sábado, 13 de fevereiro de 2010

TRÊS QUESTÕES SOBRE A AVALIAÇÃO DOCENTE

“Os bons vi sempre passar / No mundo graves tormentos. / E para mais me espantar / Os maus vi sempre nadar / Em mar de contentamentos” (Luís Vaz de Camões, 1542-1580).

Segundo Ralph Emerson, “todo o homem que encontro é-me superior em alguma coisa, e nesse particular aprendo com ele”. Em concordância com este princípio, tenho escrito, várias vezes (tantas que lhes perdi a conta!), que os comentários feitos aos posts, com intenção construtiva, muito os valorizam. Tenho neste caso o comentário do anónimo (10/02/2010; 10:52) ao meu post,Ainda a distinção entre o bom e o mau professor” (06/02/2010), em que levanta três questões importantes:

1. "Como é que uma avaliação de professores pode ser bem feita?;
2. Há algum bom exemplo?;
3. Há conhecimento científico / académico produzido?"

Na expressão popular, "cada macaco no seu galho”. Assim, estivesse eu capacitado para lhes dar as respostas que merecem sem correr o risco de ocupar um galho que não é o meu. Mas, apesar de tudo, não me sinto, de todo em todo, um intruso pela minha condição de docente durante várias décadas: tantas quantas o limite máximo de idade de reforma me permitiu.

Por esse motivo, entendo que o estudo da complexa avaliação dos docentes deve pertencer a académicos (ou seja, a especialistas universitários das Ciências da Educação) e não a simples remendões de desconfiáveis interesses profissionaisvisto estarmos num pais de carreiristas no qual todos buscam uma calha que lhes permita deslizarem sem atrito”, como escreveu João Lobo Antunes (“Um Modo de Ser”, Gradiva, 1996).

Embora, com isso, não exclua o risco desse necessário e desejável estudo poder vir a conhecer o cesto dos papéis dos responsáveis políticos desde país, a exemplo do acontecido em França com Laurent Lafforg. Temo mesmo que os responsáveis pela tutela da Educação só desejem ouvir os pareceres que lhes sirvam os próprios desígnios pessoais e/ou institucionais. Ou seja, como simples exemplo, aqueles pareceres que possam continuar a defender que a formação para a docência do 2.º ciclo do básico continue a ser feita, simultaneamente, em faculdades e em escolas superiores de educação. Ou que até cheguem ao descaro de defender que estas são melhor do que aquelas, em defesa de capelinhas próprias, em imoral descrédito das instituições universitárias que formam professores e ao arrepio da crítica tecida por Lee Schulman, ex-presidente da American Educational Research Association, “ao reducionismo às técnicas pedagógicas na concepção da formação e da avaliação docente”.

Como é do conhecimento público, na vigência da ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues, a questão da avaliação docente levou alguns sindicatos a dizer terem uma solução mirífica para a solução desta complexa e polémica questão. Se a tinham, guardaram-na a sete chaves nas gavetas dos respectivos gabinetes, quiçá para não porem em questão (ou sequer beliscarem) o permissivo sistema de avaliação até então em uso e que nunca mereceu qualquer voz corporativa da sua parte a criticá-lo.

Uma coisa, permito-me, desde já, adiantar. Essa avaliação não deve ser feita unicamente pelo avaliado ou pelas estruturas dirigentes da próprias escolas, em circuito fechado, sempre passível de obedecer a critérios de anos de convívio e amizade, de afinidade partidária, de simpatia clubística, etc., que, a exemplo dos antigos alquimistas, pretenda transformar em ouro metais pouco nobres.

A terapia para a gangrena da actual avaliação, pelo risco da saúde ou da própria falência do sistema educativo oficial, exige a amputação das longas e extenuantes horas ocupadas pelos professores no preenchimento de complicadas fichas, programações sem conta, muitas vezes para inglês ver, e outras tantas funções burocráticas, não raramente, em detrimento da verdadeira missão de ensinar e da própria valorização pessoal dos docentes em leituras que lhes sejam de utilidade e não a assistirem passivamente a acções de formação em matérias disciplinares que nada têm a ver com as matérias que leccionam.

Por esse facto, defendo que essas acções sejam ministradas nas universidades para os licenciados pelas faculdades e nas escolas superiores de educação para os respectivos diplomados, ou em instituições científicas de reconhecido mérito, para garantir um complemento de actualização e valorização de conhecimentos anteriores sem transformar essas formações num negócio de terceiros que, muitas vezes, até correm o risco de fazer marcar passo (“fazer que anda mas não anda”, na típica expressão brasileira) ou mesmo confundir saberes anteriores. Hoje em dia, com o decréscimo da natalidade e o excesso de estabelecimentos de ensino superior oficiais que surgiram, sem rei nem roque, em todos os cantos do país, seria uma forma de evitar o possível encerramento daqueles com um longo e prestigiante serviço prestado à cultura e à ciência do país.

A actual avaliação dos professores, uma espécie de remendos novos em pano velho da avaliação do tempo da ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues (excessiva na burocracia e deficiente na exigência de um bom ensino ou, pelo menos, satisfatório) justifica excertos do livro de Arthur Schopenhauer, "Aforismos para a Sabedoria de Vida”, aqui reproduzidos:

“O que em sociedade desagrada aos grandes espíritos é a igualdade de direitos e, portanto, de pretensões, em face da desigualdade de capacidades, de realizações (sociais) dos outros. A chamada boa sociedade admite méritos de todo o tipo, menos os intelectuais: estes chegam a ser contrabando. (…) Por outro lado, os méritos pessoais devem mendigar perdão ou ocultar-se, pois a superioridade intelectual, sem interferência nenhuma da vontade, fere pela sua mera existência. Eis por que a sociedade, chamada de boa, não tem só a desvantagem de pôr-nos em contacto com homens que não podemos louvar nem amar, mas também a de não permitir que sejamos nós mesmos, tal qual é conveniente à nossa natureza. Antes, obriga-nos, por conta do uníssono com os demais, a encolhermo-nos ou mesmo a desfigurarmo-nos. (…) Nessa sociedade, por conseguinte, temos de renunciar, com difícil auto-abnegação, a 3/4 de nós mesmos, a fim de nos parecermos com os demais. Em compensação, temos obviamente os outros, mas quanto mais uma pessoa possui valor próprio, tanto mais achará que o ganho não cobre a perda e que o negócio redunda em prejuízo. (…) Ajunte-se a isso o facto de que a sociedade, a fim de substituir a autêntica superioridade, isto é, a do espírito, que ela não suporta e que é também difícil de encontrar, adoptou sem mais nem menos uma superioridade falsa, convencional, baseada em normas arbitrárias, propagando-se pela tradição entre as classes elevadas e alterando-se como se alteram as palavras de ordem. É o chamado bom-tom, fashionableness."
Em conclusão, só através de uma melhoria efectiva do actual sistema de avaliação dos professores em que, não poucas vezes, se honra o demérito, se enaltece a ignorância e se protege o atrevimento será possível e desejável capacitá-lo para distinguir o bom do mau professor, evitando, assim, aquilo que Pessoa, referindo-se à igualdade entre desiguais, teve como “a maior das injustiças e a pior das tiranias”.

Rui Baptista, in De Rerum Natura.

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