segunda-feira, 15 de março de 2010

MEMÓRIAS ESPARSAS DO LUÍS

Texto de Paulo Ambrósio

O Luís era uma daquelas pessoas já raras, porque digna, guiado por princípios e valores, exigente consigo próprio, tímido e muito metido com ele (era difícil arrancar-lhe um sorriso). Aos 51 anos, "solteirão", ainda contratado - o professorado é a única profissão em Portugal onde isto ainda acontece! - veio até nós, no decurso da luta pela Profissionalização, contexto onde convivi com ele directamente durante cerca de três anos.

Portador de Habilitação Própria, foi eleito em Lisboa, em Plenário para a Comissão de Contratados, em 2004. Participou activamente em todos os protestos e acções reivindicativas da nossa Frente de Trabalho do SPGL, que levaram à conquista do Despacho nº 6365/2205 (profissionalização em serviço em ESE's e Faculdades).

Era conhecido entre nós pelo ”freelancer" (alusão à sua segunda ocupação de jornalista eventual). Dotado de forte sensibilidade em relação ao mundo da informação e da comunicação social, propôs e pedia frequentemente, nas nossas reuniões, que os sindicatos encarassem esta frente (relações públicas) com outros olhos, mais eficazmente. A partir de 2006, não se recandidatou mais à nossa comissão de contratados.

Encontrei-o mais tarde nas mega-manifestações de professores: estava na Escola EB 2,3 Ruy Belo, e achei-o disposto a não entregar os Objectivos Individuais, um verdadeiro problema de consciência moral, para ele.

Depois disso, mais uma ou duas vezes, espaçadamente. Soube que tinha sido colocado na EB2,3 de Fitares, mas pouco mais.

No passado dia 11 de Fevereiro, revi-o pela última vez, em Oeiras, já deitado no caixão na capela mortuária. Conversei longamente com a mãe, a irmã, a empregada doméstica. Vêm-me à memória as palavras do pai, militar aposentado: "o Luís era bom moço, quis ser bom até ao fim, só que não aguentou o inferno das escolas de hoje... Vocês têm que fazer qualquer coisa!"

O Luís nos, últimos tempos, já tinha tomado friamente a decisão, inabalável. Por isso, não creio que nesse período, tenha pedido ajuda a ninguém. Segundo me disseram familiares, no velório, pela consulta do histórico do seu PC, ele, um mês antes e se lançar da ponte, consultava sites sobre suicídio, na internet. Escolheu o dia da sua morte coincidindo com a data de aniversário do pai, com o qual, aliás, se dava bem.

O ambiente no velório foi impressionante, pela dignidade, revolta interior e tristeza da cerimónia, com alguns professores presentes, num silêncio de cortar à faca, só rasgado por frases em surdina, de justo ódio, visando os políticos responsáveis pela situação a que nos últimos anos chegou o Ensino Público. Foi, sem dúvida, dos velórios mais tocantes em que estive até hoje, mesmo estando já habituado a duras perdas, e tendo estado na semana anterior, noutro, de um familiar directo. Quando escrevi no livro de condolências o que me ia no espírito, tive dificuldade em o fazer, a cortina de lágrimas teimava em desfocar-me as letras.

Pessoalmente, decidi manter silêncio durante um mês, por respeito ao pesado luto da família, só o quebrando depois da irmã dele (nossa colega, também) o ter feito, decorridos cerca de trinta dias, com a divulgação da notícia à comunicação social, para assim tentar evitar que outros casos se repitam, colocar toda a verdadeira dimensão das depressões e suicídios profissionais à luz do dia, rasgar o manto hipócrita dos silêncios assassinos e abalar as consciências de toda a sociedade.


Paulo Ambrósio
- membro da Comissão de Professores Contratados e da Frente de Professores e Educadores Desempregados do SPGL desde 1999

18 comentários:

professora disse...

também sou professora e, embora nunca tenha vivido situações com a do Luís, ainda hoje não me sai do pensamento o que ele sofreu e o fim que teve. Na escola onde trabalho uma colega vive uma situação parecida e ninguém faz nada.O diector "não tem tempo" e alguns colegas "passam a mão pelo pêlo aos alunos", afirmando que om eles a turma se "porta bem". Tenho medo do que possa acontecer!!

Martins disse...

Volto a perguntar. isto vai ficar assim? A comunicação social nem deu qualquer relevo ao assunto. Comparem com o caso do Leandro. Vamos combinar uma manifestação contra a situação de indisciplina que existe por culpa do governo que nada tem feito para que haja ordem e disciplina nas escolas.

Alice Guimarães disse...

Apoio, vivamente essa manifestação. O silencio é a pior das nossas armas. Temos de mostrar ao país que sabemos e estamos conscientes de quem é a verdadeira responsabilidade pela pela morte do Luís e pelo caos ou selva em que se transformou o ensino.
Queremos trabalhar com dignidade e não ser humilhados e desrespeitados. Afinal não trabalhamos para o Ministério da Educação e Cultura ? Porque será que a educação está a ser abolida das escolas?????????????????

João Carlos Narciso disse...

Quero dar os parabéns a este senhor que teve a coragem de elevar a personalidade do nosso colega falecido, quando este já não passava (para muitas pessoas que vão escrevendo por aqui e por ali) de um desgraçado, de um pedinte, que acidentalmente dava aulas...
É preciso que se saiba que há muitos professores, não só com habilitação própria, mas licenciados e profissionalizados, como eu,que continuam há muitos anos contratados. É uma vergonha nacional, a par de outras, obviamente. Hoje em dia, as pessoas sensíveis, com valores, não são bem aceites nas escolas, sendo-lhes muito difícil transmitir esses mesmos valores aos alunos, pois estes estão minados por muitas coisas negativas, o lado negro da vida onde se pões de lado a fé, o amor, o perdão, a solidariedade.

Anónimo disse...

Boa pergunta. Não deveria haver uma grande manifestação, protestando contra este estado coisas. Há pessoas a sofrerem bastante com toda esta indisciplina e viloência. A comunicação social só dá destaque a casos relacionados com os alunos, quando é para defender os professores não querem dar grande relevância.Estranho,não é? Na escola onde estou nunca houve tantos casos de indisciplina como este ano.Espero que esta ministra altere esta situação.

professora disse...

estou completamente de acordo com a ideia da manifestação. Mas não nos emganemos, na escoa também se pode fazer muito. Basta que as direcções estejam dispostas a mexerem-se. Sei do que falo porque estive 4 anos na gestão, saí em Julho de 2009, e as direcções têm mecanismos para actuar. Dá é muito trabalho e podem criar-se "inimizades" incómodas.

Maria Amélia Campos disse...

INSENSÍVEIS, INDIFERENTES
E INCONSEQUENTES

A recente notícia, vinda a público, do professor de música que se suicidou, por não suportar o modo indigno como era tratado pelos seus alunos, fez logo correr uma toada de “especialistas-psicólogos” e de outras psiques, que, a avaliar pelo teor das suas intervenções, nunca puseram os pés numa sala de aula.
Se soubessem, esses mestres da indiferença, o que é ter de trabalhar num ensino quase individualizado – como é o da música, em que o silêncio e a serenidade são fundamentais, para uma regular aprendizagem -; se esses senhores soubessem o que é estar constantemente a gerir os mais variados conflitos, a serenar pequenas guerrilhas e ajustes de contas adiados, roubando, ao pouco tempo lectivo de que se dispõe, o indispensável tempo ao cumprimento de objectivos, por mínimos que sejam; se esses senhores soubessem o que representa, no dia-a-dia de um professor, a sucessão de horas gastas a motivar, a inventar, a dialogar, a sugerir, a exemplificar, a argumentar, a negociar, por vezes a “malhar em ferro frio”, para se obter um mínimo de atenção, por parte dos alunos; se esses e outros senhores soubessem multiplicar as horas, os dias, os anos de desgaste que todo este quadro provoca num ser humano, então não seriam tão doutos – ou cegos - a procurar respostas ou desculpas, onde elas não existem.
No caso do Professor Luís, sensível como só o pode ser um professor de música, é imperdoável que outros colegas e responsáveis superiores não o tivessem tentado ajudar, intervindo, se necessário, no desenrolar das suas aulas. Ainda mais por se tratar de alguém tímido, muito metido consigo próprio, que se guiava por princípios e valores, solteiro, com 51 anos de idade, a indiciar um quadro que dificilmente passaria despercebido à comunidade escolar.
Já uma vez me sucedeu ajudar uma colega, a quem os alunos tratavam de forma menos correcta. Participei, várias vezes, nas suas aulas, procurando envolver os meus alunos em actividades conjuntas, de forma a não deixar transparecer a vulnerabilidade da situação. Custou-me tempo e trabalho extras, mas deste modo se evitou o que poderia ter sido um caso semelhante ao do Professor Luís.
A falta de solidariedade entre os docentes, cada um a pregar na sua capela, é uma das causas da fragilidade do professorado. Lamento dizê-lo, mas como é possível que aqueles que têm em mãos uma das mais nobres missões, se deixem contaminar pela insensibilidade, pela indiferença e pela falta de solidariedade?
Não conheci o Professor Luís, mas ontem pus luto por ele, porque um verdadeiro professor, mesmo aposentado, nunca deixa de o ser. Já os INSENSÍVEIS, INDIFERENTES E INCONSEQUENTES parecem intemporais.
Maria Amélia Campos

Anónimo disse...

Gosto da ideia da manifestação: É muito pouco materialista, é uma boa bofetada a certos opinadores.

Anónimo disse...

Só MONSTROS podem permitir que outros MONSTROS proliferem e destruam tantos inocentes.

Anónimo disse...

Eu propunha uma vigília, em silêncio absoluto, sem cartazes, aos portões da EB 2,3 de Fitares, em homenagem ao Professor Luís.

Anónimo disse...

Eu afirmo que o nosso ensino está massificado. Isto é diferente de democratizado. Após o 25 de Abril, no âmbito dos célebres 3 D`s, democratizou-se (e bem, entenda-se) o ensino. Mas a esta democratização do ensino correspondeu mais uma massificação, conceitos diferentes. Recentemente, com a introdução dos já célebres CEF`S e Profissionais, EFA`S e Novas Oportunidades no sistema, com currículos alternativos, a situação deteriorou-se, a meu ver. Em particular com os profissionais e CEF`S. Não que me oponha a currículos alternativos. Mas a verdade é que a postura e desempenho dos alunos destes cursos alternativos é claramente divergente do ensino dito regular. Institucionalizou-se, se assim se pode dizer, a ideia de facilitismo, como se a vida e o mundo do trabalho fora dos portões das escolas se coadune com tal atitude. Creio que, ao invés de estarmos a educar, por vezes estamos a deseducar - por culpa do sistema e das políticas educativas que se regem mais pelas estatísticas do que pela qualidade - na medida em que não estamos (porque não podemos) a incutir os valores do trabalho, da honestidade, da seriedade, do esforço, etc. E, desta forma, estamos a contribuir para a divisão do sistema de ensino em dois: o privado, com qualidade e exigência (algum, pelo menos) e o público, destinado à "Arraia Miúda", sem posses materiais. Em suma, veja-se como a ideia inicial de democratização do ensino se desvanece, como consequência desta massificação, afinal.
Mas a vida continuará e o mundo continuará a rodar em torno de si próprio e do sol, eternamente. Por tudo isto, penso que o colega LUÍS não tomou a melhor opção: ter-se atirado da ponte. Apesar de tudo, a vida é bela!

Anónimo disse...

Eu também já vou a caminho do 50 e já me passou pela cabeça umas coisas, só que foram diferentes, dar um tiro em alguem.

As condolências.

A luta tem que se mostrar todos os dias na escola , a primeira pode logo ser por obrigar a escola a cumprir os contratos de trabalho, não temos que fazer horas extras e também a avalição que tem mutios aspectos contrários ao próprio contrato de trabalho. È o ministerio que se tem de preocupar com a nossa formação, não somos nós que temos que andar a pagar, quem faz isto, nem sequer é bom para consigo próprio.

Não se deixem levar, exijam os vossos direitos e se eles não quiserem cumprir, tribunais com eles.

Só não percebo como é que os sindicatos já não puseram tudo isto no tribunal.

Se ninguem ripostar estará tudo cada vez pior. Mais mortes irão acontecer.Por vezes a morte lenta e agoniante é a pior, LUTEM OU TENHAM UMA MORTE LENTA E AGONIANTE.

Anónimo disse...

sE ESTIVEREM A PENSAR ATIRAR-SE DA PONTE NÃO O FAÇAM, PEGUEM NUMA ARMA E FAÇAM JUSTIÇA, AS COISAS MUDARÃO.

E O PIOR QUE TE PODE ACONTECER, NADA, PORQUE O PIOR JÁ ACONTECEU.

Anónimo disse...

oS SENHORES DO BANCO DE PORTUGAL E DA CAMARA, AGORA GUARDAM OS CARRÕES DENTRO DE UMA IGREJA.

TRANSFORMARAM A IGREJA EM PARQUE DE ESTACIONAMENTO.

ASSIM VAI ESTE PAÍS.

sandra Freitas disse...

Prezados amigos
Estou chocada com a notícia. Trabalho no Sindicato dos Professores da Rede Particular em MG no Brasil. Penso que a situação degradante no interior das escolas, principalmente a falta de respeito por parte dos alunos e supreiores se deve a mercantilização da Educação, que deixou de ser um bem para ser um produto de mercado. No caso das escolas públicas (falo pelo Brasil), há muito a educação tem sido desdenhada, como se nada significasse para as futuras gerações. Afinal ela não oferece a menor lucratividade, apenas gastos. Dessa forma não atende aos interesses dos grupos dominantes.
É uma vergonha. Talvez a mais celebre e honrada das profissões ser colocada como se nada fosse. E isso tendo nosso silêncio como cúmplice. Pergunto qual será o legado educacional dos nossos filhos, se hoje estamos matando nossos professores?
Abraços,

Anónimo disse...

Este colega morreu, e nós quanto tempo vamos aguentar??
Por favor, temos de fazer alguma coisa!!
Alguém tem de mexer nisto, passaar cá para fora aquilo que realmente acontece no interior das nossas salas de aulas...

joão disse...

Relativamente ao nosso Colega Luís, que muito antes de se ter matado estava morto, provavelmente de Dor e Desamparo, num ambiente hostil que era o seu ganha-pão - como é o nosso - gostaria muito que fosse feita uma Vígília à porta da Escola de Fitares,ào cair da noite, em Silêncio , tendo apenas por fundo duas ou três peças musicais de que ele mais gostasse (talvez a família queira facultar informação). Proponho que se chamem os meios de comunicação. Choca-me a morte do pequeno Leandro. Mas não me choca menos a de um Colega que deixaram chegar ao Desespero. Tanto um como outro foram assassinados, não lhe dêem outro nome. Mas há uma diferença : todo o País ouviu falar de Leandro, ninguém ouviu falar de um Professor Luís, de seu nome. té sempre, Luís. Madalena Prates

Delmira disse...

Colegas. Realmente todos falam do Leandro. Também já se fala do Luís. E do José António? Já ouviram falar?
José António era professor e por culpa da anterior equipa ministerial suicidou-se. José António tinha 45 anos, era professor de matemática na escola E B 2,3 de Vouzela e suicidou-se em 21 de Setembro de 2009. Não tinha antecedentes de doença alguma, muito menos psicológica. Lutou desde o primeiro dia contra toda a injustiça e ataque directo que decidiram fazer aos professores. Foi a todas as manifestações, contestou todas as barbaridades impostas. Mas desistiu! Foi vencido. Nas suas palavras de despedida disse "...não consigo mais continuar a ser um bom professor. Esta ministra secou tudo o que havia de bom na profissão docente..."
A dor de perder o meu marido não me permitiu divulgar mais cedo a sua morte, mas penso que agora já é tempo de se fazer algo. Estes professores não podem ter morrido em vão.

As minhas condolências à família e amigos do Luís.

Desde 01-01-2009


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