responsabilidade que lhe não pertencia em sistema de exclusividade.

As idas da senhora ao Parlamento chegaram a ser pungentes. Não sabia o que dizer, e o que dizia não convencia ninguém. Apenas um pormenor permanecia: ela não arredava um milímetro das resoluções tomadas, por mais absurdas e tresmalhadas que fossem. Impávido e sereno, José Sócrates parecia talhado em pedra. De vez em quando, Augusto Santos Silva ia em socorro da senhora, sussurrando umas frases solidárias, quando as intervenções da oposição atingiam as raias da impiedade.

Quatro anos, quatro longos e dolorosos anos durou esta guerra sem sentido. Quando o tormento passou, Maria de Lurdes Rodrigues confessou-se extenuada, mas que descansaria durante um ano sabático. Bom. Soube-se, agora, que, em breve, vai sentar-se no gabinete de presidente da FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento), substituindo Rui Machete, que considerou a escolha de Sócrates muito acertada. Dias antes, na RTP, Marcelo Rebelo de Sousa, ironicamente cauto, declarou ignorar os méritos da ex-ministra relativamente às questões atlânticas.

Devo dizer, à puridade, que não me espanta ou indigna a nomeação. No entanto, a celeridade do acto não deixa de causar engulhos. Mas o poder é assim que procede a quem obedece sem recalcitrar. O número de fundações, instituições semipúblicas ou públicas, bancos, associações de reflexão, que, ao longo dos anos, têm dado guarida, acaso com chorudos vencimentos e trabalhos que não tuberculizam ninguém, ao pessoal sem emprego momentâneo, mas que serviu o chefe (qualquer que ele seja) com devoção e zelo.

Há outras "aberturas", bem entendido. Uma das quais, certamente a mais apetecida, ser deputado no Parlamento Europeu. O forte cheiro a suor que evola dos sovacos daqueles senhores fornece-nos a medida exacta das suas fadigas. Se passearmos, displicentemente, os olhos pela lista de "políticos" promovidos, nos últimos anos, a serviçais da pátria, por desinteressados serviços prestados ao povo - chegamo-nos a comover, com tamanha abnegação e tal espírito de sacrifício.

Quando chego a este ponto, recordo a espantosa declaração feita por um estipendiado do PS que, em entrevista célebre, confessou: "Estou muito cansado da política; mas disponível para me deslocar para a Europa." Obviamente, deslocou-se. Claro que há mais, sobretudo de gente procedente dos dois partidos "do arco do poder." São pagamentos de favores, retribuição de obediências, soldadas aos que não se insurgiram. Não há volta a dar. O pior de isto tudo é que isto tudo é considerado normal.

Certo jornalismo, tão propenso ao varejo de insignificâncias e às manigâncias dos ajustes de contas, talvez devesse seguir a "carreira" de muita gente e revelar o que de apreciável ela fez para merecer o fruto e o usufruto da situação de que beneficia. Não se trata de moralização de costumes. Não há ninguém imaculado, e os moralistas irritam-me por sacripantas. Trata-se, sobretudo, de assear a democracia, de limpar os ideais republicanos, sobre os quais têm tripudiado aqueles que passam impunes a todas as malfeitorias.

Há dias, Mário Soares incitou-nos a combater o "derrotismo" que se apoderou dos nossos espíritos. O nosso "derrotismo" generalizou-se quando nos apercebemos de que quem pagava as favas eram sempre os mesmos. E que não há dinheiro para nada a não ser para salvar bancos. As iniquidades são ultrajantes. As injustiças, imperdoáveis. O "derrotismo" português resulta das derrotas constantes, dos vexames insuportáveis, das humilhações inomináveis a que somos submetidos por uma classe dirigente desprovida de sentido de honra e calafetada no interior dos seus interesses.

O poder está lá para premiar quem é dócil, para promover quem é submisso. O "derrotismo" nasce das desproporções. E viceja quando morreram os motivos das grandes exaltações cívicas. Isto é de mais. Que fazer? Manifestar o nosso direito à indignação, seguindo a frase famosa do próprio Mário Soares. Copiar os professores. Duzentos mil a gritarem "não" deixa de ser um protesto para constituir uma dissidência.

In Jornal de Negócios.

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