sábado, 13 de março de 2010

BULLYING: PARA GRANDES MALES, GRANDES REMÉDIOS

Bullying: para grandes males, grandes remédios

"Eu sou eu e as minhas circunstâncias" (Ortega y Gasset, 1883-1955).

De um comentário de Carlos Medina Ribeiro no Passatempo com prémio, publicado no blogue Sorumbático (06/03/2010), respigo:

“Quando andava no liceu, era o mais novo da turma, com as consequências habituais nesses casos…O ‘assunto’ só se resolveu quando, já mais crescidote ( farto de levar ‘porrada’…) resolvi aprender defesa pessoal!

Então, eu e outro jovem nas mesmas circunstâncias dirigimo-nos ao ATENEU, e quisemos inscrevermo-nos no judo. Era, no entanto, necessário comprar um quimono, e não tínhamos dinheiro para ele!

Fomos, então, encaminhados para a luta greco-romana (!), onde se podia usar uma roupa qualquer.

Nem sabíamos onde nos estávamos a meter! Depois da primeira sessão de treino, ficámos de cama sem nos podermos mexer, com distensões em todo o corpo.

Mas, depois de recuperarmos, voltámos lá…e acabou por valer a pena: os músculos cresceram, a auto-confiança também, e nunca mais levámos ‘porrada’ dos outros…”

A seu exemplo, motivado pelo seu percurso de vida “desportiva”, vieram-me à lembrança as circunstâncias que me levaram a praticar pesos e halteres.

Inicialmente, motivado por um colega de turma, inscrevi-me no então 6.º ano do liceu numa classe de ginástica educativa do Ginásio Clube Português, dirigida por um afamado professor de Educação Física sueco, chamado (se a memória me não falha e a ortografia me não atraiçoa) Kurt Johanson. Era uma classe, como se diria agora, sem discriminação de idades. Eu, na altura, com os meus 16 anos tinha como companheiro de classe o hoquista Sidónio Serpa, ex-campeão do mundo, já “reformado” das andanças dos patins, de compleição física invejável (dizia-se que o espirómetro que soprava nos exames médicos acusava mais de 6 litros!).

A páginas tantas, achando que precisava de algo mais para me pôr os músculos salientes para poder mostrar o muque (flexão do antebraço sobre o braço para contrair o bicípite), e não apenas o escanzelado osso do braço, resolvi dirigir-me à classe de halterofilismo dirigida por um antigo campeão da modalidade, o senhor Sales. Aí chegado, disse-lhe ao que vinha. Olhando para mim de soslaio, como quem tem um sósia do Woody Allen pela frente, com um ar, de certo modo, condoído, aconselhou-me : “Vai para casa, come umas sopinhas, e depois aparece”!

Não me resignei. No dia seguinte, lá estava eu novamente. Perante a minha persistência, pôs-me nas mãos uma barra de peso irrisório (10, 11 quilos, talvez), dizendo-me: “Levanta lá isto acima da cabeça”. Fi-lo como quem levanta uma pena. De carga em carga, levantei o meu próprio peso que, diga-se de passagem, não devia exceder em muito metade de um quintal.

O senhor Sales, entusiasmado, virou-se para um dos seus atletas, ordenando-lhe: “Vai à sala da luta greco-romana [frequentada simultâneamente pelos halterofilistas], e diz àqueles “maricas” que venham cá acima ver este lingrinhas levantar o seu peso”! Assim foi! Inchado, que nem uma rã, voltei a repetir a minha façanha. Poucos dias depois, desisti destes violentos treinos que me deixavam o corpo moído como se tivesse sido agredido selvaticamente por todos os meus colegas de turma.

Virei-me então para o culturismo (hoje eufemisticamente chamado musculação para não assustar a “clientela”). A minha saga aí foi diferente. O treinador era o senhor Jeremias, que tinha frequentado um ginásio da modalidade em Paris. Era um tipo pequeno, fibroso de carnes, um tanto fadista e de humor inconstante.


Um dia, aconselhei-me com ele que prometia fazer de mim um campeão: “Senhor Jeremias, não acha que preciso de mais dorsais?” Estava nos seus dias de boa disposição: “Vais fazer estes exercícios assim-assim", e lá me indicou uns tantos. Segui-os religiosamente, como quem obedece a um moderno pastor de igreja.

No dia seguinte, com entusiasmo juvenil, voltei a aconselhar-me com ele: “Senhor Jeremias, não acha que preciso de mais peitorais?” Azar o meu. Estava ele num daqueles dias em que se fosse mulher eu diria estar com o “período”. Respondeu-me, com ar desdenhoso: “O senhor precisa é de …TUDO!” Apesar desse “TUDO”, continuei a fazer musculação até hoje, em idade provecta. Do meu modestíssimo currículo desportivo consta o de campeão de Moçambique de Levantamentos Culturistas, andava eu então na casa dos trinta e tal anos.

Moral da história: Cheguei à conclusão de que os atletas mais fortes, com que privei na minha juventude, de entre eles o Hipólito Cruz, campeão nacional de halterofilia e de luta greco-romana, eram pacholas, não se servindo da força física para humilhar, ofender ou bater nos mais fracos, aquilo a que hoje se dá o nome de “bullying”. Eram, isso sim, um exemplo a seguir para não fazermos da fraqueza força tornando-nos nos “valentões” que povoam escolas oficiais actuais em que a lei da selva se fez rainha e senhora!

Ruy Baptista, in De Rerum Natura.

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