domingo, 2 de maio de 2010

A TRISTEZA DE NÃO SABER LER E ESCREVER

Sara R. Oliveira 2010-04-30

A taxa de analfabetismo no país tem vindo a diminuir e continua mais elevada no sexo feminino. Não saber ler nem escrever significa oportunidades perdidas, garante quem não foi à escola.

Maria da Silva Jesus não sabe a sua idade. A memória não consegue fazer as contas aos anos - serão certamente mais de 70. A vida não lhe deu oportunidade de se sentar nos bancos da escola. Sem mãe, nem pai a amparar-lhe a infância, ainda menina começou a trabalhar nos campos. A desbravar caminho pelas próprias mãos. "Tínhamos de ganhar para comer e não fomos para a escola", justifica-se. "Não tive esse direito, mas naquele tempo a escola também não era obrigatória." Cresceu sem conhecer letras e números. Aprendeu a viver assim. Uma das filhas partiu para a Alemanha, as cartas chegavam e Maria Jesus pedia às vizinhas para lhe lerem as frases das saudades provocadas pela distância. "Queria tanto escrever-lhe", confessa, emocionada. "É uma pena não saber ler. É uma tristeza."

Dalila Ferreira, de 77 anos, conhece apenas a letra U. Nada mais. Não sabe ler nem escrever, mas gosta de folhear livros para observar as "figuras". Não conhece os números, mas sabe "contar dinheiro". "Conheço as notas e em contas ninguém me engana", garante. Ainda entrou na escola. Por muito pouco tempo. "A professora pediu-me para fazer um risco no quadro. Comecei a chorar, dizia que não conseguia", recorda. Conseguiu, mas mal chegou a estrear o caderno de linhas. A sua mãe teve de cuidar de um familiar, deixou de ter tempo para a levar à escola, que ficava longe de casa. Não chegou a aprender o á-é-i-ó-u. Aos nove anos, começou a trabalhar na cordoaria e a vida retirou-lhe a disponibilidade para um regresso à escola.

Dalila Ferreira gostava de saber "fazer" o seu nome e não esconde o fascínio das letras que preenchem as folhas em branco. Na televisão, tenta ignorar as palavras que cortam as imagens. As cartas da filha que vive na Suíça eram lidas pelas filhas que moram em Portugal. "Pedia-lhes para lerem e escreverem cartas." Cansou-se dessa azáfama, de não poder usar as próprias mãos, e decidiu comprar um telefone para se sentir mais próxima da filha. Para acabar com as frases escritas por outros e ouvir-lhe a voz. "Gostava de aprender a escrever, mas agora a minha cabeça está toda rompida", confessa.

Maria Margarida Monteiro tem 44 anos e quer aprender a ler e a escrever como deve ser. Há dois meses que se inscreveu num programa para que isso aconteça e aguarda por uma resposta. Aprendeu a escrever o nome em casa, conhece algumas letras. "Os números sei bem", sublinha. "É muito bom saber preencher uma folha", diz, de uma forma desarmante. Quando precisa de ajuda, pede ao marido ou ao filho. Quando era pequena, os pais trabalhavam no estrangeiro. Eram emigrantes e não colocaram a filha na escola. Maria Margarida trabalhou numa fábrica de malhas, fez limpezas. Agora está em casa e acha importante saber todas as letras que ainda não identifica. Juntá-las em palavras, construir frases e parágrafos, decifrar o que lhe aparece à frente, não precisar que outros olhos leiam o que não consegue. "Se soubesse ler e escrever podia ter arranjado um emprego melhor. Não está fácil arranjar trabalho e as coisas pioram para quem não sabe ler nem escrever".

Mário Torralvo tem 42 anos. Sabe ler, mas tem algumas dificuldades em escrever. Escreve o nome e frases, mas tem dificuldades nas palavras mais complexas. "Não sei escrever tudo, mas tento juntar as letras e também escrever e, às vezes, costumo pedir à minha esposa para corrigir, para ver se está bem, se não estou a escrever asneiras", afirma. "E peço à minha esposa para escrever as coisas mais difíceis", acrescenta. Andou na escola, mas não teve tempo para aprender tudo. Está desempregado da construção civil há três meses, trabalhou quatro anos num circo de um familiar, como palhaço e empregado de pista. Agora quer voltar a reaprender a escrever. Inscreveu-se num curso, que só irá frequentar se entretanto não conseguir trabalho. "Se aparecer um trabalho, não poderei ir para a escola, preciso de ganhar dinheiro", admite.

In Educare

Sem comentários:

Desde 01-01-2009


Este blog vale $140.000.00
Quanto vale o seu blog?

eXTReMe Tracker

Estou no blog.com.pt - comunidade de bloggers em língua portuguesa
Twingly BlogRank
PageRank
Directory of Education Blogs

RSSMicro FeedRank Results
Add to Technorati Favorites
Locations of visitors to this page