domingo, 13 de junho de 2010

AS NOVAS ESCOLAS

Por Daniel Sampaio

O jornal PÚBLICO de 6 de Junho perguntava: "A arquitectura pode mudar o ensino?", num interessante trabalho de Alexandra Prado Coelho sobre a renovação do Parque Escolar. O artigo informava sobre a remodelação prevista até 2015 e que envolve modificações profundas em 332 estabelecimentos de ensino por todo o país; e enunciava os seus princípios orientadores, que passam por uma diferente concepção da escola, com criação de espaços mais informais (learning street) e novas bibliotecas, equipadas com jornais, revistas e Internet. Haverá também uma abertura ao exterior, com cedência de espaço à comunidade e iniciativas dos bairros a ocorrer na escola, na perspectiva global de aumentar o conhecimento dos alunos e de os ajudar a compreender o mundo.

A minha resposta à pergunta do PÚBLICO acima referida é: sim, mas não sozinha. Vejamos porquê.

O espaço é fundamental numa escola. Para estudar, os alunos precisam de salas de aula com boa temperatura e luz adequada, um mínimo de equipamentos para fins didácticos e zonas de convívio. Novas concepções da sala de aula propõem a utilização de vários recantos (em vez do estrado, com o professor a ser o único a falar), diferente arrumação das mesas dos alunos e construção pelos estudantes de materiais que possam contribuir para a aprendizagem, numa concepção de ensino que privilegie o trabalho cooperativo. Também são cruciais novas bibliotecas, porque o livro único e o professor solitário detentor do saber já não são do nosso tempo: é preciso pesquisar e ao docente compete um trabalho de coordenação e hierarquização da informação cada vez mais importante.

O problema é que o ambiente não é tudo. De nada servirá um bom espaço, nem será possível colocar as mesas em U, se a turma tiver alunos a mais, como ainda acontece em muitas escolas. Nem se conseguirá aproveitar os benefícios da nova arquitectura, se o professor mantiver o método expositivo durante 90 minutos, porque ainda ninguém o ajudou a perceber que essa maneira de ensinar não é eficaz: os jovens de hoje concentram-se menos, mas podem fazer várias tarefas ao mesmo tempo. Nem o docente se sentirá bem se não aprender a coordenar uma pesquisa na Internet ou tiver receio em utilizar o computador na sala de aula, pois sentirá que os alunos se moverão muito melhor nesse campo. Poderá haver espaço para learning street, com o aluno a ler ou a comer em esplanadas e almofadas (como refere o artigo), mas pouca aprendizagem daí resultará, se o professor não se sentar por lá também e permanecer agarrado à sala de aula tradicional e ao velho retroprojector.

Tenho verificado como muitos professores se mantêm presos à ideia de "dar a matéria", focalizando a estrutura da aula para o aluno médio, que se espera o ouvirá com atenção durante todo o tempo. Resulta daí que se desinteressarão depressa, quer o aluno de nível superior, quer o estudante com dificuldades. Como refere o arquitecto Hertzberger, construtor de novas escolas na Holanda, há hoje muitas crianças indisciplinadas porque não estão interessadas no que estão a fazer.

O sentido do trabalho do aluno organiza-se através da relação com o professor e exige uma criatividade constante, construída a partir da inovação e sedimentada na disciplina e na exigência da escola. A modernização do espaço é importante, mas as pessoas são decisivas, por isso é fundamental capacitar os professores para as suas tarefas, renovando a confiança no seu papel e fornecendo condições para o seu trabalho.

A criatividade dos alunos é hoje reconhecida por todos os que os respeitam e gostam de trabalhar com eles. O espaço renovado contribuirá para que as suas actividades encontrem ainda mais meios de expressão, mas convém não esquecer: mudar por fora é bom, desde que se assegurem os meios para também mudar por dentro.
In Público (13-06-2010)

1 comentário:

celeste caleiro disse...

Ao Dr Daniel Sampaio convém explicar que os professores têm mesmo que "dar a matéria" senão sobra para eles...e mais, as salas vão continuar cheias de alunos, com dificuldades acrescidas devidas a falta de apoios individuais e a falta de formação de professores nas mais variadas areas das "tecnologias" e outras "modernices"...

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