terça-feira, 21 de setembro de 2010

ESCOLA CAVIAR

Acompanhar a actual ministra da Educação é o mesmo que entrar numa montanha russa emocional. Isabel Alçada consegue provocar risadas intermináveis e iras homéricas. Esta terça-feira, por exemplo, foi mesmo o ‘carrossel Alçada’. Ao almoço, engasguei-me a rir enquanto ouvia a nossa ministra numa cerimónia engomadinha: o tom afectado que Isabel Alçada colocava na palavra “carráiras” era delirante. Entre as gargalhadas, comecei a pensar em algumas perguntas ululantes: então ninguém faz uma rábula com esta ministra? Ou será que o tom afectado só tem graça quando o alvo da paródia é uma filha de um capitalista anafado, uma beata católica ou uma simples senhora da ‘direita social’? Se Alçada fosse uma ministra do CDS, já teríamos por aí um pagode com as “carráiras”?

Ao jantar, a risada deu lugar ao ranger de dentes. Uma amiga mostrou-me um vídeo onde podemos ver a Dr.ª Alçada a revelar um enjoativo paternalismo em relação aos alunos do ensino público e, pior, em relação aos pais e professores. Se colocassem um crucifixo atrás da ministra, aquele vídeo seria um peça vintage do Estado Novo. Enquanto consumia a minha neura, comecei a imaginar outro vídeo. Nesse vídeo redentor, alguém tinha a coragem de perguntar o seguinte à senhora ministra: caríssima, onde é que colocou os seus filhos e/ou netos a estudar? Na escola pública que tanto defende ou no Liceu Francês? E, depois, esta pergunta seria estendida ao primeiro-ministro: V. Exa. tem os seus filhos na idílica escola pública ou num pérfido colégio privado?

Meus amigos, o problema, obviamente, não está na colocação das crianças e dos adolescentes nos Liceus Franceses desta vida. O problema está, isso sim, na hipocrisia da esquerda caviar. De manhã, os nossos progressistas metem os seus filhotes no colégio privado (ou naqueles liceus públicos que, misteriosamente, estão sempre nas mãos da “gente de bem”), e, depois, à tarde, defendem a escola pública e cantam loas ao eduquês. Pior: estes progressistas-de-limusina atacam aqueles que querem dar aos mais pobres a possibilidade de colocaram os seus filhos nos colégios privados (ou naqueles liceus públicos que, não sei porquê, são sempre monopolizados pelos bem-nascidos). Na retórica, esta esquerda continua a defender o ensino ultra-centralizado e dominado pelo facilitismo, mas, na prática, reconhece as virtudes de um ensino descentralizado e sem contacto com o ministério do eduquês. No seu dia-a-dia doméstico, a esquerda caviar coloca os seus filhos nos colégios onde o rigor do “antigamente” ainda existe, mas, no seu dia-a-dia político, utiliza a escola pública para extirpar o “antigamente” dos hábitos dos mais pobres. Ou seja, as crias progressistas são educadas à moda antiga, mas os filhos do povão são ensinados de forma progressista. Bravo. Os resultados desta hipocrisia estão aí: Portugal é uma sociedade estática, aristocrática, sem mobilidade social. Por outras palavras, a esquerda caviar esticou a sociedade salazarista até ao interior desta sociedade – nominalmente – democrática.

Meus amigos, esta esquerda é a principal inimiga dos filhos dos mais pobres. Dezenas de amigos meus ‘perderam-se’, porque a escola das Dr.as Alçadas lhes destruiu o futuro logo à nascença. Mas, claro, não se pode falar disto. Porque o burro sou eu. Porque o “fascista” sou eu. Porque o “neoliberal” sou eu.

Henrique Raposo, Expresso, 18 de Setembro de 2010

A GRANDE MENTIRA

Por João Vieira Pereira
A palavra crise entrou de tal forma no nosso léxico que nos damos ao luxo de a menosprezar. Sentida verdadeiramente por aqueles que encontraram o flagelo do desemprego, esta crise seletiva fez-nos, na prática, mudar pouco ou nada.

Depois de tantos avisos, de tantos conselhos, continuamos como se nada fosse. O Estado não mudou nada, pelo contrário, continua a atuar como se não estivéssemos perante a mais grave crise financeira de que há memória.

Institutos públicos, empresas públicas e a administração pública continuam a gastar e gastar sem o mínimo respeito pelo dinheiro dos contribuintes. A explicação só pode ser uma. Portugal inteiro encolheu os ombros e olhou para o lado!

A começar pelo Governo que, mal tomou posse crucificou a antiga ministra da Educação e comprou a paz com os professores. O custo foi cerca de 225 milhões de euros, tanto quanto subiram as remunerações com o pessoal na educação entre janeiro e julho deste ano quando comparado com o mesmo período de 2009. Este valor equipara-se aos gastos totais do Ministério da Agricultura nos primeiros seis meses do ano.

E esta é a contribuição de pessoas como o líder sindical Mário Nogueira para o empobrecimento do nosso país. Um crime bem mais grave do que muitos que se tornaram mediáticos mas que nunca serão julgados. Dizem-me que são os custos da democracia. Discordo. É o custo de ter uma classe política podre que se verga perante pessoas irresponsáveis, que, sem saber como detêm um poder com o qual não sabem, nem nunca saberão lidar.

Maria de Lurdes Rodrigues ficará conhecida como uma má ministra que levou centenas de milhares de professores para a rua. Isabel Alçada como a boa ministra que resolveu o problema. Quando na realidade foi tudo ao contrário...

As pessoas só mudam quando confrontadas com um choque abrupto nas suas vidas, e como esta crise ainda não trouxe esse choque continuamos a brincar aos países. Já o disse antes e reafirmo. O país inteiro só vai perceber que é preciso mudar quando chegar o dia em que o Estado não tenha dinheiro para pagar salários. E esse dia está muito mais perto do que parece.

Mas como ninguém quer acreditar no que acabei de escrever continuamos a viver a grande mentira de que tudo vai bem. Teixeira dos Santos diz que não há problemas de financiamento, Vieira da Silva que a economia está de boa saúde. Vou ali encolher os ombros e já volto!

In Expresso

A SAÚDE MENTAL DOS PORTUGUESES

Transcrição do artigo do médico psiquiatra Pedro Afonso, publicado no Público, 2010-06-21 .

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.

Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

EIS A NOSSA MINISTRA

Ano lectivo 2010 - 2011: mensagem da Sra. Ministra da Educação



Já agora comparem com o seu homólogo francês:


Rentrée 2010 : message vidéo de Luc Chatel
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UM OUTRO OLHAR SOBRE OS OLHARES DA OCDE

Por Santana Castilho *

Não desisto de convocar políticos e cidadãos comuns para o debate das ideias e para o exercício de informar com seriedade e verdade. Sem informação e discussão não há vida democrática.

Há dias foi divulgado o “Education at a Glance 2010”, um olhar já clássico da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico sobre o estado dos sistemas educativos dos países que a compõem. São 472 páginas de uma complexa rede de indicadores quantitativos, tão úteis quanto perigosos. Esclareço: úteis porque ajudam a cotejar resultados de políticas, no quadro da educação comparada; perigosos porque são passados para a opinião pública sem indispensável informação complementar; porque muitos quadros nunca deviam ser divulgados isoladamente, outrossim em conjugação com outros que os clarificam e impedem grosseiras conclusões; porque, por essa via, conferem falsos fundamentos e legitimidade a políticas mais que questionáveis; porque o seu valor está hoje inaceitavelmente inflacionado e dá origem a uma política global de educação para problemas e culturas de estados membros bem diferentes; porque assumem que tudo se pode medir e reduzem as diferentes dimensões da educação ao interesse exclusivo da economia e do mercado.

Deixem-me fundamentar o afirmado com exemplos, a saber:

1. O primeiro-ministro, bem ao seu jeito e em cerimónias de abertura do ano lectivo, classificou de feito notável Portugal ter ultrapassado a média da OCDE no que toca á frequência da educação pré-escolar. É, sem dúvida, uma boa notícia. Só que o Estado e as políticas educativas seguidas pelos dois últimos governos não tiveram qualquer relevância na matéria. Das cerca de 4 centenas de novos jardins-de-infância que contribuíram para o celebrado crescimento, os dedos de uma mão sobram para contar os que pertencem á rede pública. O avanço deve-se à iniciativa de privados e de instituições de solidariedade social.

2. Logo que o documento foi publicado, a espuma dos números invadiu a imprensa e a blogosfera, tendo sido indicados, como custos por aluno, 5.011 euros para o ensino básico e 6.833 para o secundário. Todavia, se consultarmos o orçamento de Estado para 2008, ano a que se reporta o relatório em análise, encontramos um custo por aluno, no conjunto dos dois níveis de ensino, que não chega sequer aos 4.000 euros. A enorme diferença explica-se quando estudamos como é formado o respectivo indicador. E isto não é explicado. Porque não vende papel e ninguém lê. Porque não interessa à máquina propagandística do Governo. Veja-se, a esse título, o que o Gabinete de Comunicação do Ministério da Educação achou relevante e divulgou. Disse que as nossas crianças do ensino básico passam 889 horas por ano na escola, enquanto a média da OCDE é de 777 e a celebrada Finlândia se fica pelas 600? Claro que não disse! Disse que os professores portugueses trabalham, em média, mais 83 horas por ano que os seus colegas da OCDE e têm uma carga horária superior, seja qual for o nível de ensino considerado? Obviamente que não disse! Disse que os professores portugueses ganham menos que os colegas da OCDE, excepto no topo da carreira, mas que, para lá chegarem esperam mais 7 anos que eles? É o dizes!

3. “Education at a Glance 2010” tem um editorial assinado por Angel Gurria, Secretário- Geral da OCDE. São duas páginas e meia de considerações claras sobre a ideologia da publicação. Não vi na imprensa nem na blogosfera uma só referência a este relevante texto, que abre uma obra de referência sobre as políticas educativas ocidentais sem uma só palavra sobre a dimensão humana da educação. “Business”, puro e duro, explicado com a terminologia dos gurus da mão-de-obra flexível, barata e adaptativa. Traduzo, livremente, um parágrafo igual aos outros, que é paradigma do género: “… A edição de

2010 mostra que os recursos públicos injectados na educação permitem, a termo, gerar retornos fiscais ainda mais importantes. Em média, nos países da OCDE, um homem diplomado pelo ensino superior gera mais 119.000 USD de IRS e contribuições sociais, ao longo da vida activa, que outro que apenas tenha formação secundária. Mesmo depois de deduzidas as despesas públicas necessárias à formação superior deste homem, sobram 86.000 USD, ou seja, aproximadamente 3 vezes o investimento público por estudante do terciário …” Este naco de prosa não surpreenderá os que têm memória, já

que pertence ao mesmo autor que em Lisboa, aquando da apresentação do relatório da OCDE sobre Portugal, referente a 2008, afirmou que o que era importante era fazer reformas, independentemente dos seus resultados.

É preocupante que hoje se aceite, quase de forma consensual, a tradução das realidades complexas dos sistemas educativos em simples baterias de indicadores. E que daí resulte uma hegemonia que instituições de cariz económico transnacionais exercem sobre os académicos e os governos nacionais, substituindo a racionalidade e a cultura pela fé na engenharia estatística. Basta que recordemos alguns dos objectivos fundadores da OCDE (promover o crescimento económico sustentável; promover o emprego; garantir a estabilidade financeira dos estados) e os confrontemos com a situação vivida pelos cidadãos no seio dos respectivos estados membros, para sentirmos uma comovente admiração pela fidelidade dos crentes.

* Professor do ensino superior.
s.castilho@netcabo.pt


Fonte: http://www.scribd.com/doc/37467899/Um-Outro-Olhar-Sobre-Os-Olhares-Da-OCDE

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

MANIFESTAÇÃO DE PREFERÊNCIAS E OS PROFESSORES CONTRATADOS

A manifestação de preferências e os Professores contratados de longa duração

A própria designação no aviso de abertura de “concurso nacional com vista ao suprimento das necessidades transitórias de pessoal docente” encontra-se em contradição com a realidade profissional vivida pelos Professores que têm 10 ou mais anos de tempo de serviço. Decorre que, para alguns milhares de Professores contratados, poucos, não chegam à meia dezena no universo dos 30 000 referidos na comunicação social, esta fase do concurso consiste essencialmente em colocar o “Sim” no campo em que manifestam a sua pretensão da renovação da colocação de 2009. Porque, para além do trabalho meritório desenvolvido por estes docentes, e que é evidenciado pela vontade expressa pelas Direcções das escolas em procederem à renovação dos contratos, verifica-se um requisito fundamental para que a renovação possa acontecer, que é a existência de condições para a manutenção dos seus horários para o ano lectivo seguinte. Esta situação que ocorre nos últimos 5 anos tem originado que a grande maioria dos Professores contratados de longa duração têm tido a renovação dos seus contratos anuais devido à existência continuada de serviço lectivo. O que permite concluir que os docentes que têm 10 ou mais anos de tempo de serviço não se encontram a satisfazer necessidades transitórias, como o aviso de abertura do concurso refere, mas sim permanentes e continuadas do sistema educativo português.
Foram notícias no início de Agosto, a autorização dada pelo Ministério das Finanças para abertura de um concurso para vinculação de auxiliares educativos e funcionários administrativos ao Ministério da Educação e uma outra em que fonte do Ministério das Finanças referiu ao Correio da Manhã de 11 de Agosto que “admite excepções ao congelamento de admissões na função pública para 2011.”
São, obviamente, excelentes prenúncios para os Professores contratados de longa duração, que ainda que concorram para a satisfação de necessidades transitórias, é mais do que evidente que são agentes indispensáveis para o normal e regular funcionamento do sistema educativo português.

Pedro Gomes Vieira
Grupo de reflexão sobre a vinculação de Professores contratados

Desde 01-01-2009


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