domingo, 25 de abril de 2010

PARTICIPAÇÃO DISCIPLINAR MUITO GRAVE

PARTICIPAÇÃO DISCIPLINAR MUITO GRAVE:

Professora agredida: Leonídia Marinho

Grupo Disciplinar: 10º B - Filosofia

Agressor: ********

Contextualização:

Dia vinte e seis de Março de 2010. Último dia de aulas. Às 14 horas dirigi-me à sala 15 no Pavilhão A para dar a aula de Área de Integração à turma 10º DG do Curso Profissional de Design Gráfico. Propus aos alunos a ida à exposição no Polivalente e à Feira do Livro, actividades a decorrer no âmbito dos dias da ESE. A grande maioria dos elementos da turma concordou, com excepção de três ou quatro elementos que queriam permanecer dentro da sala de aula sozinhos. Deixar que os alunos fiquem sozinhos na sala de aula sem a presença do professor é algo que não está previsto no Regulamento Interno da Escola pelo que, perante a resistência dos alunos que não manifestavam qualquer interesse nas actividades supracitadas decidi que ficaríamos todos na sala com a seguinte tarefa: cada aluno deveria produzir um texto subordinado ao tema "A socialização" o qual me deveria ser entregue no final da aula. Será preciso dizer qual a reacção dos alunos? Apenas poderei afirmar que os alunos desta turma resistem sempre pela negativa a qualquer trabalho porque a escola é, na sua perspectiva, um espaço de divertimento mais do que um espaço de trabalho. Digamos que é uma Escola a fingir onde TUDO É PERMITIDO!

É muito fácil não ter problemas com os alunos. Basta concordar com eles e obedecer aos seus caprichos. Esta não é, para mim, uma solução apaziguadora do meu estado de espírito. Antes pelo contrário. A seriedade é uma bússola que sempre me orientou mas tenho que confessar, não raras vezes, sinto imensas dificuldades em estimular o apetite pelo saber a alunos que têm por este um desprezo absoluto. As generalizações são abusivas. Neste caso, não se trata de uma generalização abusiva mas de uma verdade inquestionável. Permitam-me um desabafo: os Cursos Profissionais são o maior embuste da actual Política Educativa. Acabar com estes cursos? Não me parece a solução. Alterem-se as regras.

Factos ocorridos na sala de aula:

Primeiro Facto: Dei início à aula não sem antes solicitar aos alunos que se acomodassem nos seus lugares. Todos o fizeram exceptuando o aluno ***********, que fez questão de se sentar em cima da mesa com a intenção manifesta de boicotar a aula e de desafiar a autoridade da professora.

Dei ordem ao aluno para que se sentasse devidamente e este fez questão de que eu o olhasse com atenção para verificar que ele, ***********, já estava efectivamente sentado e ainda que eu não concordasse com a sua forma peculiar de se sentar no contexto de sala de aula, seria assim que ele continuaria: sentado em cima da mesa. Por três vezes insisti para que o aluno se acomodasse correctamente e por três vezes o aluno resistiu a esta ordem.

Reacção da maioria dos elementos da turma: Risada geral.

Reacção do aluno *********: Olhar de agradecimento dirigido aos colegas porque afinal a sua "ousadia" foi reconhecida e aplaudida.

Reacção da professora: sensação de impotência e quebra súbita da auto-estima.

Senti este primeiro momento de desautorização como uma forma que o aluno, instalado na sua arrogância, encontrou de me tentar humilhar para não se sentir humilhado.

Como diria Gandhi, "O que mais me impressiona nos fracos, é que eles precisam de humilhar os outros, para se sentirem fortes..."

Saliento que neste primeiro momento da aula a humilhação não me atingiu a alma embora essa fosse manifestamente a intenção do aluno.

Segundo Facto: Dei ordem de expulsão da sala de aula ao aluno **********, com falta disciplinar. O aluno recusou sair da sala e manteve-se sentado em cima da mesa com uma postura de "herói" que nenhum professor tem o direito de derrubar sob pena de ter que assumir as consequências físicas que a imposição da sua autoridade poderá acarretar.

Nem sempre um professor age ou reage da forma mais correcta quando é confrontado com situações de indisciplina na sala de aula. Deveria eu saber fazê-lo? Talvez! Afinal, a normalização da indisciplina é um facto que ninguém poderá negar. Deveria ter chamado o Director da Escola para expulsar o aluno da sala de aula? Talvez...mas não o fiz. Tenho a certeza de que se tivesse sido essa a minha opção a minha fragilidade ficaria mais exposta e doravante a minha autoridade ficaria arruinada.

Dirigi-me ao aluno e conduzi-o eu própria, pelo braço, até à porta para que abandonasse a sala. O aluno afastou-me com violência e fez questão de se despedir de uma forma tremendamente singular: colocou os seus dedos na boca e em jeito de despedida absolutamente desprezível, atirou-me um beijo que fez questão de me acertar na face com a palma da mão. Dito de uma forma muito simples e SEM VERGONHA: Fui vítima de agressão. Pela primeira vez em aproximadamente vinte anos de serviço.

Intensidade Física da agressão: Média (sem marcas).

Intensidade Psicológica e Moral da agressão: Muito Forte.

Reacção dos alunos: Riso Nervoso.

Reacção do aluno **********: Ódio visível no olhar.

Reacção da professora: Humilhação.

Ainda que eu saiba que a humilhação é fruto da arrogância e que os arrogantes nada mais são do que pessoas com complexos de inferioridade que usam a humilhação para não serem humilhados, o que eu senti no momento da agressão foi uma espécie de visita tão incómoda quanto desesperante. Acreditem: a visita da humilhação não é nada agradável e só quem já a sentiu na alma pode compreender a minha linguagem.

Terceiro Facto: O aluno preparava-se para fugir da sala depois de me ter agredido e, conforme o Regulamento Interno determina, todos os alunos que são expulsos da sala de aula terão que ser conduzidos até ao GAAF, Gabinete de Apoio ao Aluno e à Família. Para o efeito, chamei, sem êxito, a funcionária do Pavilhão A, que não me conseguiu ouvir por se encontrar no rés-do-chão. Enquanto tal, não larguei o aluno para que ele não fugisse da escola (embora lhe fosse difícil fazê-lo porque os portões da escola estão fechados).

Mais uma vez, o aluno agrediu-me, desta vez, com maior violência, sacudindo-me os braços para se libertar e depois de conseguir o seu objectivo, começou a imitar os movimentos típicos de um pugilista para me intimidar. Esta situação ocorreu já fora da sala de aula, no corredor do último piso do Pavilhão A.

Reacção dos alunos (que entretanto saíram da sala para assistir à cena lamentável de humilhação de uma professora no exercício das suas funções): Risada geral.

Reacção do aluno ********: Entregou-se à funcionária que entretanto se apercebeu da ocorrência.

Reacção da Professora: Revolta e Dor contidas que só o olhar de um aluno mais atento ou mais sensível conseguiria descodificar. Porque, acreditem: dei a aula no tempo que me restou com uma máscara de coragem que só caiu quando a aula terminou e sem que nenhum aluno se apercebesse. Entretanto, a funcionária bateu à porta para me informar que o aluno queria entrar na aula para me pedir desculpa pelo seu comportamento "exemplar".

Diz-se que um pedido de desculpas engrandece as partes: quem o pede e quem o aceita. Não aceitei este pedido por considerar que, fazendo-o, estaria a pactuar com um sistema em que os professores são constantemente diabolizados, desprestigiados e ameaçados na sua integridade física e moral. Em última análise, a liberdade não se aliena. O aluno escolheu o seu comportamento. O aluno deverá assumir as consequências do comportamento que escolheu e deverá responder por ele. É preciso PUNIR quem deve ser punido. E punir em conformidade com a gravidade de cada situação. A situação relatada é muito grave e deverá ser punida severamente. Sou suspeita por estar a propor uma pena severa? Não! Estou simplesmente a pedir que se faça justiça.

Vamos ser sérios. Vamos ser solidários. Vamos lutar por uma Escola Decente.

Ps: Este caso já foi participado na Polícia e seguirá para Tribunal.

Localidade, 30 de Março de 2010

A Professora _________________________

13 comentários:

odnamra disse...

Parabéns à professora pela maneira como lidou com a situação e pela maneira como a relata.
Força, coragem e determinação que não lhe faltem.
O que diz acho que exprime qualquer coisa pela qual todos nós professores, já passámos e que cada vez mais se repetem. "Suas Excias." foram habituados infelizmente por colegas nossos, dos tais que sabem "agradar", a fazer asneiras e pedir desculpa depois e tudo fica bem... Não, não pode ser! O "eduquês" tem que desaparecer.
Temos de facto que mudar as regras!
Mais uma vez força e coragem para lidar com o caso.

Anónimo disse...

Será preciso mesmo muita força e coragem por parte desta professora, porque a olhar para o que se está a passar na justiça duvido que este aluno seja muito penalizado!...

Anónimo disse...

A minha solidariedade para com a colega.
Já passei por um caso semelhante.

Dalila disse...

A minha solidariedade para com a colega.

Fátima Inácio Gomes disse...

Um abraço enorme à colega. Nunca passei por uma situação assim, não porque me considere uma boa disciplinadora, mas porque sinto que, além da minha capacidade de me "relacionar bem com os alunos", tenho tido sorte com a massa humana que me tem "caído em mãos".
De facto, cada vez é mais fácil desafiar aqueles que, infelizmente, estão sim numa posição cada vez mais difícil - os professores.
Espero, como a colega, que se faça justiça. Que a Direcção da sua escola tenha a coragem e a dignidade que falta a alguns alunos - também será um caminho para os educar. E a coragem e a dignidade que têm faltado a que nos "governa".

Anónimo disse...

Parabéns pela maneira como lidou com a situação. Coragem. É necessário mudar os comportamentos quer dos alunos abusivos quer dos professores permissivos.

Duas colegas reformadas recentemente.

Anónimo disse...

Parabéns pela sua coragem.
É necessário mudar comportamentos abusivos dos alunos e permissivos de alguns professores.

Duas professoras recentemente aposentadas.

Anónimo disse...

Solidariedade para com a colega e apreço pela sua coragem.

Anónimo disse...

Não sei qual vai ser o dia que isso vai acontecer comigo, já esteve perto, provavelmente nesse dia vou perder a razão e partir os dentes ao aluno.

celeste caleiro disse...

Esta não é uma situação para dar parabéns ou não. É assim que tem que ser, é assim que deve ser, começando pela responsabilização da direcção da escola. O pedir desculpa, o passar a mão na cabecinha dos meninos e acreditar que mudam, já não se adequa. Polícia e tribunal, sempre que a direcção não actuar. E os pais, e os que dão emprego aos pais, que resolvam o que é melhor para todos.

Joao Figueiredo disse...

Sou aluno de braga na escola de secundaria de Alberto sampaio, e estou solidario com a professora, inflizmente ja nao ha estudantes com um minimo de responsablidade moral e social,flizmente ainda temos estudantes muitos humanos, ficai muito chocado depois de ler esta partecipação, e espero que seja exmplo para alguns alunos que levam esta vida para "passear os livros".
Espero que consiga ganhar este processo.

Mande novidades por favor

Joao Figueiredo
Escola Secondaria de Alberto Sampaio

Nº9 1T

Joao Figueiredo disse...

Sou aluno em braga

e apos leitura da mesma ficai muito desiludido, mas inflizmente hoje em dia os jovens so passeam os livros nas escolas.Flizmente alguns nao.

Mas se eles nao gostam da escola porque andam la?????

Que os pais, lhes de maos a palmatoria porque coisas destas nao se faz a uma professora. Espero que os alunos mais "espertinhos" leiam este comentario.

Joao Figueiredo
ESAS
Nº9 1 Tec.Turismo

Anónimo disse...

Sou uma aluna do 8º ano e realmente concordo que é assim que uma professora exemplar deve agir, sem ter medo do aluno ou pena dele, afinal ele não teve pena da professora quando fez o que fez e por isso não merece nem pena nem perdão mas isso já não é comigo.
Parabéns pela atitude e pela coragem.

Desde 01-01-2009


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