“Os bons acabam felizes, os maus infelizes. Isso é o que se chama ficção” (Oscar Wilde, 1854-1900).
O derradeiro comentário (15.º) de um anónimo ao meu post “Estatuto da Carreira Docente: remendos novos em pano velho” levantou o velho problema da distinção entre o bom e o mau professor.
“Por acreditar naqueles que procuram a verdade e desconfiar daqueles que a encontram”, como escreveu André Gide, limitei-me a dar uma resposta condicionada pelo espaço de um simples comentário, e que passo a transcrever: “Quanto à maneira de proceder à avaliação dos docentes, eu excluo à partida que seja feita, exclusivamente, pelos próprios pares que hoje são avaliadores e amanhã poderão vir a ser avaliados por aqueles que avaliaram criando entre eles uma cumplicidade que não garante a necessária isenção. Portanto, apenas uma pequena e muito modesta achega: o professor medíocre é aquele que falta por sistema, que não mantém a disciplina na sala de aula, cuja aprendizagem dos alunos não sofre evolução favorável, cujos conhecimentos científico, pedagógico e de cultura geral são deficientes, que se relaciona mal com os colegas e restante pessoal da escola, etc”.
Mais uma vez, o 15.º comentário, citado no início deste meu post, veio demonstrar que a resposta à pergunta “o que é um bom professor?” não se esgota em soluções fáceis pelo facto de estarmos a lidar com pessoas (docentes e discentes) e respectivas idiossincrasias no complexo fenómeno da educação e da instrução. Embora o ideal seja o entrosamento entre ambas, aqui corremos o risco de entrar num outro labirinto de difícil saída que é o de estabelecer fronteiras bem delimitadas entre uma coisa e outra, porque se pode inclusivamente educar sem instruir e vice-versa. A propósito de teorias sobre educação, ocorre-me citar um pedagogo que dizia com uma certa desilusão: “Dantes tinha seis teorias sobre educação e nenhum filho, hoje tenho seis filhos e nenhuma teoria!” Ou seja, nem sempre a teoria anda de braço dado com a prática e vice-versa.
No ponto 1 do 15.º comentário, referido logo no início deste post, é evocado o conceito de benchmarking, ou seja a busca na indústria de um melhor rendimento inspirado em situações similares bem sucedidas. Mas, neste caso específico, não estamos em presença da complexidade inerente à avaliação dos docentes. Mas isto não significa, de forma alguma, que desistamos de encontrar um processo capaz de distinguir o bom do mau professor para evitar a injustiça de os igualar porque, como escreveu Camilo, “o despotismo da igualdade é o mais insuportável e o mais feroz dos despotismo, porque tem a sua origem na vontade dos impotentes, dos estúpidos, dos insignificantes”.
No ponto 2 são referidos vários condicionalismos que interferem na indisciplina do aluno (e aqui estamos ambos do mesmo lado da barricada no que se refere à vergonhosa permissividade do actual estatuto do aluno) e na sua boa ou deficiente aprendizagem e apresentados um rol de situações sócio-económicas que influenciam o êxito ou fracasso do processo educativo com responsabilidades repartidas entre quem ensina e quem aprende. Dando de barato a validade desses condicionalismos, somente, um reparo: como se compreende que um mesmo aluno numa mesma turma tenha comportamento cognitivo e afectivo bem diferenciado relativamente aos professores a e b? Não dependerá parte substancial destes comportamentos na acção desenvolvida por ambos os docentes em circunstâncias idênticas?
No ponto 3 é dito não serem as faltas e o mau relacionamento entre as personagens intervenientes no processo educativo problemas das escolas nem dos professores. Eu atrevo-me a pensar de forma diferente: as faltas dos alunos e dos professores reflectem-se forçosamente nas aprendizagens. O mau relacionamento entre alunos ou entre estes e os respectivos professores, ou, ainda mesmo, unicamente entre os professores, impedem, igualmente, um desejável clima de paz, concórdia e mesmo de empatia intramuros escolares.
No ponto 4 não podia estar mais de acordo quando escreve que “o Governo (a que eu acrescentaria certas políticas sindicais e os lóbis das Ciências da Educação que parecem nutrir, como diria Ortega y Gasset, “ódio aos melhores”) não quer valorizar os conhecimentos científicos, pedagógicos e de cultura geral”. E tanto assim é que, no acesso à docência, faz letra morta destes conhecimentos. E, mesmo quando pretende fazer algo no sentido de inverter este statu quo, logo surge o coro sindical a dizer que todas as formações para a docência devem ser havidas em plano de igualdade fazendo crédito no aval estatal. Ou seja, aquela ratificação estatal de complementos de licenciatura obtidos em meia dúzia de meses ou de licenciaturas em universidades privadas que o ministro Mariano Gago se viu coagido a mandar encerrar, pressionado pelo escândalo público então desencadeado.
A própria triagem que nesse sentido era feita pelas antigas ordens profissionais foi interditada permitindo, por outro lado, a criação de novas ordens profissionais que metem no mesmo saco diplomas que vão de um simples curso secundário a licenciaturas de prestígio. E, desta forma, o Estado se fez monarca absoluto do reino da mediocridade atribuindo idêntico estatuto a licenciaturas universitárias para o ensino de uma única matéria curricular dos 2.º ciclo dos ensinos básico e/ou secundário e a licenciaturas de escolas superiores de educação destinadas ao magistério simultâneo de duas disciplinas do 2.º ciclo do ensino básico.
Bondade que não serve os desígnios de um ensino de qualidade que o país merece e a sociedade portuguesa deve exigir. Só através de uma séria avaliação dos professores se poderá pôr cobro a um sistema educativo suportado pela iniquidade de igualar desiguais como se, em legado deixado por Victor Hugo, “a primeira igualdade não fosse a justiça”.
Rui Baptista, in De Rerum Natura.









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