sábado, 6 de fevereiro de 2010

AINDA O BOM E O MAU PROFESSOR

“A insatisfação é o primeiro passo para o progresso de um homem ou de uma nação” (Oscar Wilde, 1854-1900).

Embora possa transparecer, porventura, não estarmos em plena sintonia de opinião, do comentário de Fartinho da Silva ao meu último post, A distinção entre o bom e o mau professor, julgo poder deduzir que acabamos por comungar de um mesmo objectivo: a defesa da qualidade do sistema público de ensino.

Embora os sindicatos espalhem aos sete ventos a sua preocupação pelo mau estado do ensino estatal, por outro lado, apadrinham medidas que prejudicam os professores com maiores habilitações. Inclusivamente, o próprio Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL), cujo historial oficial diz ter nascido "para defender os interesses específicos dos licenciados por universidades", fez tábua rasa deste destino ao integrar-se na chamada "Plataforma Sindical", uma espécie de sindicalismo bafiento relativamente a tempos actuais. Para não "abafar a voz da minha consciência", como disse Gandhi, demiti-me pouco tempo depois do cargo de presidente da respectiva Assembleia Geral que ocupava desde a sua criação.

Aliás, pelo desrespeito, por parte da tutela pelos doutoramentos científicos, Fartinho da Silva lança-me a pergunta: “Caro Rui Baptista, como se pode acreditar nas intenções de quem manda neste país se no momento em que um docente de física consegue, com grande esforço, obter o seu doutoramento em física quântica depende de uma comissão de sábios (constituída por especialistas nas ‘ciências’ da educação) para que o seu doutoramento seja considerado para efeitos de progressão na carreira, enquanto que um docente do 1,º ciclo do ensino básico se obtiver o doutoramento em ciências da educação obtém a progressão de forma automática?” Sem querer beliscar a idoneidade das pessoas em causa, unicamente, pelo facto de “o coração ter razões que a razão desconhece” (Pascal), não se esqueça, caro Fartinho da Silva, que o “lobby” das escolas superiores de educação, já de si muito forte com a presidência da Conselho Nacional da Educação a cargo de Ana Maria Bettencourt, professora de uma escola superior de educação, saiu muito reforçado com a nomeação de Isabel Alçada, professora de outra escola congénere, para a pasta do actual Ministério da Educação.

Diz-nos o provérbio popular que “quem cala consente”. Quiçá por isso, eu nunca ouvi uma voz dissonante vinda da banda sindical que manifestasse uma simples palavra de desagrado para com complementos de habilitação de duvidosa qualidade e que em nada beneficiaram a docência, mas apenas os seus usufrutuários para efeitos de progressão na carreira docente no alcance do 10.º escalão e para, muitos deles, se reformarem, até há bem pouco tempo, aos 52 anos de idade, ainda que de posse plena de todas as suas capacidades intelectuais e físicas.

Depois desta introdução, que corre o risco de ser entendida como politicamente pouco correcta num país de uma falsa solidariedade entre oficiais do mesmo ofício, e que conheceu dias de paz podre antes do agravo da nomeação dos professores titulares sem ter em conta o seu verdadeiro valor científico e pedagógico, apenas funções de natureza burocrática, seja-me permitido transcrever do seu comentário este excerto que tenho de grande importância: “Toda a gente que contrata pessoas para as suas empresas sabe isto muito bem. Toda a gente, excepto quem manda verdadeiramente no nosso sistema de ‘ensino’ público”. Ou seja, toda a gente que contrata pessoas para as suas empresas tenta fazê-lo numa selecção rigorosa de candidatos.

Ora nada disto é seguido nos concursos para professores, dando azo a que um mau professor só possa levar a um ensino de má qualidade, Como escreveu Nuno Crato: “É indesculpável que um professor - qualquer professor! - não saiba escrever, cometa erros de ortografia graves, tenha limitações sérias no vocabulário, não faça ideia do que é a lei da queda dos graves, não saiba somar fracções ou confesse ‘horror à matemática’”.

Na segunda metade do século XIX comungava já de idêntico desalento Oliveira Martins: “O grande defeito do ensino oficial português está em que os compêndios são maus, os professores piores, e os programas trasladados das escolas europeias seriam excelentes, por vezes, se não fossem puras hipóteses burocráticas”. Como corolário de tudo isto, os alunos com poder económico procuram, com razões de sobejo, um ensino de qualidade em renomados colégios privados (que também os há de má qualidade!), em prejuízo de um ensino oficial que há bem poucos anos era procurado pelos pais para os seus filhos, quer por aqueles de elevado poder económico quer de medianos ou parcos cabedais. Haja em vista, o caso de individualidades em destaque na vida cultural, científica e política saídos, por exemplo, do Liceu Pedro Nunes em Lisboa.

Quando ao facto da não avaliação dos alunos (por mim, muitas vezes, criticada), um mal, não deve justificar outro mal: a não avaliação dos professores. Como sabemos ambos, o mal da não avaliação dos alunos no final de cada ciclo de estudos do ensino básico não impede, de forma alguma, que os professores do ensino privado sejam avaliados. Porque abrir, então, excepção para a avaliação dos docentes do ensino público?

Como tenho escrito vezes sem conta, deparamo-nos com o verdadeiro escândalo de um professor da disciplina de Matemática, por exemplo, licenciado por uma universidade pública ser preterido no acesso à docência do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico por um outro saído das escolas do “eduquês” para ministrar não só essa disciplina como Ciências da Natureza. Isto pelo simples facto deste apresentar no seu diploma um valor a mais do que aquele. Mas sempre que há vontade estatal em pôr cobro a tamanha injustiça, através de provas de acesso à carreira docente, logo acorre pressurosa a guarda pretoriana sindical em ruidosa manifestação de rua em protesto contra esta medida. Medida que encontra respaldo na tese defendida pelo conceituado sociólogo francês Pierre Bordieu (1986): “Só uma política inspirada pela preocupação de atrair e de promover os melhores, esses homens e mulheres de qualidade que todos os sistemas de educação sempre celebraram, poderá fazer do ofício de educar a juventude o que ela deveria ser: o 1.º de todos os ofícios”.

Em palavras suas “temos uma ‘escola’ sem uma missão bem definida.” Discordo em parte! Ainda que para Karl Popper, a autêntica aspiração da democracia deva ser a elevação do nível da educação, em Portugal há a “missão bem definida” de elevar, “sem trelho nem trambelho”, o número de semi-analfabetos, alimentando, desta forma, o ego dos responsáveis pelo sistema educativo em apresentar um número crescente de diplomados para fins estatísticos aquém e além-fronteiras.

Finalmente, para me não alongar ainda mais nesta controversa matéria, que muito se assemelha a um poço sem fundo, pedia-lhe apenas que não interpretasse este post desinserido de outros aqui publicados por mim e em que tenho debatido estas e outras questões, algumas delas levantadas por si em outros comentários com muita oportunidade e, porventura, alguma discordância, mas que não impede que comungue do seu desejo final de um ensino oficial, como escreve, em palavras de esperança, que “ofereça um futuro melhor aos nossos filhos”.

Rui Batptista, in De Rerum Natura.

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