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sábado, 10 de setembro de 2011

NUNO CRATO NÃO SABE O QUE É UMA ESCOLA

"Nuno Crato não sabe o que é uma escola"!

É assim que, em entrevista ao Correio da Manhã de hoje, disponível em texto e em vídeo, o Professor Santana Castilho, que nos habitou a análises isentas e incisivas, se refere ao Ministro da Educação. O Professor não perdoa a Passos Coelho e a Nuno Crato não só a falta de palavra, como alguma impreparação governativa em geral, e na Educação em particular.

Uma entrevista a ler e/ou a ouvir.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

ENTREVISTA DE NUNO CRATO, EM JUNHO DE 2010

Tem cerca de um ano, mas vale a pena (re)ler esta entrevista de Nuno Crato, ao Ionline, em Junho de 2010, e da qual apresentamos aqui apenas duas questões.

No caso da actual ministra, é uma mais-valia?

Acho que sim. Tomou algumas medidas positivas. Uma delas foi a declaração de que ia fazer o exame de entrada na profissão para professores. A ministra anterior disse isso, passou três anos, conseguiu criar conflitos com toda a gente, mas não quis fazer o que era essencial, que era esta medida. Não teria criado conflitos quase nenhuns.


A avaliação dos professores...

... é indispensável. Mas feita com a avaliação do seu trabalho e o resultado do seu trabalho é o que os alunos sabem.



terça-feira, 27 de abril de 2010

ISABEL ALÇADA ENTREVISTADA PELO DN

Quando é que jornalistas e Ministério percebem que a luta é com os professores?
Cada um tire as suas conclusões...


Entrevista a Isabel Alçada
"Linguagem de ameaça, conflito ou guerra não resolve"

Desde o 25 de Abril que o Ministério da Educação é dominado por ministros homens. Com Maria de Lurdes Rodrigues iniciou-se um ciclo feminino de pólos opostos na actuação, pois Isabel Alçada parece interessada em diminuir tensões entre os vários parceiros do sector. Após um primeiro acordo e uma primeira crise, a ministra comenta a situação

Se estivesse a escrever mais Uma Aventura, estaria agora a viver o primeiro grande momento de acção desta aventura ministerial?

Não! Nas Aventuras capturamos o leitor muito cedo na história.

Esse foi aquele primeiro momento, o acordo com os sindicatos?

Houve sempre muita acção, pois desde o início que havia muitos assuntos para tratar e negociar com os parceiros e os sindicatos.

Mas a sua entrada no ministério não fez um corte com o passado?

Sigo uma política na mesma ordem de ideias, porque temos como ponto essencial a qualidade da educação e do ensino. Que passa, no último caso, por uma abertura total do sistema educativo a todas as pessoas que têm idade para o frequentarem - desde o pré-escolar até ao 12.º ano - e, no primeiro caso, tem a ver com a equidade e igualdade de oportunidades, mesmo que diferenciada. Quando entrámos, esta equipa manteve, em articulação com o Governo, que haveria introdução de modificações em alguns pontos, nomeadamente na estrutura da carreira docente e na avaliação.

Só que, ao não ter feito esse corte, confronta-se agora com uma guerra declarada pela Federação Nacional dos Professores (Fenprof).

Não é uma guerra!

Foi a expressão usada.

Usaram, mas eu não. É um conceito que não uso porque a nossa forma de trabalhar é a negociação e o diálogo para chegar a um entendimento. Quando há momentos em que não há entendimento sobre alguns pontos, as pessoas têm o direito de se manifestar de acordo com aquilo que está legislado.

Porque é que os sindicatos se sentiram surpreendidos com a manutenção do modelo de avaliação?

A isso não posso responder-lhe porque, na verdade, nunca dissemos que a avaliação não ia contar. Até porque tivemos mais de cem mil professores que entregaram a avaliação; nas escolas houve um trabalho consistente e houve muito investimento por parte das pessoas.

Mas os sindicatos pareceram surpreendidos?

Pois, a isso eu não sei responder.

Foi uma rasteira do ministério?...

Nem por sombras!

Deixe-me acabar a pergunta…

Nunca na minha vida preguei rasteiras a ninguém, nem nunca o farei.

Então foi uma falta de atenção por parte dos sindicatos?

Não sei! É verdade que sempre falaram na possibilidade de isso acontecer. Nós, nas reuniões com os sindicatos, vimos as propostas e depois negociámos alguns pontos. Ouvimos, registámos que era essa a posição mas nunca dissemos que isso ia acontecer.

E agora, usando a palavra deles, partem para a guerra. Está criado um cenário de contestação e de crise?

É preciso entender que este concurso tem uma dimensão restrita. O que acontece é que achámos que não era legítimo não cumprir a lei.

Que os sindicatos achavam que estava suspensa.

Fomos muito claros quanto a isso: a lei não estava suspensa. O que agora solicitaram foi que alterássemos a lei, mas dissemos sempre que não íamos fazer alterações retrospectivas, apenas uma alteração prospectiva para não desrespeitar o investimento e o trabalho de muitos professores que foram avaliados com Muito Bom e Excelente. Senão, os que não se submeteram à avaliação seriam beneficiados pela infracção.

Os sindicatos dizem que a aplicação informática que existe não aceita as boas notas, só até ao 7,9!

A aplicação vai aceitar a nota que foi atribuída. Não haverá prejuízo.

E referem que o ministério tinha uma outra aplicação de modo a suspender essa classificação.

Pois, dizem-no mas não sei de onde é que isso vem. Temos as coisas ajustadas para que sejam adequadas àquilo que estamos a propor. Toda a gente sabe que os concursos para colocação dos professores, mesmo os de mobilidade, exigem uma competência técnica. Portanto, foram previstas alternativas mas as aplicações informáticas estão adequadas àquilo que é a situação.

Às intenções do ministério?

Exactamente.

A Fenprof avançou com as providências cautelares. Vão ter efeito?

Não me parece que a linguagem de ameaça, de conflito, de guerra resolva! É a posição deles, nós vamos continuar a trabalhar com serenidade e ver os efeitos do nosso trabalho, e vejamos os efeitos da posição dos sindicatos.

Que recorreram ao Parlamento para tentar impedir a avaliação por decreto.

Vi isso na imprensa e até já pedi à minha chefe de gabinete para ligar para a Assembleia para agendarmos a nossa ida.

Até conseguiu unir o PSD e o PCP na contestação à avaliação!

Não sei se é contestação ou se é um pedido de esclarecimento. Do meu ponto de vista, a principal qualidade de um professor é a competência científica e um professor tem de dominar muito bem a matéria que ensina. Também tem de estar aberto a, continuadamente, aprofundar o estudo para se ir actualizando e acompanhar a evolução da disciplina científica que trabalha.

Mas hoje muitos professores vêem a actividade como uma saída de emprego e não como vocação.

Talvez as pessoas possam pensar isso mas quem está por dentro, quem está com alunos, gosta de ensinar. Há momentos em que há um brilho especial na nossa profissão, porque o comunicar com os outros, o levar os outros a desenvolverem--se, traz uma alegria especial.

Pensava-se que ao aceitar ser ministra iria romper com a conflitualidade entre professores, sindicatos e ministério. Conseguirá que os professores pendam para o ministério e não para os sindicatos?

Até tenho uma ambição maior: queria que houvesse uma harmonia de forma a que tivéssemos um entendimento, embora com divergências. Mas não podemos viver com divergências e sem conflitualidade permanente porque é péssimo na relação humana. É preciso que as pessoas dialoguem, que possam mostrar que há pontos de vista que são divergentes e que, quando se chega à decisão, que prevaleça a decisão mais benéfica para o país, para os que estão no sistema educativo e para os alunos.

Os sindicatos embarcarão na tese do diálogo e entendimento?

A minha expectativa é que sim, que os sindicatos tenham a abertura que nós também temos. Que é uma abertura de aproximação, de ouvir seriamente e com atenção os pontos de vista alheios para podermos ver onde é que está o interesse de todos.

Depois, decide soberanamente?

Claro que há vários órgãos de soberania. Nós temos um papel importante, o Governo e o Ministério da Educação têm um papel, a Assembleia da República terá outro e, na verdade, os sindicatos também são ouvidos nas várias instâncias. E há também os pais, que têm um papel importantíssimo.

Creio que está a tentar seduzir os professores a olharem para o ministério como sendo o órgão que os representa. Vai conseguir isso?

Acho que sim, porque estamos a fazer aquilo que acreditamos que é o melhor para o País, e os professores também reconhecem isso. Reconhecem que queremos que as escolas tenham as melhores condições no que respeita às instalações, equipamento, horários, organização do ano lectivo, em todos os domínios do currículo e outros. Naturalmente, quando fazemos um esforço, esperamos que seja entendido por quem se dirige. Neste caso, é para beneficiar as novas gerações e os alunos que estão a estudar. Aliás, até o professor Marçal Grilo sempre disse que deveria haver um pacto no quadro da educação, um pacto educativo. Usou--se esta expressão e noutros países ainda continua a ser usada.

E acha que até ao fim do seu mandato conseguirá criar esse pacto?

Não estou a pensar numa meta que seja definida agora, pois a educação e os processos sociais são sempre evolutivos e há sempre uma dinâmica de interacção. Sinto é que tem de haver uma dinâmica positiva para que todos invistam num bem essencial: educar mais e melhor.

Terá de haver, então, uma prática de entendimento?

Eu julgo que já há.

A palavra guerra é apenas fogacho?

O que se ouviu falar diz respeito unicamente a um concurso para mobilidade. Vemos que, em relação aos nossos pontos essenciais de política educativa, as pessoas aceitam com entusiasmo. Todos percebem que temos de traçar uma meta muito clara em cada momento para que se saiba se a queremos atingir e saber onde é que a meta está.

Este não é o princípio de um braço-de-ferro. Vai ficar por aqui?

Não tenho a expectativa ingénua de que os caminhos se fazem sem peripécia. Mas também sem peripécia não há vida. Tem de haver alguns pontos com divergência, mas, depois, há momentos em que temos de ponderar e analisar bem e, então, tomar decisões tendo em conta os elementos de que dispomos e, ao mesmo tempo, ir sempre e continuadamente auscultando os parceiros, a vivência e a informação.

A sua antecessora tinha uma posição menos dialogante. Acha que acreditam na sua fé no diálogo?

Se não acreditarem estão equivocados, porque quando nós dizemos uma coisa é mesmo para cumprir. Eu sempre na minha vida procurei ser clara, evitar os equívocos.

Já esteve na mesma mesa com o Mário Nogueira?

Sim, com certeza.

Acha que ele acredita na sua perspectiva de diálogo?

Espero que sim, mas eu não gosto de atribuir intenções aos outros. Fazer juízos de intenção é um erro não só na política como na vida. Aceito aquilo que me dizem como o que as pessoas querem fazer e estão a pensar, sempre fui assim e continuarei. Eu própria faço isso! Se a pessoa tem alguma intenção escondida que não me está a dizer, o tempo o dirá. Mas eu nunca tenho.

Mas considera que há muita manipulação política nestas discussões?

Sim, mas os assuntos são tão importantes e tão directamente relacionados com a vida das escolas e das pessoas que o contexto político que está por trás não pode, de alguma maneira, alterar a identificação das questões essenciais daquilo que está na mesa. Não pode ser criado um ruído de fundo ou uma penumbra que nos desvie de ver o que é essencial em cada ponto. A educação é muito complicada e muitas vezes o facto de estarmos a analisar uma realidade tão complexa ofusca a identificação do que é essencial, e isso é, neste campo, talvez um domínio sobre o qual nós não podemos arredar nem um milímetro de procurar o essencial. Se estamos a tratar o acessório, comprometemos o futuro imediato daqueles que estão no sistema educativo e podemos estar a comprometer o futuro a curto e a longo prazo da educação durante décadas. E não gosto de falar nas noites das trevas e do passado…

Mas é quase isso que se vive?

É quase isso porque quando não se acreditou na educação vivia-se quase num clima de trevas.

O próximo 1.º de Maio vai ser um teste ao Ministério da Educação?

Não, nunca vejo as coisas como testes, porque observo o processo com alguma distância. Quanto à manifestação das pessoas, tomo-a em consideração sem dúvida. Mas não são testes, não é braço-de-ferro.

Nos últimos anos o ministério tem fechado os olhos às manifestações de rua. Também o vai fazer?

Não estou a antecipar uma situação destas. Temos um acordo com os sindicatos e propostas que sinto que as escolas e as famílias estão a aceitar.

Os sindicatos dizem que esta questão da avaliação é por ordem do primeiro-ministro. É verdade?

Não, apesar de haver uma sintonia muito grande no Governo. Mas as coisas são analisadas e em relação a este ponto posso dizer que é da minha total convicção o que estou a propor. Eu trabalho sempre assim. E nesta actividade é uma responsabilidade tão grande que uma pessoa tem diariamente de ou está muito convicta ou então é preferível não estar à frente de um ministério. É um trabalho de uma natureza exigentíssima e não pode haver inconsistência.

Pretende cumprir o mandato até ao fim?

Sim.

Não lhe vai acontecer o mesmo que à ministra Ana Jorge, quando anunciou o fim da unidose, e que teve uma conversa particular com José Sócrates para realinhar o discurso?

Neste caso, e noutros, o processo da decisão é com base no nosso entendimento e, naturalmente, que dialogamos com o primeiro-ministro e, também, com os vários ministérios que intervêm.

Sente essa camaradagem por parte do Ministério das Finanças?

Sinto. Há um diálogo, mas percebemos que estamos a viver uma crise internacional e que o nosso país está a responder à crise internacional com várias medidas, nomeadamente até na área da educação. Houve medidas como o aceleramento das construções escolares e a reabilitação do parque escolar que foram benéficas para a educação e, também, uma medida para a criação de emprego. Os partidos até me têm questionado por existir um ajuste directo - exclusivamente - nos projectos de arquitectura das escolas.

Foi um ajuste directo que lhe valeu algumas críticas e suspeitas.

A questão não é essa. A Parque Escolar é uma empresa pública do Ministério da Educação que tem tido um êxito estrondoso. Mas, se a Parque Escolar não tivesse os projectos de arquitectura prontos a tempo, não poderia desencadear os processos para lançar os contratos públicos dos projectos de engenharia, de construção e de fiscalização. No caso desses projectos de arquitectura, foi uma percentagem mínima - 5% - os que foram feitos por ajuste directo, mas compreendo que esta seja uma possibilidade de trabalho magnífica para profissionais que são competentes, e é natural que mais arquitectos quisessem apresentar as suas propostas.

Uma das suas metas é baixar o abandono escolar, que é superior ao europeu. O que vai fazer?

Na Europa, a meta é baixar de 18% para 10%, mas no nosso secundário ainda temos valores superiores aos 30%.

E acha que vai conseguir baixar?

Sim, mas isso é para 2020, quando a maior parte dos nossos jovens já frequentarem os 12 anos de escolaridade. Estamos a trabalhar para reduzir o abandono escolar, e para isso é preciso sucesso escolar. Neste momento, temos percursos com metas visíveis e as metas visíveis encorajam.

A massificação do ensino diminuiu em muito a qualidade. Para quando a melhora do nível?

É o que dizem, mas o que pergunto é se diminuiu a qualidade média. Há uma qualidade altíssima no nosso sistema, mas também há muito mais diversidade. Há uns anos, a percentagem de pessoas que frequentavam o secundário era ínfima e nunca tivemos como agora alunos nas estatísticas europeias ao verificar-se um acréscimo de 200% de diplomados em matemática e ciência no nosso país.

Mas o estado da matemática e do português são terríveis em Portugal.

Os resultados não estão ao nível das nossas expectativas, mas globalmente, em termos quantitativos, há muito mais gente a saber matemática do que havia há 10 ou 20 anos. Tínhamos tão poucos...

Entre as várias mudanças que propõe está mudar as disciplinas de História e Geografia de anuais para semestrais. Tendo em conta que foi professora de História e de Geografia, não lhe custa fazer isso?

Não me custa nada! A ideia que temos, sobretudo no terceiro ciclo, é que há muitas disciplinas. Se perguntar a um aluno quantas disciplinas tem, ele não consegue responder. Se perguntar a um pai, também não o consegue e, às vezes, os próprios professores não sabem bem quantas são. É uma proposta que está sobre a mesa mas que nem sequer foi regulamentada. Temos 22 escolas que têm contrato de autonomia, algumas já fizeram esse trabalho e consideram que foi muito benéfico porque os jovens concentram a sua aprendizagem. Muitas vezes estamos agarrados a soluções julgando que são as únicas soluções, mas há sempre vários caminhos para tudo.

É essa teoria/prática que usa nas negociações sindicais?

Em tudo! Mas, neste caso, os professores e as escolas têm competência para decidir e sabem qual é a melhor solução. Não há motivo para ser o ministério a dizer que a regra é esta porque esta é a melhor de todas. Porque é que não hão-de ser as escolas e os agrupamentos a decidir qual é a melhor solução para aquele grupo? Estes processos acontecem assim noutros países.

Uma das situações que preocupam os portugueses é o bullying nas escolas. Como e quando se combaterá a violência escolar?

O problema é real em todo o mundo. Como não gosto de desvalorizar as coisas que existem e que são prejudiciais para as crianças, temos de dar muita atenção a cada caso. Devemos ter hoje em dia uma intervenção mais protectora e atenta, porque estamos mais informados e preparados. Temos mais obrigação do que nunca de tratar uma situação que, na verdade, sempre houve. E hoje há mais porquê? Porque há muitas mais crianças na escola, o nosso sistema educativo tem quase um milhão e meio de crianças e oito mil escolas.

As direcções das escolas e o pessoal não docente estão sensibilizados para esses casos?

Não tenho dúvida de que estão. Se me perguntar qual é a preocupação primeira de um director, digo logo que é a harmonia na convivialidade da escola, a par da aprendizagem. Mas a harmonia, a convivialidade, a segurança e a disciplina são prioridades. Eu já fui directora, tenho muito contacto com directores, e sei o que é que se passa nas escolas e que os professores preocupam-se muito. Aliás, posso dizer também que a maior causa de ansiedade do professor é a indisciplina. A agressividade vem a seguir à indisciplina e à violência, que é o limite máximo da indisciplina. Muitas vezes o que acontece é que, se a pessoa gere bem a questão da indisciplina, evita o recrudescimento de outras situações. E os professores têm hoje na sua formação inicial essa componente.

Essa agressividade tem gerado casos de suicídio como os que foram noticiados nas últimas semanas.

Não, isso não é verdade. Eu partilho absolutamente da visão e da análise que o professor Daniel Sampaio tem feito e vindo a publicar. Ele chama a atenção para os casos-limites, como é o caso de um suicídio, e refere que nunca é apenas devido a um factor externo. Nunca é só a profissão, a situação familiar ou a situação amorosa, há uma conjugação de factores que têm a ver com a personalidade das pessoas.

São casos extremos?

É um caso extremo. Ainda por cima, a escola não é um local onde se morra. Uma pessoa admite que num hospital possa haver uma fatalidade tremenda, mas quando um jovem ou um adulto jovem morre é tremendo e a escola fica num estado de consternação. O que temos de fazer é dar apoio, é isso que nós temos feito.

O caso do Leandro e o do professor que se atirou da Ponte 25 de Abril colocaram o ministério numa situação complicada?

O ministério tem há vários anos um gabinete de segurança escolar e um observatório de segurança escolar exactamente para prevenção dessas situações e para actuar. Evi- dentemente que são circunstâncias trágicas as da morte de uma pessoa numa escola. Nós sofremos, mas não é só por isso que actuamos - é que sabemos que os pais entregam os filhos às escolas para que estejam em segurança.

O ano de 2011/2012 é o ano apontado para introdução do Acordo Ortográfico nas escolas. É a favor?

Sou a favor. Acho que a língua evolui e neste caso houve um entendimento com vários países e, em termos internacionais, é uma afirmação do português no mundo. Considero que o Acordo Ortográfico é um factor benéfico e temos um planeamento já feito para a sua introdução. Não é muito complicado, pois na verdade é só ortografia e estamos articulados com outros ministérios. Os professores podem perfeitamente integrá-lo estudando as alterações.

Quando é que vai renovar a sua equipa?

Renovar a minha equipa?!

Não pretende?

Não, não pretendo. Tenho a sorte de ter uma equipa que é muito consistente e estamos a trabalhar em pleno. O que temos vindo a fazer é de modo a nos identificarmos, e também com a linha do Governo. Pretendo que ao longo do mandato esta equipa se mantenha.

Quando vai escrever Uma Aventura no Ministério?

Isso nunca iremos escrever, posso garantir. Uma coisa é a ficção, outra coisa é a realidade. Na nossa ficção, inserimos elementos de realidade e até procuramos ensinar. Agora, quando estou perante o País, a analisar a realidade, eu tento não me confundir com a ficção.

terça-feira, 16 de março de 2010

É PRECISO FAZER UM "RESET" AO SISTEMA

Clicar na imagem para ampliar.


In Diário de Notícias (14-03-2010)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

DUAS ENTREVISTAS

Rosário Lira entrevista a presidente do Conselho Nacional de Educação, Ana Maria Bettencourt: http://tv1.rtp.pt/


Maria Flor Pedroso entrevista Mário Nogueira: http://tv1.rtp.pt/antena1

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

SÓCRATES MENTE E IRRITA-SE

O secretário-geral do PS foi o convidado da Editora de Política da Antena, jornalista Maria Flor Pedroso.

Ao que consta, não permitiu que fossem colhidas imagens. Por isso, a entrevista tem apenas suporte sonoro. Sócrates azedou-se e mentiu ("Os professores nunca tinham sido avaliados?"). Afinal, Sócrates governou para quem?

O tema da "Educação" começa por volta dos 15 minutos!


Aqui encontra um comentário interessante sobre a entrevista.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

OLHA P'RA ELA!

Caro saiu ao País o atraso que provocou no ensino/escola pública, o confronto com os professores, os subsídios albinos e o ordenado que recebeu durante estes quatro anos.



Entrevista
“Paz com professores vai sair muito cara ao país”
Maria de Lurdes Rodrigues diz que a oposição erra ao tentar “comprar a paz com os professores”.

Durante toda a entrevista, Maria de Lurdes Rodrigues manteve a determinação que lhe é reconhecida e que os opositores, nomeadamente os sindicatos, caracterizam de teimosia. A ministra da Educação fez o balanço do mandato e respondeu aos críticos dentro do PS. Quanto às promessas da oposição, avisa: "Estão a comprar a paz com os professores por um preço que o país não pode pagar".

O PSD já disse que se vencer as eleições vai deitar abaixo algumas das suas principais reformas...

Já vimos muitas coisas voltar atrás, com efeitos muito negativos para o país. Procurei conduzir a política educativa ao longo destes quatro anos valorizando e potenciando a herança que recebi. Podíamos simplesmente ter destruído a introdução dos exames no 9º ano, decidida pelo governo anterior. Mas considerámos que era muito importante não ter hesitações nessa matéria. Houve, nos últimos anos, decisões muito importantes de outros executivos que foram decisivas para algumas realizações deste mandato. Se a atitude for "vamos ver o que é que eu consigo destruir do que o meu antecessor fez", isso é muitíssimo negativo e certamente prejudica o sistema educativo que, ainda por cima, tem na memória muitos traços dessas hesitações. Procurei imprimir uma orientação de total respeito pelas heranças que recebi, colocar o interesse do país, dos jovens e das famílias acima de qualquer outro interesse e continuar o caminho daquilo que são grandes consensos.

In Diário Económico.

domingo, 26 de julho de 2009

ENTREVISTA DA MINISTRA QUE NUNCA FOI AVALIADA

Sem qualquer comentário (apenas com um detasque a vermelho), aqui fica a entrevista da ministra da Educação ao Diário de Notícias.


Entrevista: Maria de Lurdes Rodrigues
"Mais importante que as pessoas são as políticas"
por JOÃO CÉU E SILVA

A ministra da Educação garante que mais importante do que a pessoa que ocupa o cargo na Avenida 5 de Outubro é a política educativa a definir a longo prazo, para que Portugal recupere do atraso em que se encontra nesta área.


O seu nome surge em 598 mil referências na Net. É a portuguesa mais comentada, supera Ana Malhoa e Luciana Abreu juntas. O que sente ao ter tanta visibilidade?

Não procuro o meu nome na Internet e não sinto nada de especial em relação a isso.

Quererá dizer que é muito pressionada?

É natural, porque a Educação é um sector de grande relevância e dimensão. Se temos um milhão e quinhentos mil alunos, com pai, mãe e familiares, 150 mil professores, 48 mil profissionais e 1200 agrupamentos escolares espalhados por todo o País, é natural que suscite curiosidade e interesse. Não me impressiona essa visibilidade, porque o que importa é a percepção dos problemas e desafios para nos aproximarmos de países com que nos identificamos.

Mesmo sem nunca haver entendimento?

Não diria tanto e nem sei se é um problema de entendimento. Há duas percepções que se suportam mal: uma é a grande conflitualidade e a outra a hesitação nas sucessivas reformas. Da primeira diria que a conflitualidade tem uma expressão muito grande porque não existe outra entidade empregadora com 150 mil funcionários. Mesmo em grandes grupos económicos - que só têm um interlocutor - há repartição por sectores, em que os confrontos se diluem em vez desta distorção em que basta um pequeno conflito para dar a percepção de que a Educação está em permanente conflito quando há zonas do sistema que estão consensualizadas e pacificadas.

Haverá zonas de consenso mas, de todos os ministros, e até dos primeiros-ministros, é quem tem enfrentado as maiores manifestações contra as suas políticas!

A memória é curta, pois no tempo de Roberto Carneiro houve manifestações equivalentes e por razões semelhantes. Existe a tradição de certa conflitualidade, mas tal não significa que toda a Educação viva assim em permanência. Mesmo neste mandato, com profundas mudanças, houve algumas relativamente pacíficas: a mudança do modelo de gestão e administração das escolas, com a passagem dos presidentes do Conselho Executivo para directores, que é um processo concluído em quase todas as escolas e que se desencadeou sem grande conflitualidade.

Mesmo com escolas que não aceitaram?

Sim. Em 1200 escolas existem quatro ou cinco casos... São níveis de conflitualidade marginais, só que têm grande expressão na imprensa.

Até com os tribunais a dar-lhes razão?

Na administração pública deve haver centenas de processos em tribunal de que ninguém fala e a área jurídica não é uma ciência exacta! O que acontece com a Educação é que qualquer pequeno conflito é o suficiente para que tenha uma enorme visibilidade e se crie a ideia de que houve um grande conflito. Houve áreas, como no processo de transferência para as autarquias, em que foi um movimento muito consensual no País.

Explique-me então a razão de protestos tão grandes como já não se viam há anos.

Uma coisa é viver os protestos, que foram de facto muito expressivos, e outra é a pequena conflitualidade, que tem uma grande visibilidade. E depois há a grande conflitualidade em torno da avaliação e do Estatuto da Carreira Docente, que foi muito expressiva por envolver o grupo profissional dos professores mas não os pais nem os outros profissionais. O conflito é grande porque tem de ter a expressão da dimensão do grupo.

Não esperava protestos tão gigantes?

Acho que ninguém está à espera dos episódios menos agradáveis. Ninguém faz um plano para ser ou não surpreendido com os aspectos menos confortáveis, porque é isso que os conflitos são. Ninguém deseja um conflito, mas isso não significa que não se deva encará-lo com determinada naturalidade, porque também fazem parte da vida. Não temos de os alimentar, mas compreendê-los e procurar resolvê-los.

Se fizer a contabilidade, tem 8 grandes greves, 7 grandes manifestações, 3 vigílias, 2 cordões humanos e 8 abaixo-assinados com 320 mil assinaturas. Bateu o recorde?

Não fiz essas contas, mas recordo-me bem que antes de ser ministra a ameaça de greve aos exames estava sempre presente. Greves sempre houve e era inte- ressante fazer um levantamento delas, mas, de facto, a expressão dos conflitos neste mandato foi muito evidente, tal como a profundidade das mudanças que procurámos concretizar. Mudanças em que se pedia às pessoas que se organizassem de forma bem diferente do que era a tradição e do convencionado. São naturais estas reacções e podem-se explicar, mas não significa que aceitemos os pontos de vista. Creio que os conflitos são resultado da perplexidade e da incerteza de não se saber como vai ser.

Pode dar um exemplo?

Foi o caso do ensino artístico, em que tivemos uma contestação fortíssima e depois veio a acalmia. Ouviu-se falar de ensino artístico este ano? Não. E a reforma foi feita, provando às pessoas envolvidas que a reforma melhorava as condições de todos. E aumentámos em 40% o número de alunos bem como o emprego no sector. O que é que explica a reacção inicial? A incerteza.

O ensino artístico é um sector ínfimo.

Estou a dar só um exemplo, pequeno, que teve muita expressão e mobilizou muitas escolas e professores. O que procurei foi analisar, verificar e, nuns casos, prosseguir, noutros, ajustar.

Talvez metade das 598 mil referências na Net são a dizer que a ministra é muito teimosa e que não muda a posição mesmo com 180 mil pessoas a protestar na rua.

E a outra metade das situações é positiva? Já ficaria contente.

Não, não creio que sejam positivas. O conflito no ensino artístico pode ter sido ultrapassado, mas a avaliação e o Estatuto da Carreira não. Porquê? É a forma da mensagem ou porque mexe em corporações?

Não é um problema exclusivamente de mensagem, mas de compreensão do sentido das novas regras. Uma proposta de mudança diz respeito a novas regras e, por vezes, há discordância total, porque não se entendem os efeitos imediatos ou a prazo e reage-se por muitas razões. Também tivemos reacções às aulas de substituição, à escola a tempo inteiro e a outras medidas. No caso do Estatuto, estou convencida de que há uma diferente visão do que deve ser a organização da carreira dos professores. No que respeita à avaliação, acho que é outro problema, mas também a dificuldade em compreender qual será o impacto das novas regras. É preciso mostrar que os professores podem ter ganhos ao premiar-se o mérito. Com esse processo decorrido no primeiro ciclo, será mais fácil fazê-lo no segundo.

O modelo de avaliação que quer implantar ainda não passou da versão simplificada?

Sim, mas no essencial a sua estrutura de princípios não difere muito do modelo inicialmente proposto. Entendeu-se que há um caminho a percorrer mais lento do que inicialmente gostaria, mas não modifica a natureza do objectivo.

Mais lento porque os sindicatos dos professores não aceitam essas medidas?

Sim. Na realidade, não aceitam a avaliação. Escudam-se por detrás dos argumentos de modelos deste ou daquele tipo de avaliação, mas o que acontece é mesmo a rejeição da avaliação.

Os professores recusam ser avaliados?

Há uma rejeição que se pode exprimir através dos mais diversos argumentos. De que não é este o melhor modelo, que não é com estes professores, que não é na escola... É sempre assim porque, quando não estão de acordo, aí, todos os argumentos são válidos para contestar.

É da opinião que os sindicatos são contra porque os docentes evitam ser avaliados?

Não diria isso, porque acho que muitos professores querem ser avaliados e a prova é que houve uma grande adesão mas também há muito receio neste processo. E aqui os bons professores podiam ser um motor de mudança, porque não há nenhuma razão para um bom professor ter medo da avaliação. Os bons professores não podem ter medo nem misturar-se no ruído que apela à indiferenciação e a considerar que todos são iguais. Houve cem mil professores sujeitos à avaliação este ano e é por aqui que o terreno tem de ser conquistado, a bem das escolas e dos próprios professores. Há uma parte significativa de professores que tem medo da consequência.

Muitos não entregaram os objectivos.

Não é grande o número dos que não entregaram os objectivos ou que continuam a rejeitar a avaliação. A minha expectativa é que tudo se ajuste.

Defende a avaliação mas durante a sua carreira académica não foi avaliada?

Não?

É uma pergunta, o que estou a fazer.

Gostava de dizer que não são as experiências pessoais que dão a legitimidade para a tomada de decisão, nem acho que a legitimidade política venha dessa perspectiva. A legitimidade política vem da legitimidade democrática e os ministros são apenas agentes na condução da política, havendo muitos aspectos que estão para além da própria experiência pessoal. Mas, para que a pergunta não fique sem resposta, e apesar de considerar que não é relevante, não é por eu ter sido avaliada quatro vezes - com prestação de provas públicas perante júris externos que avaliam a carreira docente - que acho que os professores têm de ser avaliados. O problema disto ser muito sentido pelos professores é porque os sindicatos demoraram 30 anos a construir a situação em que estamos, a que anula todas as diferenças. A única diferença que os professores aceitam é a do salário: eu sou mais velho, ganho mais, tu és mais novo, ganhas menos. Não importa o que fazem ou as responsabilidades. Isso é resultado do trabalho sindical de muitos anos. Eu compreendo as reacções, mas não significa que as aceite. O que estava a acontecer põe, a prazo, em causa o próprio sentido de carreira.

Da ronda de negociações que se verificaram esta semana pouco resultou porque a posição da ministra não muda.

Não é verdade! Os sindicatos tiveram oportunidade de propor alterações. Não o fizeram e nada mudou porque o que querem desde o início é parar e anular os efeitos da avaliação. Neste momento, anulá-los significa premiar os professores que não a fizeram e castigar os que participaram. É dizer a todos os que terão classificações de muito bom e excelente que não vale nada.

Quantos anos calcula serem necessários estar no ministério para ganhar a batalha?

Não coloco as coisas nesses termos. Eu diria que mais importante que as pessoas são as políticas e, portanto, não é por uma pessoa se manter, por ser este ou aquele ministro, que o sentido das políticas que define e as condições para a sua execução o torna indispensável.

Que tempo demorará a impor a avaliação?

Não é um problema de estar este ou aquele ministro, temos de ter políticas com objectivos e com ambição. Existe um relativo consenso na sociedade sobre as matérias da Educação, por isso foi relativamente fácil aprovar o alargamento da escolaridade obrigatória até aos 18 anos. Está relativamente consensualizada a necessidade de diversificar a oferta formativa ao nível do ensino secundário, foi relativamente fácil consensualizar o inglês... Depois, há zonas em que o consenso é menor, mas, aí, o que devíamos era ter a ambição de aproveitar as áreas de grande convergência para dar passos gigantes, poupar e recuperar atrasos. O programa Novas Oportunidades, por exemplo, revelou que havia um milhão de portugueses disponíveis para voltar à escola.

Se o próximo Governo não for PS, o que acontecerá a esta sua política?

É um cenário hipotético sobre o qual não me sei pronunciar.

Dificilmente se manterá tal conflitualidade?

Não lhe sei responder. Procurei conduzir a política educativa de forma a dar passos e a construir onde há consenso. Aproveitei muitos diplomas e enquadramento legal existente, não fiz grandes alterações para fazer a avaliação, bastou partir de um despacho enquadrado na Lei do Currículo Nacional. Foi possível usar todo o trabalho feito em anos anteriores e ir mais além. Qualquer política educativa diferente de recuo não serve a ninguém.

Acha que a Educação precisava de si mais quatro anos?

Não. O importante não sou eu ou outra pessoa. O importante é ter linhas de orientação política e educativa de longo alcance.

Se o PS se mantiver no Governo quer continuar ministra?

Também não sei responder, porque não dou saltos em cenários. O que ainda tenho pela frente é cumprir o mandato até ao fim. Até esse dia é tempo de concluir processos abertos e preparar a abertura do próximo ano lectivo, mesmo com eleições a 27 de Setembro.

Também amaciou as suas atitudes a 7 de Junho, como o Governo fez?

Tínhamos um processo negocial com os sindicatos e continuámos, mas tenho a noção de que em Agosto não se negoceia, sejam quais forem as condições. No caso do Governo, o que aconteceu foi não tomar algumas decisões que podem esperar um mês ou dois porque não vem mal ao País se se respeitar aquilo a que se chama o escrúpulo democrático.

In Diário de Notícias.

terça-feira, 14 de julho de 2009

A SAGA DOS EXAMES DE AFERIÇÃO

Apontamentos, Depoimentos e Entrevista a Nuno Crato sobre o exame de Matemática.


Exames do 9.º ano: Matemática regista melhoria
Duplicam negativas a Português

Três em cada dez alunos do 9º ano teve negativa no exame de Português. As notas abaixo de três quase duplicaram face ao último ano lectivo, passando de 16,7 para 30,1 por cento, de acordo com os números ontem divulgados pelo Ministério da Educação (ME). Já a Matemática houve uma melhoria, com as negativas a baixarem de 44,9 para 36,2 por cento.

Conjugando a nota do exame, que vale 30 por cento da nota final, com a avaliação contínua, verifica-se que a taxa de reprovação a Matemática passou de 26 por cento em 2008 para 24 por cento este ano. Já a Português registou-se um agravamento de um ponto percentual, passando de oito para nove por cento.

O Governo considerou os resultados positivos, mas as críticas não se fizeram esperar, quer da Sociedade Portuguesa de Matemática, quer da Associação de Professores de Português.

A ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, falou em orgulho pelos resultados obtidos. "Gostava de sublinhar que a larga maioria dos alunos teve nota positiva tanto a Português como a Matemática. Isso deve encher-nos de orgulho. É muito positivo e muito bom para o País", afirmou Maria de Lurdes Rodrigues à Lusa, frisando que "é necessário continuar a trabalhar para melhorar" e que o País não se pode "conformar" com estas classificações.

Já o secretário de Estado da Educação, Valer Lemos, afirmou que os resultados dos exames tiveram "variações perfeitamente normais".

Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação de Professores de Português (APP), discorda. "Para nós e para a maior parte das pessoas do Mundo, uma duplicação dos resultados negativos é uma grande diferença, não é uma variação perfeitamente normal", disse ao CM.

Questionado sobre quais as razões para o aumento de negativas registado, o dirigente remeteu explicações para o Ministério da Educação, que acusa de esconder informação dos professores: "As razões só o ME sabe, porque nós, professores, não temos acesso aos resultados pergunta a pergunta. Não sabemos se falharam por não saberem gramática, texto literário ou texto não--literário. Era muito importante os professores terem estes dados e não percebemos porque é que o ME não os partilha", afirmou Feytor Pinto, acrescentando: "Em 2006, as negativas a Português também duplicaram e até hoje não sabemos porquê."

Confrontado pelo CM, o assessor do ME, respondeu que "este Governo foi o primeiro a devolver às escolas os resultados das provas dos seus alunos. Fê-lo com as provas de aferição e vai fazer com os exames, após os dados serem processados".

A Sociedade Portuguesa de Matemática também criticou o facto de o Governo não revelar informação mais pormenorizada sobre os resultados dos exames, apontando igualmente baterias ao alegado facilitismo da prova.

Posição diversa tem a Associação de Professores de Matemática (APM), cujo presidente, Arsélio Martins, considerou que o exame "não era menos exigente do que nos anos anteriores". "Os exames estão a ser cada vez menos um elemento de perturbação. Penso que, neste momento, estamos a aproximar-nos de uma certa normalidade", afirmou à Lusa o presidente da APM, que venceu o Prémio Nacional de Professores em 2007.

APONTAMENTOS

EXAMES DA 2.ª FASE

A Associação de Professores de Português criticou os exames do 12.º ano, 2.ª fase, que se realizaram ontem. "Não existe um equilíbrio no grau de dificuldade entre as provas das duas fases, já que a da 1.ª fase estava elaborada de uma forma muito mais clara e explícita", defendeu num parecer.

19 432 FIZERAM EXAME

Segundo os dados ontem revelados pelo Ministério da Educação, realizaram os exames da 2.ª fase de Português 19 432 alunos dos 27 298 que estavam inscritos, o que representa uma assiduidade de 71 por cento.

"OSCILAÇÕES SÃO ACEITÁVEIS"

Valter Lemos, secretário de Estado da Educação, considerou ontem normais as variações nos resultados dos exames, apesar de as negativas a Português terem duplicado. "Não há nenhum efeito estranho. Há sempre oscilações em todos os países do Mundo e estas tiveram sinais contrários, mas os intervalos foram aceitáveis", disse, em Conferência de Imprensa, no Ministério da Educação.

Valter Lemos foi secundado nesta opinião por Carlos Pinto Ferreira, director do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE), entidade responsável pela elaboração dos exames. "Há sempre este tremor estatístico, mas o importante é ver a tendência de longo prazo", disse.

Para o secretário de Estado, esta tendência é claramente positiva. "Houve um avanço significativo desde o início da legislatura, apesar de muitos nos acusarem de ter uma estratégia de facilitismo", afirmou.

O governante rejeitou também a ideia de que os alunos foram perturbados durante o ano lectivo devido às lutas dos professores. "O ano correu normalmente e os exames de forma exemplar", disse, considerando que os resultados estão num nível positivo e, por isso, "é cada vez mais difícil melhorar".

SATISFAÇÃO EM VISEU: "EXAMES FORAM FÁCEIS"

Na Escola Secundária Infante D. Henrique, em Viseu, o ambiente às primeiras horas da manhã era de relativa tranquilidade e com pouca afluência dos alunos. Aos poucos, os estudantes chegaram e dirigiram-se ao local onde estão afixados os resultados dos exames nacionais. A maioria esboçou um sorriso de "grande satisfação" com os resultados obtidos. Foram poucos os resultados negativos e muitas notas acima do quatro.

"Os exames até foram fáceis", desabafaram alguns estudantes em surdina. Em grupo, sozinhos ou acompanhados pelos pais, foram saber os resultados finais de um ano de esforço. A grande maioria dos alunos ficou satisfeita e deslocou-se à secretaria da escola para preparar a matrícula noutro estabelecimento de ensino. "Chegou a altura de optarmos pelo curso que queremos seguir e pela actividade profissional por que vamos enveredar", referiu Rui Costa, "indeciso" quanto ao seu futuro.

"SITUAÇÃO DO ENSINO É CRÍTICA" (Nuno Crato, pres. Sociedade Portuguesa de Matemática)

Correio da Manhã – Está surpreendido com a melhoria nos exames de Matemática?

Nuno Crato – Não. Na altura dos exames dissemos logo que eram muito simples. Chegámos a dizer no parecer que era "escandalosamente fácil", por isso já esperávamos que as notas subissem. As nossas observações confirmaram--se: dissemos que os exames do 12.º eram mais razoáveis e os resultados baixaram; este foi mais fácil e subiram.

– Como interpreta os resultados?

– O facto de os exames serem feitos com critérios variáveis torna difícil fazer comparações de ano para ano. Mas penso que haver 36 por cento de negativas num exame extremamente fácil significa que o estado do Ensino Básico é, infelizmente, bastante mau, uma situação crítica.

– A Associação de Professores de Português queixa-se por não ter os resultados discriminados por pergunta...

– O Ministério da Educação gosta de guardar informação. É um velho problema. Era importante ter esses dados para saber no que os alunos erraram mais e menos.

– Que consequências trará o facto de os exames serem fáceis?

– Tem implicações a longo prazo, uma vez que baixa as expectativas dos alunos. Fazer exames mais fáceis do que aquilo que estão habituados nas aulas e nos manuais desincentiva-os de estudar.

DEPOIMENTOS

"As minhas notas são um espectáculo. Tive cinco a Matemática e quatro a Português. Mesmo sem ter estudado muito, já esperava ter boas notas porque os exames foram fáceis. Vou seguir a área das Artes porque tenho vocação para isso. Vou de férias muito mais tranquilo." (Guilherme Santos, 15 anos, Viseu)

"Tive negativas a Português e a Matemática. Chumbei o ano e ainda estou a pensar como é que vou contar aos meus pais. A Matemática tive um ano miserável e já contava reprovar, mas a Português não. Fiquei muito surpreendida porque o exame tinha corrido muito bem." (Sheila Gomes, 16 anos, Lisboa)

"Tive três a Português e quatro a Matemática. Para mim foram boas notas, mas tenho a noção de que poderiam ter sido melhores se tivesse estudado um pouco mais. Só me apliquei na véspera das provas, o que foi pena. Quero seguir o curso de Engenharia Civil e por isso vou matricular-me numa escola profissional." (João Castanheira, 16 anos, Viseu)

"Tive piores resultados nos exames do que nas notas da avaliação contínua. A Matemática tive dois no exame e fiquei com três de nota final. A Português tive três no exame, mas fiquei com quatro de resultado final. O mais importante é que passei o ano e claro que estou muito satisfeita." (Rita Silva, 15 anos, Lisboa)

In Correio da Manhã.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

OS OUTROS QUE SE LIXEM

Entrevista à SIC José Sócrates: «Estou muito satisfeito comigo»

Ontem

O primeiro-ministro assumiu que os resultados das europeias «revelam um desgaste político» que atribui à crise financeira e às «tensões e conflitos» gerados com «muitas reformas em pouco tempo». José Sócrates assumiu o «erro» de uma avaliação de professores «burocrática», mas fez um balanço positivo do seu mandato: «Estou muito satisfeito comigo»

Sócrates reconhece um erro de governação

In SOL.

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Primeiro-ministro em entrevista à SIC
Sócrates diz estar "muito satisfeito" consigo

O primeiro-ministro, José Sócrates, disse hoje que o objectivo do PS para as próximas eleições é fazer "uma coligação com o país", sem esclarecer o que fará no caso de não alcançar uma maioria absoluta nas legislativas."Eu tenho um objectivo e não devo comentar outros cenários que retirem força a esse objectivo", afirmou, em entrevista à SIC e SIC-Notícias, lembrando que já em 2004 se recusou a admitir outra hipótese que não fosse a maioria absoluta. Instado a avaliar o seu papel como primeiro-ministro, José Sócrates respondeu: "Estou muito satisfeito comigo (...) É preciso muita determinação para andar na vida pública. Mas não quero ser juiz em causa própria, vamos deixar esse julgamento para os portugueses".

In Público.

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Sócrates: "Estou muito satisfeito comigo"

Clique aqui para aceder ao especial sobre a entrevista do primeiro-ministro, José Sócrates, à SIC . Um dossiê que contém noticiário, reacções, opinião do leitor e comentários áudio de Clara Ferreira Alves e Daniel Oliveira.

In Expresso.

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Entrevista do PM à SIC
José Sócrates: “Estou muito satisfeito comigo”

No rescaldo da moção de censura apresentada pela oposição, o primeiro-ministro José Sócrates abordou hoje, em entrevista à SIC, alguns temas mais polémicos da sua legislatura, como obras públicas, défice, avaliação de professores e BPN/BPP. A entrevista foi conduzida por Ana Lourenço.


Sobre o fracasso eleitoral

José Sócrates afirmou que “é preciso fazer uma leitura séria dos resultados, mas também lúcida e realista”, considerando que a expressão eleitoral revelou “um desgaste político, mas também um estímulo para o PS fazer melhor”.

O primeiro-ministro aponta como causas do fracasso “as muitas reformas que tivemos de fazer em pouco tempo, o que gerou conflitos e tensões em alguns sectores da sociedade, a que se somou a crise económica e financeira mundial. Estes dois factores criaram alguma desilusão”.

Sobre o ensino

Em relação às políticas na área do ensino, que geraram grande polémica, José Sócrates considerou que, embora necessária, “gostava de não ter apresentado uma avaliação de professores tão exigente e tão burocrática”. No entanto considerou que, no geral, as reformas feitas no ensino “tornaram melhor o nosso sistema escolar”, salientando que “quando se olhar para trás, veremos que o que foi feito hoje era necessário”, dando como exemplos a aposta no ensino profissional e o combate ao insucesso escolar. “Quando chegámos ao Governo 11% das crianças chumbavam na segunda classe, conseguimos passar para 6%”, disse.

Sobre o défice, a crise e a manutenção dos empregos

José Sócrates prevê que a sua legislatura vá acabar com o défice previsto de 5,9%. “Está em linha com a média da UE”, disse. “Era o maior défice da UE”, mas “neste momento não há défice excessivo”. “Estamos numa posição confortável. Já ninguém olha para Portugal como um problema a este nível”, acrescentou.

Ana Lourenço questionou o primeiro-ministro sobre a “manutenção artificial dos empregos” que o Estado implementou na sequência da crise. Sócrates revelou que a mensagem que deu às empresas foi: “Em vez de despedirem as pessoas, ponham-nas em formação. Nós pagamos. (...) A Leon, uma das fábricas que ajudámos, já está a trabalhar, até com horas extraordinárias”.

José Sócrates invocou a crise mundial iniciada em 1929 com o crash da bolsa de Wall Street e a doutrina de Keynes: “[nessa altura,] a única resposta inteligente foi o investimento do Estado.”

“Neste momento, o sector privado não faz investimento, tem de ser o Estado a fazê-lo”. Sócrates justifica assim a antecipação das reformas previstas para os próximos anos.

Sobre o TGV

O primeiro-ministro criticou o “atraso na execução dos grandes projectos”, afirmando que “o adiamento destes investimentos e hesitação há quinze anos prejudicam o País”. “O que está em causa é o seguinte: queremos uma estação de alta velocidade em Lisboa ou queremos ir apanhá-lo [TGV] a Badajoz? Não quero que o país fique para trás”, disse.

Em resposta às críticas do PSD em relação ao TGV, José Sócrates relembrou aquilo que disse, esta tarde, no Parlamento, mostrando um documento assinado por Durão Barroso em 2004 que se comprometia com “5 linhas de TGV”.

Contou: “Vivia na Covilhã e durante a minha geração demorávamos cinco horas a chegar a Lisboa. (...) Pagámos a factura [das autoestradas] durante décadas, mas eu aceito pagar. (...) Pagámos a ponte 25 de Abril durante várias gerações.”

Sócrates acha que o comentário do Presidente da República sobre o facto de o Governo ter remetido o TGV para a próxima legislatura, “aplaudiu o escrúpulo democrático do Governo. (...) É melhor esperarmos que o próximo Governo tome posse para decidir.”

“O TGV dá emprego e oportunidade de negócio.”

“Na altura em que o BPN foi nacionalizado, foram nacionalizados sete bancos europeus. (...) O Governo americano não agiu [na falência do Lehman Brothers] e a consequência foi a quebra generalizada da confiança nos bancos.”

O primeiro-ministro voltou a dizer que a decisão de nacionalizar o BPN foi tomada porque a falência do banco comprometia o sistema bancário português. “Tomámos uma posição diferente no BPP agora porque temos a certeza de que não afectará o conjunto” e “se o BPP desaparecer isso não cria problemas para o sistema bancário”, insistiu.

O Governo aceitou "que o banco pode falir” . Sócrates considera que o concedeu ao banco uma “morte assistida”, garantindo os depósitos dos clientes.

Sobre os clientes do Retorno Absoluto, que tinham adquirido capitais de risco, o primeiro-ministro disse: “Encontrei muitas dessas pessoas e estão muito longe de ser pessoas riquíssimas, muita gente tinha [no BPP] as poupanças da suas vidas, e parte-se-me o coração saber que o banco lhes mentiu”.

No entanto, concorda com as declarações do ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, que disse aos clientes que deveriam colocar o banco em tribunal e que o responsável pelo que lhes aconteceu não é o Estado e, portanto, não deve ser o Estado a resolver o problema.

“Tenho esperança de que as coisas melhorem e de que os activos valorizem para as pessoas recuperarem os seus investimentos”, declarou Sócrates. Questionado sobre se seria possível ajudar estes clientes, afirmou: “abriríamos um precedente terrível: teríamos de indemnizar todos os investidores que fossem alvo de vigarices por causa de um banco”.

Sobre se Vítor Constâncio se deve demitir

Partidos como o PCP e o CDS-PP têm dito que o Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, se deve demitir por não ter agido no caso BPN. Sócrates acha “injusta” a avaliação.

“Custa-me ver a comissão de inquérito ser tão respeitosa com aqueles que cometeram as irresponsabilidades que cometeram com a administração do banco e tão agressiva com o governador do Bando de Portugal. Acho isso chocante."

Para Sócrates, a comissão foi “solícita e compreensiva" com os administradores.” Mas admite que “no caso da supervisão temos que tirar lições”, embora refira que “as falências são provocadas pela crise, mas os males do banco devem-se a uma gestão absolutamente irresponsável, para não dizer suspeita, de actos criminosos absolutamente indecorosos”.

Sobre o futuro governo

Em relação às próximas eleições e a um futuro governo, José Sócrates afirmou que “o futuro governo será um governo com novas realidades”, salientando que “fizemos reformas que ninguém teve coragem de fazer e que agora estão feitas. O futuro governo não terá de olhar para trás. Os sacrifícios que pedimos aos portugueses foram para pôr as contas públicas em ordem. Se não tivéssemos feito isso agora não podíamos ajudar ninguém”.

Na entrevista, o primeiro-ministro não revelou detalhes sobre uma possível coligação. Disse apenas:"O objectivo do PS é fazer uma coligação com o país."

Para Sócrates, a derrota nas europeias não abalou a legitimidade do Governo. “A nossa legitimidade está intocável”, disse. “Considero um abuso daqueles que querem transformar as europeias em legislativas”, e acrescentou que "questionar a legitimidade do Governo é um desrespeito para a democracia”.

Demarcou-se do PSD: "distingue-me do PSD um ponto: as funções sociais do Estado. O Estado tem um papel na nossa sociedade, proteger quem deve ser protegido, não deixar ninguém para trás e deixar áreas na mãos do Estado como educação, saúde e Segurança Social."

José Sócrates acusou a agenda do PSD de estar "escondida" quando defende a privatização parcial da Segurança Social.

Lembrou as declarações mais polémicas de Manuela Ferreira Leite: "Não me ocorreria dizer que o casamento tem como objectivo a procriação ou que as obras públicas servem para cabo-verdianos e ucranianos".

"Sou de uma esquerda que acha absolutamente necessário que o Estado tenha as contas públicas em ordem."

"O próximo-primeiro ministro não precisa de se preocupar com as contas do Estado."

Para finalizar, Ana Lourenço perguntou a José Sócrates se se achava um bom primeiro-ministro. A resposta foi: "Estou muito satisfeito comigo."

In Diário de Notícias.

sábado, 6 de junho de 2009

BANALIDADES ARREPIANTES DE PSEUDO GURUS

A parte inicial da entrevista já foi publicada aqui: Efeitos do poder.


Entrevista com Ana Maria Bettencourt
“As escolas não prepararam os professores”

05.06.2009 - 07h00 Bárbara Wong

Ana Maria Bettencourt admite que o ensino superior não tem preparado os professores para responder aos desafios que os alunos com dificuldades colocam. É preciso mais investimento em formação contínua, recomenda.

Os professores estão motivados para trabalhar de uma maneira diferente?

Os professores estão muito interessados em fazer o melhor. A formação contínua é muito importante para motivar as pessoas, a escola tem que ser um pólo de pensamento, de reflexão das aprendizagens, dos resultados, dos projectos e acredito que há grande motivação.

Concorda com as as críticas que têm sido feitas à formação inicial?

As escolas superiores não prepararam os professores para o mundo complexo que é a educação. Não posso generalizar, mas todos os professores que encontro no terreno não preparam bem os futuros professores para responder à diversidade e a diferenciação entre os alunos. Há um problema com a formação inicial e também com a contínua. Neste momento em que não precisamos tanto de formar novos professores, a formação contínua tem que ser a grande aposta. Os recursos da formação inicial devem ser canalizados para a contínua.

São exigidas mais competências à escola que não apenas a de ensinar?

As questões que vão bater à porta da escola são cada vez mais e são terríveis. É preciso mais parcerias com autarquias, associações, comissões de protecção de jovens e com os pais.

Os professores queixam-se por acumular muitas competências como ser psicólogo, assistente social, terapeuta...

Mas, os professores têm que ser um bocadinho disso tudo. Há três componentes na missão do professor. Uma é mudar o paradigma do trabalho dentro da sala de aula: mais trabalho e mais acompanhamento aos alunos. A segunda é que o professor tem que ter função de tutoria, de enquadramento e apoio ao aluno; ajudar um aluno com crise pessoal ou que não consegue aprender. A terceira componente é o trabalho em equipa.

A que os professores não estão muito habituados?

O trabalho de equipa é muito importante, um aluno com dificuldades precisa de todos os professores. Há um problema de lideranças pedagógicas e pouca eficácia nas reuniões. As escolas têm que ser avaliadas se resolverem os problemas e se não o fazem têm que explicar porquê.

E a avaliação dos professores?

A avaliação dos professores tem que ser avaliada. O CNE, relativamente a esta questão, tem outro tempo. Muito atento a dados mais palpáveis, mais sistemáticos.

In Público.


A outra parte da entrevista está aqui.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

EFEITOS DO PODER

Esta é uma entrevista que revela a autoridade no eduquês de quem trocou a sala de aula pelos gabinetes da Assembleia da República e da Presidência da República. Dificilmente saberá do que fala. Volte para a escola!


Entrevista Ana Maria Bettencourt
"O que proponho é mais trabalho para professores e alunos"

05.06.2009 - 07h00 Bárbara Wong

Foi deputada do PS, foi assessora para a Educação do Presidente da República Jorge Sampaio e assumiu agora a presidência do Conselho Nacional da Educação (CNE). Ana Maria Bettencourt é professora e investigadora. É o contacto com as escolas do Norte da Europa que a faz ter a certeza que para conquistar o sucesso escolar é preciso mais trabalho, de professores e de alunos. Ainda não sabe qual vai ser a agenda do CNE para os próximos quatro anos, mas quer dar continuidade ao parecer sobre a educação dos 0 aos 12 anos, assim como a outro sobre o alargamento da escolaridade obrigatória para 12 anos. “Como organizar a escola, para que todos aprendam”, é a grande questão a responder em ambos os pareceres.

O Conselho Nacional de Educação (CNE) tem vindo a perder importância?

O CNE é o único conselho da Europa que tem um presidente eleito pela Assembleia da República, o que lhe dá um estatuto de independência. Por outro lado tema representação de pessoas vindas de várias áreas, de várias escolas, do mundo do trabalho, sindicatos, associações de pais. O mundo conhece mal a realidade do CNE; é preciso encontrar alguns caminhos para o dar a conhecer. O CNE faz muito trabalho de edição, de audições, tem ligações internacionais. O CNE tem como missão, por um lado, anunciar, abrir caminho para algumas mudanças; e, por outro lado, ajudar a preparar essas mudanças.

Não tem havido dificuldade em passar a mensagem e de chegar, por exemplo, ao Ministério da Educação que deveria ser o principal interessado nas conclusões do CNE?

O tempo do CNE tem que ser diferente do tempo do ministério. Os ministérios têm uma agenda própria e não têm que seguir o CNE, mas ouvi-lo. Os nossos principais destinatários são o ministério e a Assembleia da República. Há agendas, há ritmos próprios, mas acredito que o CNE possa ganhar mais pertinência.

Como conselheira do CNE, foi relatora de um parecer sobre a escolaridade dos 0 aos 12 anos. Como é que este foi acolhido pela tutela?

É um parecer que avança muito em alguns aspectos e o Governo tem outro timing, outra agenda; mas não quer dizer que o deixe cair.

Entretanto, a ministra propôs a introdução de uma segunda língua no 2.º ciclo. Concorda?

Na Finlândia, há alunos dessas idades [10 a 12 anos] a estudar cinco línguas, há percursos muito centrados nas línguas porque os finlandeses dizem que são um país periférico e têm que aprender. O problema não é o ensino de duas línguas, mas a consolidação da compreensão das mesmas. O estudo de uma língua estrangeira é um problema, tal como são todas as disciplinas com muitas precedências, que exigem consolidação de competências.

Como acontece também com a Matemática. Como é que se resolve esse problema?

Hoje em dia, temos mais capacidade para resolver problemas, mas para isso, os professores têm que trabalhar mais. Não podem ser só as famílias, embora estas sejam importantes; é a escola que tem que ter muito mais responsabilidade.

Até que ponto os professores não continuam a contar muito com a família para dar apoio ou para pagar explicações?

A OCDE tem um documento sobre o insucesso escolar em que recomenda: “Intervir ao primeiro sinal de dificuldade”. Ou seja, não deixar arrastar dificuldades, porque isso põe problemas gravíssimos às disciplinas com precedência. Outra coisa importante é a capacidade de diferenciar percursos, ou seja, quando há um aluno com dificuldades, a escola tem que ser mais organizada nos percursos individuais. A escola deve assentar não no aluno imaginário, mas naquele que existe. Não é o ensino centrado no programa, mas no aluno, porque o programa é pouco útil se os alunos não aprenderem. Essa mudança de paradigma é muito importante: pôr os alunos a trabalhar sozinhos, a corrigir os seus trabalhos, enquanto os professores ajudam os que têm mais dificuldades.

Mas os alunos não têm só problemas de aquisição de conhecimentos, mas de comportamento...

Aí deve haver tolerância zero.

Tem sido acusada de “facilitismo” porque defende que os alunos não devem chumbar?

Faciltismo? Odeio essa palavra. Um aluno que chumba várias vezes é porque não foi apoiado e vai acabar por desistir, o que é mau para ele e para o país. O que defendo é que os professores compreendam as dificuldades dos alunos, insistam e trabalhem muito. Isto é muito importante, para poder resolver, porque se não, os professores dão sempre mais do mesmo. Um dos aspectos que me impressionou na escola finlandesa foi os alunos trabalharem imenso. Existem alunos com dificuldades, são apoiados e vão fazer a sua escolaridade. Eu defendo isto e não que os alunos passem sem saber. O que proponho não é facilitismo, mas mais trabalho para os professores e para os alunos.

Mas esses apoios já existem na escola, onde há aulas de apoio e de recuperação. É preciso mais?

Eu não falo desses apoios, mas do trabalho do professor na sala de aula, com os alunos. O professor tem que ensinar mais e de outras maneiras. É muito importante o trabalho em sala de aula, porque se o aluno tiver que trabalhar, não pode fazer gazeta e aprende. Isto não é facilitismo, facilitismo é a pessoa ignorar. A escola não pode ser indiferente às diferenças. O que diferencia as escolas, nos países do Norte da Europa, é a atenção dada aos alunos.

É desse modo que se evitam as retenções?

O insucesso escolar é uma situação insatisfatória e está provado que reter um aluno não resolve, isso prejudica os alunos que começam a criar resistências à aprendizagem. É preciso encontrar outra solução que é trabalhar mais e ir mudando os percursos.

Deve haver exames nacionais no final de cada ciclo?

O problema do sucesso nas aprendizagens não depende de mais exames. Está mais do que provado que não é com exames que se responde aos problemas dos alunos. As provas de aferição são um bom instrumento de auto-regulação. Há escolas que trabalham os resultados das provas de aferição. Também há outras que trabalham para a prova, o que é falsear a questão porque o objectivo não é ter bons resultados, mas é aprender com os resultados que se obtêm.

In Público.

sábado, 30 de maio de 2009

NA ÍNTEGRA, AO JORNAL "PÚBLICO"

A edição de hoje do jornal Público traz diversas declarações de membros dos movimentos independentes, nomeadamente do MUP. As respostas dadas às questões colocadas pela jornalista Clara Viana foram, porém, muito mais desenvolvidas do que os excertos que o jornal publicou. Eis, na íntegra, as respostas do Coordenador do MUP:

- O surgimento e acção dos movimentos independentes de professores mudou a luta dos professores ? Porquê? Como? Ou os sindicatos "venceram" ?

É hoje dado indiscutível que a luta dos professores se alterou completamente com o aparecimento e acção dos movimentos independentes. Nascidos de um défice da acção sindical que pouco evoluiu, e muito regulada por calendários político-partidários, os movimentos foram a única forma que os professores tiveram de se organizar para fazer valer as suas verdadeiras preocupações e fazer sentir às organizações sindicais o combate que deveria ser feito.
Os movimentos independentes, especialmente o MUP e a APEDE, foram determinantes para o rompimento do malfadado “Memorando de Entendimento”, que esvaziou todo o capital de força saída da primeira grande manifestação de Março de 2008, e para levar os sindicatos a marcar uma nova manifestação em Novembro do mesmo ano, naquela que até hoje foi a maior manifestação de professores em Portugal.
Os movimentos tornaram-se, assim, o motor de uma nova dinâmica, que os sindicatos, para não perderem a sua esfera de influência, se viram forçados a seguir.
Quando se fala em sindicatos e em movimentos, não se trata de saber quem saiu vencedor ou vencido. O inimigo de ambos é comum e foi personalizado pela pior ministra da Educação que houve em Portugal. Os movimentos têm consciência do seu papel e das suas limitações e não querem - nem podem – tomar o poder ou o protagonismo dos sindicatos. Mas se estes se acomodarem na inépcia da luta e continuarem apenas a marcar presença nas negociações e a reger-se por calendários político-partidários arriscam-se a perder muita da influência que possuem e a tornar a sua força e representatividade diminuídas.


- Esperava que a ruptura pudesse ter sido maior?

Naturalmente, esperava que os sindicatos tivessem sabido interpretar o verdadeiro sentir dos professores depois de duas mega-manifestações, de uma grande manifestação na semana seguinte, todas em Lisboa, de duas greves de adesão elevadíssima, de uma concentração em Janeiro e de uma série de pequenas acções que se foram realizando por todo o País, nas escolas ou fora delas.
Durante o segundo período foram os movimentos a manter a pressão. Os sindicatos passaram o tempo em reuniões com o Ministério da Educação e nada produziram em benefício dos professores, alimentando falsas expectativas para dizerem agora que os professores desmobilizaram perante acções inócuas, como a greve de dois tempos.
A própria consulta que fizeram aos professores sobre formas de luta foi uma falsa consulta, pois antes dela já estava tudo decidido: manifestação a 16 de Maio, que apenas foi alterada para 30 em virtude das comemorações do cinquentenário do Cristo-Rei. Além disso, em muitas escolas não apareceu qualquer delegado sindical para promover os debates. A luta deveria ter sido radicalizada no início ou durante o segundo período, mas os sindicatos talvez tenham receado perder a hegemonia na condução dessa luta, ao contrário dos movimentos cuja expressão é o genuíno sentir dos professores.
Em suma, neste processo de luta há pelo menos quatro pecados capitais dos sindicatos: a assinatura do Memorando de Entendimento depois da manifestação dos 10.000; a fraca determinação e clareza no aconselhamento da recusa dos objectivos individuais, pois, em muitas escolas os delegados sindicais foram os primeiros a entregar os objectivos e muitos dos colegas receberam instruções das estruturas sindicais para procederem à entrega; não terem decretado uma greve por tempo indeterminado em Janeiro deste ano; e não terem tido uma postura pró-activa e agindo como um farol para os professores.


- Quando iniciaram as movimentações, contava chegar ao fim do ano lectivo nesta situação no que respeita tanto à avaliação, como ao ECD?

Sinceramente, no início, esperava que se tivessem obtido outros ganhos, antes do final do ano lectivo. Depois, à medida que fui percebendo que dificilmente os sindicatos alteravam a sua forma de agir e que o calendário das lutas era mais político-partidário do que pelos verdadeiros problemas dos professores, percebi que não obteríamos grandes resultados, quer na avaliação (não houve qualquer avanço, pois o modelo previsto depois do “simplex”, mantém-se inalterado para o próximo ano lectivo), quer no ECD.
Mas a luta ainda não está perdida. Não tenho dúvidas de que, enquanto não for desfeita a bizarra divisão das duas categorias de professores (titulares e não titulares) para uma mesma função, não for suspenso e alterado o modelo de avaliação imposto, o restabelecimento da gestão democrática nas escolas, a manutenção do vínculo por nomeação definitiva, a preservação dos quadros de escola e a manutenção do carácter nacional dos concursos, dificilmente haverá paz nas escolas e qualidade de ensino. E os professores, porque não conseguem acomodar-se à destruição da escola pública, continuarão a sua luta, que é também uma luta por um País melhor.


- Entregou os OI? Na sua escola foram mais professores que entregaram ou o inverso?

Não, tal como milhares de professores no País, não entreguei os Objectivos Individuais, pois não podia pactuar com um modelo de avaliação com o qual não concordava e que o “simplex” veio transformar numa treta e numa pseudo-avaliação.
Na minha escola foram mais os professores que entregaram os objectivos, a maior parte deles fê-lo coagida sob as graves pressão e ameaças que o Ministério da Educação fizera. Foi tenebroso ver a angústia dos colegas revoltados agindo contra a sua consciência, mas pressionados pelo medo.


- Como está o ambiente na sua escola? Os professores estão divididos, há mal-estar, por causa das posições adoptadas quanto à avaliação?

Em primeiro, há que dizer que a minha escola é um caso sui generis. Por estar em obras, foi dada autorização para que houvesse apenas uma aula assistida para os candidatos a “Muito Bom” e a “Excelente”. Ora, a primeira pergunta que se impõe é se se pode determinar a excelência de um professor só porque preencheu um página A4 com seis objectivos e teve um desempenho “excelente” numa aula. Além de bizarro, é um logro, é um verdadeiro embuste, ao contrário do que a Sra. Ministra e o Primeiro-Ministro pretendem fazer crer. É depois de uma avaliação mais ou menos assim que o Ministério vai dizer que a avaliação decorreu com toda a normalidade e até houve não sei quantos professores que tiveram um desempenho “excelente”. Isto é um autêntico logro, é uma autêntica mentira, que facilmente engana os portugueses afastados das questões do ensino!
Não é de estranhar que durante o processo tenha assistido a coisas bizarras, desde grandes preocupações de alguns em preparar a tal aula assistida, querendo saber como se faz isto, como se faz aquilo, como fez este, como fez aquele, tens isto, tens aquilo...
Como o processo ainda não está concluído, não são ainda visíveis todas as consequências do processo. Há quem tenha levado tudo na brincadeira, há quem viva na ansiedade da avaliação final e há quem já esteja à espera do momento do disparo.

A QUEM MAIS É PRECISO ABRIR OS OLHOS?


Entrevista
Filósofo José Gil diz que o Ministério da Educação “virou todos contra todos”


29.05.2009 - 22h44 Clara Viana


PÚBLICO - No seu último livro apresenta o “homem avaliado” como sendo a “figura social do século XXI”. Trata-se de facto de uma alteração radical? Ser-se avaliado não é propriamente uma novidade destes tempos.

José Gil - Estamos a falar de uma situação generalizada na sociedade dita da modernização. Não é só em Portugal, é em toda a Europa. Não há duvida que não pode haver aprendizagem sem haver avaliação e que toda a aprendizagem, a mais arcaica que se conheça, a aprendizagem do discípulo que tinha um mestre na Renascença, na pintura, ou na Índia com um yogui que ensinava um discípulo. Em todas essas práticas há avaliação. Quer dizer a avaliação é inerente, necessária, à própria aprendizagem.

O que é que, se é que, se transformou nesta tal sociedade da modernização? O que é que se fez, modificou na ordem de relação entre aprendizagem e avaliação para que se possa falar agora de um homem avaliado para o século XXI? Tenho a impressão que há vários factores. Primeiro há um factor que acho fundamental. É que a avaliação arcaica era uma avaliação não quantitativa. Era uma avaliação mais qualitativa ou intensiva. Depois a avaliação tende a tornar-se funcional e se possível, quando possível, quantificada, desenvolvendo parâmetros.

E incluindo nesses parâmetros o próprio terreno de aprendizagem que não é quantificado. Há sempre na aprendizagem aquilo que se chamava antigamente na filosofia, e hoje também, a intuição. A intuição é fundamental porque se aprende à sua maneira. Não é um dado formal, universal, que se possa definir da mesma maneira para todos.

P - Não se pode comparar, quantificar?

JG - Não. O que se põe agora nos parâmetros e critérios de avaliação, que se multiplicaram, é uma espécie de factores analisados, decompostos, daquilo que era o terreno da intuição. Por exemplo, mede-se a criatividade. Ora a criatividade o que é? O que é a produção do novo? Como é que se inventa? Quais são os processos de invenção?

Como sabemos, na ciência, a invenção está muitas vezes fora da escolaridade, do ensino, das regras. São as pessoas um bocado desviantes que fazem as maiores descobertas e depois tornam-se Nóbeis, etc. Isto tudo é abolido pelo controlo da avaliação. Quer dizer vai-se abolir a singularidade, a capacidade de inovação, porque se integra este terreno da intuição numa aferição da performance, do desempenho, que é quantificável.

Ameaça à criatividade

P - O que é que propicia essa mudança? É a globalização? O modo de produção?

JG - Acho que é absolutamente o modo de produção. O economicismo não é só português, é por toda a Europa. O que significa que os critérios de avaliação que vão transformar essa intuição, essas capacidades, esse acaso que há em nós, e que pode provocar cruzamentos que, de repente, fazem nascer qualquer coisa, vão ser formatados, vão ser avaliados. E como não se pode avaliar isso, as pessoas que vão ser submetidas a essa avaliação vão ser homogeneizadas, o que conduz à morte da singularidade. E isto é muito importante.

O que aconteceu foi, portanto, uma inversão a ordem de subordinação aprendizagem/conteúdos, por um lado, e, por outro lado, a avaliação .Quer dizer que a avaliação multiplicou os seus parâmetros e absorveu o terreno da aprendizagem, de tal maneira que passou a ser o critério que vai definir a aquisição de conhecimentos, os resultados da aprendizagem, etc. Antigamente era o contrário. A avaliação, por um lado, já estava integrada e subordinada à formação do indivíduo e à aquisição de conhecimentos e integrada num, terreno em que se mexia também toda uma série de factores de que nós não podemos ter, felizmente, o controlo. Que são os factores da criação.

P - As utopias políticas do século passado anunciaram um “homem novo”. A avaliação, como a descreve, aponta para um homem com uma postura de subordinação. Qual é o objectivo que está subjacente?

JG - A formação de uma subjectividade adequada às exigências da economia da globalização, da economia que vem aí, cujo eixo principal é o capitalismo, de que nós talvez ainda nem conhecemos as formas. Mas isso parece-me evidente. E o que é mais paradoxal é que nunca se falou tanto em criatividade, em inovação como agora, quando se estão a impor os meios de um controlo para que a inovação, criatividade, desapareçam.

P - Institui-se a avaliação como meio de controlo, como relação de poder?

JG - É uma questão de controlo e uma questão de poder. Isto não vai fazer desaparecer a inovação, não vai fazer desaparecer as grandes descobertas científicas. O que vai fazer é criar um hiato, uma separação cada vez maior. Vai haver uma elite hipercientífica, filosófica não sabe, hiperespecializada, e essa sim poderá inovar.

Para os outros estamos a multiplicar os parâmetros de avaliação, absorvendo essa margem de indeterminação num espaço de controlo cada vez maior. E com isso estamos a acabar precisamente com a experimentação interior, o erro possível, a liberdade interior que é possível e necessária à criação.

Há uma multiplicação extraordinária da extensão da avaliação. Hoje todos somos avaliados. Em tudo. Avalia-se as performances sexuais, as performances desportivas, psíquicas

P- Parentais

JG - Parentais, cognitivas. E tudo para um fim que é predeterminado, a produtividade. Estamos a querer cobrir toda a margem da actividade pelo conhecimento É por isso que se diz que é uma sociedade de conhecimento. Quer dizer não estamos, estamos a fazer como se devesse reduzir ao máximo, e imediatamente e rapidamente, o campo da ignorância. Ora o conhecimento vem da ignorância. É preciso que haja não conhecimento, que haja ignorância, que haja qualquer coisa que não está imediatamente lá. E isto porquê? Porque o conhecimento é relativo. Ora a julgar que estamos a esgotar todo o campo da actividade de criação, quando não é isso, é qualquer coisa que nós não sabemos o que é, e que talvez seja necessários que não saibamos para que haja criação.

Relação afectiva foi destruída

P- Pode-se dizer que o modelo de avaliação aprovado para os professores do ensino básico e secundário constitui uma exponencialização do fenómeno que descreveu?

JG – Absolutamente, porque, para empregar a sua palavra, houve uma exponencialização dos parâmetros. É incrível o número de parâmetros, das grelhas de avaliação, das propostas. Sem se saber como é possível. Em Portugal passou-se uma coisa muito má. Tudo aquilo, a avaliação que o Ministério propõe, com que não estou de acordo, pressupõe uma relação entre professor e aluno que foi destruída.

Quando se vai aferir numa grelha de avaliação a relação afectiva entre professor e aluno, porque somos muito espertos e sabe-se que a afectividade tem uma importância enorme na cognição, na aprendizagem cognitiva. Mas a relação afectiva foi destruída.

P - Não estava já a sê-lo antes?

JG - Tem vindo a ser destruída, mas actualmente a sua destruição foi precipitada pró esta reforma. E pelo tratamento a que os professores foram submetidos. É preciso que o professor tenha uma autoridade espontânea. E idealmente não tenha que a exercer. A relação antiga do mestre e discípulo na Renascença, por exemplo, é essa. Não é uma relação de poder.

P - É uma relação de reconhecimento?

JG - Em que o discípulo vai aprendendo para chegar ao ponto em que ele vai estar no máximo das suas possibilidades. Não é uma comparação entre mestre e discípulo. Ele já não precisa do mestre e é o mestre a dizer-lhe: ‘Vai-te embora’. Isso já não existe agora, mas é um modelo de que nós precisamos, de certa maneira.

Nas crianças, na escola primária, a relação afectiva com a professora é fundamental para as aprendizagens Se se corta esse laço aquilo dá imediatamente impossibilidades. É um obstáculo.

Posso dizer, toda a gente pode dizer, que um dos efeitos da politica do Ministério da Educação foi virar todos contra todos. Virou-se os alunos contra os professores. Como é que é possível dar uma aula nas condições que me contam os meus alunos, que são hoje professores?

P- É uma característica que também já vem de trás, que não é apenas responsabilidade deste Ministério. É também da comunidade, das famílias?

JG – Sim, mas o que se fez foi precipitar uma tendência que deveria ter sido estancada. Denegriu-se ainda mais, com aspectos que nós conhecemos, que são denunciados, e que são verdadeiramente insuportáveis. Não é só a arrogância de que se fala, é o desprezo. Depois ser desprezado pelos alunos. O desprezo leva ao desprezo que os alunos podem ter e podem exprimir. Quem és tu? diz o aluno para o professor. Como é que quer que haja grelhas de aferição da aprendizagem ou que haja aprendizagem que funcione neste esquema?

P- Parece ser a vertente esquecida, quando é fundamental da escola, a aprendizagem

JG- A aferição, a avaliação, tem de dedorrer dos conteúdos e não o contrário. E isto foi feito com multiplicação amadorística, nada profissional, era quase para cobrir uma falta de pensamento sobre o que ensino, sobre o que é ensinar, sobre o que a formação. Não estou falar em velhas ideias humanista de formação. Sei que é preciso outras coisas novas. Mas disso tem que se falar. O que é que se ensina, como se ensina? Como desenvolver uma curiosidade que preexiste na criança? Hoje ninguém mostra curiosidade. Não há curiosidade. Porquê? Depois aparecem as arrogâncias da ignorância, que é o pior que há.

Você não existe

P– No seu entender, qual é o objectivo deste modelo de avaliação?

JG - Em Portugal havia uma espada de Damocles sobre o Ministério, todos os Ministérios, que é o dinheiro. Por outro lado, há um problema real de que os sindicatos não falam.

A nossa escola não estava boa. Muitos professores, ou pelo menos uma parte deles, não têm qualificações. Com a avaliação, alegadamente, matavam-se dois coelhos: reduziam-se as despesas, reduzindo o pessoal, e punha-se fora os que não eram bons.

Mas o que é que aconteceu?. Muitos dos que eram bons é que saíram. sairam. Porquê? Não aguentam. E o que é que eles não aguentam? Não aguentam não poder ensinar, não aguentam não poder ter uma relação em que precisamente se construa um grupo em que o professor age, em aprende ensinando, em que os alunos querem.

Tem que haver avaliação. Não pode é haver a inversão da subordinação da avaliação porque agora se estuda para se ser avaliado. Veja as Novas Oportunidades, para que é que serve?

P- Para fornecer um diploma?

JG- É o chico-espertismo que entrou na escola. Vamos não trabalhar para obter um diploma.

P- No seu livro alega que há como que um objectivo maior. Conjugando as políticas e omodo como o Ministério reagiu à contestação dos professores, está-se perante uma estratégia de domesticação?

JG- Isso parece-me evidente. É um projecto maior, que talvez não seja muito consciente na cabeça dos nossos dirigentes e, em particular, na do primeiro-ministro José Sócrates.

A ideia intuitiva, ele ainda tem intuições, é a de que o autoritarismo é um método económico. Resolvem-se mil coisas. Há essa ideia: funciona ser autoritário. Uma vez vendo que funciona, vamos estender. Os portugueses querem um certo autoritarismo, nós tomos, que estamos desnorteados, perdidos. O autoritarismo é um meio de governo. Não é traço qualquer. E como não há quase resposta a este autoritarismo, ele rebate-se, plasma-se, na realidade.

P- Mas existe contestação. Por exemplo, precisamente por parte dos professores ao longo de todo este ano.

JG - E qual foi a resposta do Governo? Foi uma resposta autoritária extraordinária que foi dizer: você não existe. Faz-se como se 120 mil manifestantes não existissem e isso vai paralisar, vai desmoralizar. A primeira fase é a perplexidade, depois vem o desânimo, depois vem a depressão. Certamente que muitos que pediram a reforma antecipada estavam na manifestação.

P - Ficámos com uma escola pior?

JG- Arriscamo-nos a isso. A escola já não era boa. A escola precisa de reformas, é necessário pensar uma avaliação, mas para pensar uma avaliação temos primeiro que pensar em conteúdos. A primeira das coisas a fazer é revalorizar os professores, agora. A relação geral dos alunos relativamente ao saber é de rejeição. A ideia do professor como alguém que abre as portas para o mundo acabou ou está em vias de acabar. Isto tem de ser restaurado.

Depois tem que se parar com a avaliação multiplicada a todo o instante. Estamos sempre a comparar-nos. O mal desta avaliação é que ela compara e a competitividade, a rivalidade, que existem numa escola, que são necessárias para a aprendizagem, torna-se inveja.

O chico-espertismo

P - A avaliação entre pares, defendida neste modelo, pode acentuar ainda mais esse risco?

JG- Por mais voltas que dê, não vejo como isso possa ser feito no clima actual. É muito mais propícia que toda uma série de rivalidades não saudáveis comecem a aparecer, para que novamente a esperteza arranje canais para que a avaliação seja deturpada, mascarada. Para mim. é envenenar ainda mais. A avaliação tem de ser feito por um terceiro. Alguém de fora, mas da mesma disciplina. Não pode haver professores de Educação Física a avaliar um professor de Português.

P- O chico-espertismo de que fala é uma característica dos portugueses, que encontrou agora um campo mais propício?

JG - Foi o Marcelo Rebelo de Sousa que disse que Sócrates era um meio chico-esperto. Quando há uma característica pessoal de um chefe e este tem a possibilidade de a tornar real, transformando mecanismos psíquicos em comportamentos, isso provoca patologias colectivas. Mas patologias não só das pessoas, como patologias do funcionamento dos serviços. E o que parece estar a constituir-se é um chico-espertismo, uma palavra horrível.

P – O que é espera do próximo ano lectivo?

JG – Nada. Eu estou desolado. Estou desolado com o que está a acontecer, porque esperava muito da educação.

P- Nesta legislatura?

JG- Sim, no princípio. Mas foi muito rápido ver que a coisa não ia bem. É uma oportunidade perdida. Quando ouço os economistas dizerem que Portugal pode ficar entalado, há qualquer coisa no meu ser português que vibra mesmo. Porque podíamos ser outros. Temos terrenos de afectividade em escolas que já não existem noutros lados. Considero muito grave a quebra do laço entre alunos e professores. É tudo mal feito. Há que inflectir, revalorizar os professores.

In Público

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