“Oh! Em verdade vos digo, embalar as almas na esperança do reino do céu é fazer-lhes esquecer o dever forte para com o reino da terra” (Eça de Queirós).
É esta a génese de um fenómeno mais grave com que nos deparamos hoje com a inevitabilidade de estarmos perante, apenas, o diagnóstico do bullying sem perspectivar por parte da hipocrisia oficial uma solução verdadeiramente eficaz a não ser a de chorar lágrimas sobre o leite derramado. Mas é bom que se tenha em mente que o bullying, que já causou suicídios de estudantes nos Estados Unidos, não se circunscreve a agressões físicas e/ou psicológicas entre os estudantes O fenómeno é bem mais amplo como dei conta conta neste parágrafo do meu post mais recente, Bullying nas escolas portuguesas (04/03/20010):
Será que para chamar a atenção da sociedade portuguesa para esta forma de agressão física dos alunos aos professores, não chega o facto devidamente fundamentado em dados estatísticos de os professores serem uma percentagem substancial da clientela que enche os consultórios psiquiátricos? Será preciso um(a) professor(a) suicidar-se para os zelosos corifeus do ministério da Educação reconhecerem que chegou a altura de abandonar, de uma vez por todas, a permissividade perigosa de ter matulões em escolas inclusivas oficiais como se tratassem de crianças do coro de igreja?
Não, não se pense que se trata de pura ficção do celulóide. São factos do dia-a-dia. Quantos professores não transpõem o umbral da sala de aula para ganhar o pão que o diabo amassou com a coragem e a resignação de Maria Antonieta ao subir os degraus do cadafalso revolucionário de Paris do século XVIII? E como se isso não bastasse deparam-se, ainda, os docentes mesmo dentro do recinto da própria escola, por vezes, com encarregados de (des)Educação que os agridem em desagravo pelo mau rendimento escolar dos “bons selvagens” a que a sociedade escolar retirou a bondade e a possibilidade de engrossar a religião de analfabetos diplomados? E o que dizer de sindicalistas que esperam à porta de escolas oficiais entidades oficiais que as visitam para as apupar diante dos alunos com palavras grosseiras de quem deixou a carroça à porta?
O ministério da Educação tem por hábito assobiar para o lado como que o que de mau ou perverso se passa nas escolas, endossando a solução dos problemas para elas próprias, enjeitando, assim, a responsabilidade que lhe cabe de ter sido ele próprio a publicar e manter um estatuto do aluno que lhe dá todos os direitos e lhe não exige qualquer dever ainda que a simples frequência assídua e respeitosa nas salas de aulas pagas pelo erário público. Ou seja, pelas remediadas ou magras bolsas de todos aqueles que pagam impostos num país em que fugir aos impostos é prova de um malabarismo que se aplaude como se aplaudem as habilidades circenses.
Com a devida reserva de fidelidade da fonte, unicamente como medida de reflexão e obediência ao bordão popular que nos aconselha a pôr as barbas de molho quando vemos as do nosso vizinho do lado a arder, dou conta de uma notícia que corre na Internet sobre as medidas tomadas pelo governo britânico no combate ao bullying. São elas:
"As intimidações verbais e físicas não podem continuar a ser toleradas nas nossas escolas, seja quais forem as motivações' sublinhou a Secretária de Estado para as Escolas'. Disse também que ' as crianças têm de distinguir o bem e o mal e saber que haverá consequências se ultrapassarem a fronteira'.
Acrescentou ainda que 'vão reforçar a autoridade dos professores, dando-lhes confiança e apoio para que tomem atitudes firmes face a todas formas de má conduta por parte dos alunos'. A governante garantiu que 'as novas regras transmitem aos pais uma mensagem bem clara para que percebam que a escola não vai tolerar que eles não assumam as suas responsabilidades em caso de comportamento violento dos seus filhos. Estas medidas serão sustentadas em ordens judiciais para que assumam os seus deveres de pais e em cursos de educação para os pais, com multas que podem chegar às mil libras se não cumprirem as decisões dos tribunais'. O Livro Branco dá ainda aos professores um direito 'claro' de submeter os alunos à disciplina e de usar a força de modo razoável para a obter, se necessário”.
Em contrapartida, no nosso país chegam-nos zunzuns de que o governo se prepara para retirar os esquálidos benefícios sociais ao agregado familiar do aluno violento como se a forma eficiente de combater a agressividade fosse fazer passar ainda mais fome a quem chega a ter dificuldade em adormecer por ter o estômago vazio. Ou seja pagam possíveis justos – nem sempre a escola dos pais é a escola dos filhos – por um único pecador.
Embalar a alma lusitana na esperança sebastiânica de que o bullying nacional se trata de um fenómeno esporádico e de pouca expressão é tentar fazer com que ela, na sua pureza ingénua, se esqueça do dever que o governo tem para com uma sociedade, com escreveu Camilo Castelo Branco, em que “há lágrimas espremidas pelas mãos da prepotência por a lei se acobardar de levar aos olhos do fraco o lenço que vela os olhos da Justiça”.
Rui Baptista, in De Rerum Natura










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